Sábado, Maio 15, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XVI

A descida foi feita com alguma insensatez. Os degraus de pedra molhados deste lado da montanha escorregavam, mas eu queria chegar a Paqaymayo o mais depressa possível. Não precisava de ser a primeira, simplesmente não queria ser a última. Os meus amigos tinham ficado para trás, descendo os degraus devagar, apoiados com os bastões. Eu saltitava, ajudada também pelos meus bastões, mas querendo acompanhar o ritmo dos meus outros companheiros. A paisagem voltou a transformar-se em floresta luxuriante, com zonas perfeitas para aventuras do Indiana Jones. Havia pequenas pontes de madeira sobre regatos borbulhantes que corriam rápido por entre as pedras. O céu estava nublado ainda, pois não parava de chover, mas eu saltitava de pedra molhada em pedra molhada, imune aos perigos de uma entorse (ou pior). Por duas vezes dei uns valentes bate-cus. Mas em vez de me fazerem abrandar o passo, ria-me e incentivavam-me a saltitar ainda mais. De qualquer das formas era impossível ir à mesma velocidade que o John, mas seguia de perto o Andrew, que seguia compenetrado, segurando a sua grande máquina fotográfica, à minha frente. Ainda lhe pedi para me tirar duas fotos, perto de uma cascata muito bonita. Sentia-me cada vez melhor. Cada degrau que descia significava mais oxigénio a entrar nos meus pulmões.

A descida era íngreme e rápida. O mal-estar foi reduzindo até a um nível suportável, sem arrotar. A chegada ao acampamento foi mais ou menos triunfante, visto a Kate ter dito surpreendida Oh, you already arrived?! Pois, pois, cheguei sim senhora, julgavas que eu era lenta, não foi? Mas isso foi só por causa da altitude, minha querida amiga… Eu sou uma boa caminheira! Eu caminho bem e até desço degraus molhados e escorregadios mais depressa que o Pedro, a Joana e a Sunita! Ah-ah! Sentia-me orgulhosa. Tinha chegado ao acampamento sem ser a última.


9 A montanha que chega ao rio
Parte 1

Pelas seis horas e meia, o jantar foi servido, pouco depois de todos terem chegado. É impressionante as horas estranhas a que se costuma comer nestas ocasiões. Almoçar pelas onze da manhã, jantar às horas do lanche… Apesar de me sentir um pouco melhor e já não arrotar, optei por não jantar e ir dormir, pois estava ainda agoniada e muito cansada. Queria estar preparada para o dia seguinte. Estava programado levantarmo-nos às cinco e meia da manhã, pois apesar de ser quase sempre a descer (com uma subida íngreme no início), o terceiro dia seria o mais longo, com cerca de oito horas de caminhada.

Dentro da tenda, ao despir-me e aconchegar-me dentro do meu saco cama, comecei a fazer contas aos dias que andava sem comer. Pelo menos três dias em que só tinha no estômago uma fatia de folar e uma caneca de água quente. Uau… Estiquei-me muito direita de barriga para cima, para contrariar a posição das costas habituadas à mochila e reflecti que as pessoas, em circunstâncias normais, comem muito mais do que aquilo que realmente precisam. Via por mim própria. Se eu agora estou há três dias sem comer, porque é que normalmente como cinco refeições diárias e passo o tempo a pensar que estou com fome? É evidente que pão e água não são uma alimentação correcta ou equilibrada, mas a minha reflexão não tinha pretensões de ser pedagógica nem nutricional. Consistia somente no pensamento de que se o organismo consegue aguentar três dias sem comer (há histórias de privações bem mais prolongadas – greves de fome, p.e.), podíamos ou deveríamos comer menos quantidades por dia em situações quotidianas, quando não se queimam tantas calorias como numa situação de exercício físico prolongado.

Acredito que muitas vezes o “ter fome” é apenas psicológico. Tanto pode ser um pretexto para socializar, como até uma forma de compensação emocional, uma sublimação. Comer deixou de ser apenas uma necessidade fisiológica. No que diz respeito à socialização versus alimentação, eu sou a favor, claro. Prefiro comer e socializar ao mesmo tempo, mas tanto se me dá se a refeição é soufflé de cogumelos Shitake com creme de trufas da Borgonha, num restaurante chique com vinte e três talheres de cada lado do prato e com serviçais de luvas brancas ou se é uma sanduíche de queijo e marmelada acompanhada de chá de termo, sentada na terra no meio do campo. O que me interessa é estar entre amigos, em boa companhia. No entanto, pode também acontecer uma subversão: pessoas que dão mais importância à qualidade e à quantidade da refeição e do restaurante do que da companhia!

O sono começou a vencer-me. Como o cérebro ainda não estava completamente restabelecido da privação de oxigénio e com o cansaço a vencer o discernimento, comecei a sonhar mesmo antes de adormecer. Na tenda das refeições juntavam-se o Percy, os meus “familiares” todos, a mulher gorda do filme Feios, Porcos e Maus a comer as batatas fritas que lhe caiam entre os fartos seios, os carregadores que comeram os restos do esparguete dos pratos do almoço na casa da senhora Vicky e crianças com estômagos dilatados e moscas na boca e nos olhos. Todos comiam com gosto quinoa com cenoura e beringela panada acompanhando a refeição com chá de folhas de coca. Virei-me para a posição fetal e adormeci a ver três Sean Connerys sorridentes do tempo do Dr. No a me oferecerem taças de frutos silvestres e petits gateaus fumegantes.

No dia seguinte, o ritual matutino repetiu-se. A tenda abanou-se, gritou señorita-agua-caliente e o lusco-fusco da madrugada começou a imiscuir-se por dentro das minhas pálpebras. O zunzum exterior invadiu os meus ouvidos e, só com um olho ligeiramente aberto, procurei com o nariz uma t-shirt que cheirasse menos mal e arrumei à toa o meu duffle bag. Já não queria saber se as coisas iam bem acondicionadas. Pus os pés fora da tenda, calcei as botas com parcimónia, ainda só com um olho aberto, e lá fiz uma ginástica esforçada para levantar o rabo do chão.

Deixei a mochila na lona impermeável do monte de mochilas e bastões da família do Percy e dirigi-me, já com os dois olhos meio abertos, para a tenda de campanha onde se servia o pequeno-almoço. A vida naquele acampamento às cinco e meia da manhã era constrangedoramente eléctrica e movimentada. Não me sentia bem ainda (continuava agoniada) e tinha medo de, se comesse, sentir-me pior. Por isso sentei-me ao lado dos meus companheiros que serviam-se de pão com chocolate, chá, leite, café, omeletas e mais não sei o quê, e pus-me a bebericar uma caneca de plástico bege com água quente. Nem as miraculosas folhas de coca me sabiam bem. Durante o pequeno-almoço, Percy avisou-nos que deveríamos escolher uma pedra do ribeiro que passava junto ao acampamento. Mais tarde durante o percurso ele explicar-nos-ia o porquê de tão insólito pedido. Sem adivinhar a razão fui até ao rio, escolhi uma pedra (pequenina - já me bastava o peso da água e das barras energéticas por comer) e coloquei-a no bolso de fora da mochila.

Todas as manhãs, o Percy reunia a sua “família” depois do pequeno-almoço e fazia o brief do dia. Descrevia mais ou menos como seria o percurso, qualquer coisa como: vamos começar com uma subida de cerca de vinte minutos, depois temos uma vista de umas ruínas, depois há uma parte mais a direito, indo suavemente para a esquerda e depois vamos voltar a subir por cerca de vinte minutos. Chegada ao terceiro dia, já sabia que esses vinte minutos que ele falava eram a mais pura das mentiras. Nunca eram “só” vinte minutos a subir, eram sempre mais de sessenta, muitas vezes mais de noventa! Não sei qual seria o fetiche que ele tinha com o número vinte (só posso conjecturar), mas a mim já não me enganava. Já sabia que “só vinte minutos” eram sempre, pelo menos, três vezes mais.

O início da caminhada deste terceiro dia foi bastante doloroso porque subimos ininterruptamente durante mais de uma hora e meia (lá estavam os alegados vinte minutos). E sempre por aqueles degraus de pedra irregulares e com mais de quarenta centímetros de espelho. A paisagem era deslumbrante, o que fazia compensar o esforço físico, mas por pouco. Desta vez estava determinada a subir tudo o que tinha de subir, sem que fosse preciso alguém me levar a mochila ou me dar a mão. Iria subir os degraus todos, custasse o que custasse, nem que fosse de gatas, nem que deitasse as tripas pela boca fora. De qualquer maneira iriam estar limpas, porque não comia há três dias e picos.

Por vezes sentia um cheiro forte e de repente passava um carregador por mim a subir os degraus a uma velocidade supersónica. Encostava-me à parede e deixava passar o carregador pelo trilho estreito. O cheiro que eu sentia era o do suor deles, o que significava que eu ainda me sentia agoniada e mal disposta. Eu também deveria estar a cheirar pior que um cavalo (suava às estopinhas e não tomava banho há três dias), mas como era o meu próprio cheiro, não o sentia.

Lá fui caminhando, muito tempo sozinha, mas não me preocupava, pois o caminho não tinha que enganar. Era sempre em frente, a subir. Não havia derivações e já não me apetecia fazer desvios para ver (mais) uma ruína inca. Subi, subi, subi... Vinte minutos a subir? Que mentira mais descarada! Que publicidade mais enganosa! Devia queixar-me à DECO.

O tempo, o meteorológico, continuava nublado, frio e muito húmido, quase a chover. As pessoas subiam cada uma ao seu ritmo, de costas curvadas. Não havia muito ambiente para conversas. A meio do terceiro dia o cansaço acumulado começa a ser o responsável pela anti-socialização durante a caminhada. Às refeições, éramos os melhores amigos; na caminhada, era quase cada um por si.

Depois de uma dobra na montanha, vi o acampamento para o almoço. Alguns carregadores ofereciam copos de plástico com um líquido roxo e espesso aos caminhantes recém-chegados. Também fui brindada com um copo e apontaram-me as bacias com água morna dispostas em fila indiana no chão, com os sabonetes biodegradáveis ao pé. Bebi o líquido, sem saber bem o que era, confiando inteiramente no carregador que sorria de orelha a orelha. Para mim até podia ser raticida, porque como era doce e sabia bem não me interessava. O sabor não me era totalmente desconhecido, mas não conseguia nomear o que as minhas papilas gustativas experimentavam. Parecia-me sumo de mirtilo ou outra baga do género, mas não era bem isso. Só depois de ter lavado a cara e o pescoço é que me explicaram que era uma espécie de sumo proveniente do milho. Fiquei surpreendida, porque poderia ter dito tudo, menos milho. Até beringela me tinha passado pela cabeça, visto o sumo ser roxo, mas milho nunca. Mesmo assim fiquei feliz por não ser raticida.

O almoço foi servido, mas apesar de me sentir melhor não comi grande coisa. Tinha tudo excelente aspecto, estava tudo muito bem decorado, mas os cheiros ainda me provocavam reacções negativas no estômago. Comi uns quatro ou cinco baguitos de arroz, mais umas sementinhas de quinoa e acho que até comi três milímetros cúbicos de cenoura. À sobremesa comi com gosto a gelatina de morango, sem conseguir imaginar como é que eles eram capazes de ter refeições tão bem apresentadas e requintadas (e refrigeradas como a gelatina) naquele contexto de acampamento itinerante. A cenoura esculpida em formas florais e a azeitona recortada eram para mim luxos que nem um chef profissional e certificado saberia como fazer nestas condições.

Depois de mais algumas histórias do Percy, voltámos à caminhada, prontos para chegar ao Runkuraqay High Pass, uma portela mais baixa que a da Mulher Morta, mas mesmo assim a três mil e oitocentos metros de altitude. Subimos mais degraus, descemos alguns troços, voltámos a subir e vimos uma indicação de um lago. Passado um pouco lá apareceu o lago, pequeno, onde, segundo o marco indicativo, os veados iam beber água. Voltámos a subir em direcção ao Runkuraqay, com alguns carregadores a passarem por nós, como se fossem apanhar o comboio. Eu bufava por todos os lados, pensando com medo se não prescindiria da mão calorosa do Percy para chegar lá acima. Abanava a cabeça, como que a afastar esse pensamento. Não seria preciso! Iria chegar sozinha à maldita portela, com mochila, pedra, barras energéticas e tudo! Voltei a subir os malditos degraus de pedra e cheguei a uma clareira de rocha com alguns tufos de ervas castanhas onde o Percy e alguns “familiares” aguardavam a chegada de todo o grupo. Tínhamos chegado ao Runkuraqay High Pass. Assim que os elementos mais atrasados chegaram, o nosso guia iniciou a explicação do ritual da pedra do rio que volta à montanha.

(continua)

1 comentários:

Rita Vilela disse...

Parabéns, Susana
A história cativa mesmo.
Merece ser publicada :)
Beijinhos