Capítulo 8
A passagem da Mulher Morta, aka Harmi Wañusca, aka Dead Woman Pass
Parte 1
O dia começou cedo. Os carregadores abanaram a tenda, abriram o fecho da entrada e colocaram as famosas bacias azuis com a agua caliente e o sabonete biodegradável no chão. A Sunita, já mais avisada das condições de Higiene e Segurança do local, foi directa à casinha por detrás da casa de tijolo. Eu saí da tenda e, espreguiçando-me despreocupadamente, fiquei em frente à tenda a admirar as pequenas nuvens de vapor que se desprendiam do solo e flutuavam sobre as nossas cabeças.
As montanhas pareciam ainda mais altas do que no dia anterior. Será que tinham crescido? Se os Himalaias crescem, porque não os Andes também? Talvez fosse apenas um efeito de óptica da luz matutina, ou do efeito da altitude no meu discernimento visual. A verdade é que me sentia esmagada por tão altas paredes cobertas de vegetação.
Na cobertura de colmo, o pequeno-almoço estava já servido e os meus companheiros comiam com agrado. Eu sentei-me, mas os cheiros das comidas em vez de me abrirem o apetite, fizeram com que o mal-estar do dia anterior se instalasse outra vez. Enquanto uns comiam fatias de pão barrados generosamente de creme de cacau, eu olhei com cara franzida para o cestinho do pão e tirei meia fatia do que me pareceu folar. O carregador perito em origami ofereceu-me uma caneca com água quente para eu colocar as folhas de coca à minha vontade.
Todos aqueles cheiros misturados (pão, chocolate, ovos fritos, chá e sei lá mais o quê) deram-me a volta ao estômago. Olhei para o meu pão, olhei para a embalagem de margarina; olhei para a caneca de plástico bege com água quente, olhei para o cesto já familiar com as folhas de coca. Olhei introspectivamente para dentro do meu sistema digestivo e decidi que o melhor seria armar-me em monge cartuxo e começar o dia literalmente a pão e água.
Como um bom asceta fervoroso, mastiguei o folar (sabia-me ao folar da terra da minha avó) sem grande prazer e ia bebericando água quente para desembuchar. O pequeno-almoço foi assim ingerido por obrigação, apenas porque sabia que precisava de calorias para o esforço físico que ia fazer dali a nada. Segundo o nosso guia Percy, seria o dia mais difícil de todos. Íamos subir praticamente todo o dia até atingir a passagem mais alta do percurso (quatro mil, duzentos e quinze metros de altitude) e depois descer durante pouco mais de uma hora até ao acampamento de Paqaymayo. Durante o percurso, iríamos ter oportunidade de visitar as ruínas de Wayllambamba.
Depois do meu pequeno-almoço asceta fui procurar o Henrique, que ainda não tinha visto. Pelo que me disse, infelizmente a noite não foi suficiente para recuperar totalmente. Continuava muito pálido e com extrema dificuldade em respirar. Sentia-se menos cansado, mas ainda fraco e por sua própria iniciativa decidiu que seria melhor não continuar a caminhada. O Percy e a Sunita também acharam que era a melhor decisão. Foi um duro golpe para todos. O silêncio envolveu o grupo de portugueses que não encontrava palavras de consolo ou apoio.
Acredito que tenha sido uma decisão muito difícil. A frustração de ter de desistir de um objectivo que acalentava há vários meses; a despesa que foi feita para a viagem; o ver partir os amigos que seguiriam em frente; o “voltar para trás” que emocionalmente é sempre duro. Contudo, insistir na ascensão seria uma imprudência e uma irresponsabilidade que, segundo a Sunita que é médica, podia causar-lhe uma paragem cardíaca ou algo do género.
Apesar de a Tara ter anunciado que descia com o Henrique para Ollantaytambo, porque também percebia que as suas costas não estavam em condições, eu senti que deixava o meu amigo sozinho. Por um lado gostava de regressar à vila que tanto apreciei e que provavelmente não terei outra oportunidade de a explorar melhor, mas por outro queria fazer a caminhada, subindo até Dead Woman Pass e continuar até Machu Picchu.
Durante longos meses fizemos planos, compilámos listas de equipamento a levar, prospectámos aventuras e explorações na selva subtropical, investigámos sobre a história do país e agora o Henrique tinha de regressar por causa do malfadado Soroche, o mal de altitude. A despedida foi contida, com alguma complacência, mas imersa em emoções só parcialmente escondidas.
O reencontro seria dali a dois dias, já em Machu Picchu. Tara e Henrique encontrar-se-iam com as duas amigas canadianas mais novas que tinham ido fazer outro trilho e subiriam os quatro de autocarro até Machu Picchu, pela estrada em ziguezague que sai de Aguas Calientes, a vila mais perto da cidade perdida, no sopé da montanha.
Fiz um aceno mental aos caminheiros que desciam e virei a cabeça para o trilho íngreme que se me apresentava. Tinha de me concentrar na difícil ascensão que tinha pela frente. Pisquei os olhos. Os degraus de pedra eram visíveis até longa distância, que até para mim, míope inveterada, era fácil vê-los. O trilho seguia sempre para cima, para cima, até desaparecer numa curva da montanha. Os meus companheiros de caminhada já seguiam e eu tive de fazer um pequeno trote para os apanhar.
A primeira hora de ascensão foi divertida, com toda a família do Percy em conversa animada. Aos poucos, os degraus de pedra foram vencendo os mais faladores, conseguindo assim impor o respeito merecido. Caiu sobre nós um silêncio que propiciava à contemplação da Natureza e à Unicidade que Percy pediu logo no início da caminhada.
Mentalmente, eu seguia apenas unida à parte vegetal e animal da Natureza. Admirava os diversos tons de verde da floresta (quando conseguia focar a visão) e admirava os diferentes chilreares que ouvia (apesar de não saber identificar nenhum pássaro). No entanto, vituperava das mais vis formas a parte mineral da Natureza. Em concreto, chamava todos os nomes feios e mais alguns àquelas pedras ancestrais trabalhadas em degraus, que me torturavam os quadríceps, os rins e as articulações dos joelhos.
Os incas foram muito engenhosos em construir estas estradas em terreno tão acidentado, mas já que eram tão espertos, porque é que não uniformizaram a altura dos degraus?! É pura tortura medieval subir escadas com degraus de várias alturas, e ainda por cima alturas nada ergonómicas, pois com frequência encontrei degraus da altura do meu joelho. Cheguei a um ponto em que os dois terços da Natureza que me davam prazer e alegria ficaram em segundo plano e só consegui unir-me ao terço menos agradável – os degraus em pedra. Usava os meus dois bastões em simultâneo para me ajudar a subir, mas mesmo assim, não era suficiente. Oh, quem me dera ser o John, com o seu metro e noventa e cinco de altura, para subir com facilidade estas escadas intermináveis…
Deixei de olhar para a paisagem, não falava com ninguém, todos os meus sentidos estavam atentos aos degraus, quando de repente comecei a ouvir música. Uma singela flauta alumiava a minha mente, vinda lá do cimo da montanha, como que um chamamento. Um som cristalino, feérico que, apesar de me aliviar psicologicamente as dores e o cansaço, fez com que me preocupasse com a minha saúde mental. Só podia ser uma alucinação sonora! Encolhi os ombros, segura de que era algum tipo de sintoma mais raro do Soroche.
A música era muito suave e fez-me suspirar. Imaginei fadas a tocarem no interior da floresta, com flautas pequeninas, a esvoaçarem entre as orquídeas autóctones famosas e a seduzir humanos para a sua teia fatal. Já de certa forma presa por aquele som, resolvi parar por segundos e olhar para cima, de onde vinha a música. Pisquei os olhos para focar a visão e vislumbrei uma construção em pedra de parede arredondada, mesmo na berma da encosta, como que prestes a cair para o precipício verde. Afinal as fadas não estavam a tocar nas orquídeas, mas sim num sítio arqueológico inca. Respirei fundo e segui o caminho pelos degraus intermináveis, já enredada na teia sedutora das fadas sul-americanas.
Uns metros mais acima voltei a parar para olhar para a ruína inca de outra perspectiva. A parede continuava a curvar, parecendo indicar uma construção circular. A flauta das fadas tinha parado por breves momentos, para retomar a música com duplo poder encantatório. Apesar do esforço e do cansaço, sorria feliz e sentia-me entontecida com a música. Pensei que assim que chegasse ao sítio arqueológico iria deparar-me com a fada tocadora de flauta e com as suas companheiras preparadas para me levarem para os confins da floresta, onde iria perecer de fome e frio, mas com visões de eterna sedução e prazer.
(Continua)
Segunda-feira, Março 15, 2010
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