Capítulo 7 A casa da senhora Vicky
Parte 1
Assim que o grupo se viu do lado certo do Urubamba, gritámos, pulámos, batemos palmas ou demos pequenas pancadinhas nas costas uns dos outros. Estávamos eufóricos. A euforia não era para menos. Depois de todo aquele stress da noite anterior; da dúvida sempre a pairar nas nossas mentes, vermo-nos no início do trilho era um alívio e uma grande alegria. Além do mais, éramos o primeiro grupo do dia. Valeu a pena acordarmos tão cedo!
Eu ria sem razão. Dava pulinhos, excitada. Foi para estar ali que andei a poupar dinheiro durante dois anos. Emocionada, sentia Machu Picchu mais perto, mais real, palpável. A cidade estava algures por ali, do lado de lá daquelas montanhas enormes… Parte de mim ainda não acreditava que tinha atravessado um oceano e um continente e que estava no início do caminho sagrado dos incas. Sentia necessidade de, por alguma fórmula mágica, aumentar o espectro dos meus cinco sentidos, de forma a abarcar e registar tudo, mas em particular, registar tudo o que sentia.
Tentando acalmar o grupo, Percy pediu para formarmos um círculo. Afinal de contas, para ele o Caminho é algo que faz parte do seu trabalho e já não padece da excitação da novidade, apesar de (digo eu) conter ainda alguma aura de espiritualidade. Esperou que fizéssemos silêncio para dar início ao seu discurso de Boas Vindas ao Caminho Inca. Chamou a atenção para o facto de aquele trilho ser muito antigo e usado por correios e elementos da alta nobreza em caminho para Machu Picchu. Esta cidade não era igual às outras, pois era a residência de nobres e religiosos e como tal tinha uma aura de misticismo, que se estendia também ao Caminho. Era como que a entrada para um nível superior; era como que quem o percorresse fosse ele próprio especial, mesmo que fosse apenas um correio em missão urgente.
No perímetro daquele círculo de caminheiros, ouvíamos com atenção as palavras do nosso guia. O Percy pedia-nos para durante a caminhada de quatro dias lembrarmo-nos da magia do Caminho e para tentarmos estar atentos à Natureza. Percebermos os sons das aves, os cambiantes de cor entre as folhas das árvores, as nuvens sempre em movimento perpétuo. Concluindo: abrir o nosso espírito à Uifa, a palavra Quechua para Energia (talvez outra designação para o Chi chinês).
Finalizou o discurso, informando-nos de que a partir deste momento tornávamo-nos uma família. Iríamos caminhar, comer e dormir juntos num caminho sagrado e mágico. Íamos ajudar-nos e apoiar-nos e também partilhar momentos inesquecíveis. Por estes motivos seríamos a “Família do Percy” durante quatro dias. Pensando bem, há famílias ditas tradicionais, de laços de sangue, que nunca numa vida inteira são tão unidas como nós fomos durante aquele curto período. Achei esta ideia da família uma forma interessante de intensificar as vivências e experiências de cada um dos caminheiros. Percy terminou ensinando-nos a dizer em Quechua “um, dois, três, energia!”, que seria o nosso grito de guerra. Juntámos as mãos num monte e com vozes pouco seguras repetimos os números, mas a plenos pulmões gritámos: UIFA!
A caminhada finalmente começou. As montanhas agigantavam-se à nossa frente, cobertas de vegetação, com uma promessa de aventura. Ao nosso lado corria rápido o Rio Urubamba. Cabos de alta tensão seguiam o curso do rio, levados por postes metálicos que vinham de uma central hidroeléctrica algures perto de Machu Picchu. O trilho de terra serpenteava por entre vegetação arbustiva, subindo a pouco e pouco, quase sem darmos por isso.
A “família do Percy” ia toda junta. Não tanto por estar já imbuída de sentimentos fraternais, mas mais porque assim parecia que se evitava a chuva miudinha que teimava em cair. Passada mais ou menos uma hora de caminhada, na primeira paragem para descansar, já não chovia. Ambos os intervalos (da chuva e da caminhada) foram aproveitados para o nosso guia iniciar-nos na famosa e badalada arte de mascar folhas de coca. Em expectativa, retirámos as mochilas, procurámos os nossos saquinhos comprados em Ollantaytambo e sentámo-nos onde nos pareceu melhor, esperando que Percy iniciasse a lição.
É preciso escolher três folhas limpas, sem dobras ou rasgos e dispô-las em leque entre o dedo polegar e os dedos indicador e médio. As páginas superiores das folhas ficam viradas para nós, e nós viramo-nos em direcção ao Sol. Sopramos as folhas ao mesmo tempo que fazemos uma prece aos Deuses a pedir uma boa viagem e depois embrulhamos as três folhas numa bola que colocamos entre a bochecha e a gengiva. A saliva vai naturalmente misturar-se com as folhas, subtraindo o seu suco terapêutico, que ao ser ingerido vai diminuir os efeitos da fome, da sede, do cansaço e da altitude. Podemos passar a bola de uma bochecha para a outra, mas não é preciso mastigá-la. Ao final de vinte a trinta minutos, as folhas podem ser substituídas. A meio da segunda bolinha de folhas de coca, eu já sentia a língua dormente e um sabor adstringente na boca, mas como era o primeiro dia de caminhada e ainda estávamos a altitudes baixas, não senti diferenças no meu organismo, para além da constante vontade de urinar.
A caminhada reiniciou, com toda a família do Percy a chupar bolinhas de folhas de coca. A chuva regressou e voltou a ausentar-se. Durante as suas ausências podíamos ver o céu azul e apreciar a paisagem verdejante. As montanhas mais altas que tinha visto até ali foram as do Parque Nacional de los Picos de Europa, em Espanha. Eram cinzentas, nuas; de uma beleza agreste. Estas tinham o dobro do tamanho das espanholas e estavam cobertas de vegetação. Começava logo na margem do rio Urubamba com a típica vegetação das zonas ribeirinhas, seguia domada pelo Homem em hortas e em campos cultivados e, à medida que se elevava, tornava-se selvagem, transformando-se em florestas densas. Esta beleza era mais exuberante.
Durante toda a manhã a ascensão foi regular. Uma longa e suave subida. Aos poucos e poucos, as conversas esmoreceram e as respirações tornaram-se mais audíveis, à medida que o esforço se prolongava. Despiram-se casacos, reajustaram-se mochilas, limpava-se o suor do rosto, mas continuávamos a andar e a tirar fotografias. Greg, Kate e Andrew (o trio americano), o John e a esposa (o casal britânico) e a Anne (a canadiana mais velha), eram os que seguiam à frente com o Percy. O Jeremy e a Maria (o casal do americano e da colombiana) seguiam no seu encalço. Logo atrás seguiam os portugueses e a Tara, a amiga da Anne.
Parámos num pequeno abrigo de colmo para petiscar e usufruir de um segundo descanso. Do abrigo percebia-se o estreitamento gradual do desfiladeiro. Agora as montanhas estavam mais próximas de nós, como que a nos entalarem. Para a direita víamos o trilho que serpenteava para baixo, para o Portão. Para a esquerda, ele subia inexoravelmente. Começávamos a nos afastar do rio, que corria mais forte e estreito, e a aceder a cotas mais elevadas. Os topos das montanhas estavam cobertos de neve e nas suas encostas lamas pastavam.
A Tara e o Henrique seguiam atrás com alguma dificuldade. Ela, com dores na coluna, ele com dificuldade em respirar. Pelo que me foi explicado à posteriori, Tara padece de um problema ósseo e, devido ao esforço continuado não habitual e ao peso da mochila, a sua coluna vertebral estava a ressentir-se. A dificuldade em respirar do Henrique provinha de uma pequena constipação mal curada que apanhou no avião, agregada à rinite crónica que, àquela altitude (que não era assim tão alta, mas o suficiente para nós, que vivemos ao nível do mar), exponenciava os sintomas.
Um galo enorme e colorido passou por nós no trilho em direcção a uma casa de adobe um pouco mais acima. No abrigo de colmo, o silêncio quase reinou enquanto todos mastigavam. Barras de cereais, geles energéticos, cubos de marmelada, chocolates, frutos secos... A comida de caminheiro é diversificada e cada um carrega aquela que mais aprecia. Eu ofereci ao Percy figos secos e miolos de amêndoas provenientes da terra dos meus pais e dos meus avós. Ele apresentou-me nozes e cajus provenientes da sua terra. O intercâmbio cultural não passava apenas pela culinária. A troca e a partilha passavam também pelas perguntas que se trocavam, que são um espelho das preocupações e valores de cada povo.
So, are you married? Uma pergunta banal, mas que de facto não estou de todo habituada a que ma façam no meu país. Mastiguei, engoli o miolo de amêndoa e respondi no, I’m not, ao que Percy retrucou not yet! e meteu um caju na boca. Aquele not yet ficou a ecoar na minha cabeça. Não tanto pela semântica, mas mais pela entoação das duas singelas palavras. Pareceu-me que estava implícita uma certeza ou fatídica resolução, que me deixou um leve pesar.
Pensei na luta secular de gerações de mulheres, desde as neo-zelandesas que obtiveram pela primeira vez o direito ao voto, até às americanas que protestaram contra as injustiças em termos de escolha na formação académica, nas oportunidades de trabalho e na liberdade sexual e de maternidade. Aquele not yet seria um sinal de machismo?
Escolhi outro figo da minha Tupperware. Aquela espécie de obrigação implícita nas palavras do meu guia, deixou-me de alguma forma triste. Afinal, quando é que a mulher passará a ser tomada como igual ao homem? Enquanto mastigava o figo, pensei em todos os comentários preconceituosos que tive de ouvir quando comecei a conduzir mota, apenas porque sou mulher. Desde a presunção de que tinha uma scooter ou “acelera” quando na realidade tinha uma mota “grande”, até ao episódio da minha vizinha velhota que foi bater-me à porta exclusivamente para me dizer para comprar um carro, porque motas não eram para meninas.
Continuei compenetrada a mastigar o figo e a pensar em tantas mulheres que trabalham tanto ou mais que um homem num mesmo trabalho, mas recebem ordenados inferiores; e em mulheres que têm de lutar todos os dias contra pequenas e grandes ideias pré-concebidas sobre o seu estatuto social, profissional ou económico na sociedade. Mastigava e pensava que na Europa do século XXI tanto pode haver mulheres Presidentes da República, como mulheres financeiramente dependentes de maridos ou outros familiares que as agridem. E optei por não pensar nas mulheres que vivem abaixo do limiar da pobreza, em países subdesenvolvidos ou com regimes políticos ou religiosos extremistas.
A verdade é que apesar de tanta evolução e modernidade, a ideia do casamento parece estar fortemente inculcada como algo incontornável ou como uma fatalidade ou indício de mediocridade, caso não aconteça numa determinada idade. Parece que existe uma lei inconsciente que induz nas pessoas a obrigatoriedade do casamento, principalmente aos elementos femininos. A pressão é tal que algumas pessoas que consideram o casamento como algo menos importante nas suas vidas, ou pelo menos consideram-no em moldes menos ortodoxos ou fora do status quo, são ou criticadas ou vistas como extra-terrestres.
Engoli o figo e tirei um miolo de noz. Antes de o pôr na boca, decidi que era melhor pensar que o Percy estava só a ser simpático e a dar-me uma espécie de pancadinha nas costas ou algum tipo de apoio moral, por não ser (ainda) casada. Forcei um sorriso e soltei um frouxo yeah.
Passados mais uns minutos, Percy instigou-nos a recomeçar a caminhada. O intervalo terminou e lá colocámos as mochilas às costas, bebemos água e seguimos todos atrás do nosso guia. O dia estava agora claro, sem vestígios de chuva. O Sol fazia o seu próprio percurso e começava a aquecer a atmosfera. Devia ser ainda cedo, mas para quem já caminhava antes das sete da manhã, a hora que fosse naquele momento, era de alguma forma tardia. O trilho de terra, bem definido e batido, estreitava por vezes, aparecia em forma de degraus de pedra, voltava a alargar, mas subia sempre. A paisagem envolvente tornava-se menos humanizada. Já não se viam hortas nem casas de adobe, apesar de sabermos que a estas altitudes ainda é permitido viver e ter animais.
Focados no nosso esforço perante a subida e também preocupados com a Tara e o Henrique, esquecemo-nos que os nossos carregadores ainda não nos tinham alcançado, como seria suposto acontecer segundo o que Percy nos informou, ainda no acampamento. O nosso guia transparecia calma e serenidade e nada no seu rosto indicava preocupação pelos elementos desaparecidos da sua equipa.
Continua
Segunda-feira, Dezembro 14, 2009
Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Uifa: a Energia dos Incas X
Capítulo 6 - O piquete grevista
Parte 2
Ganhando coragem abri o saco cama e deixei o frio da manhã entrar. A Joana acordou logo a resmungar, que não tinha dormido nada, que calor insuportável, isto não pode ser, toda apertada, e isto e aquilo. Vestiu-se o mais depressa possível, sempre a resmungar, e saiu da tenda. Eu, como sou daquelas que só acordam duas horas depois de se levantarem, comecei a vestir-me, tentando controlar a bexiga, que ao mínimo movimento parecia explodir com o ímpeto de uma supernova. Maldito chá de folhas de coca, que dá tanta vontade de fazer chichi.
Olha lá, as minhas botas estão aqui dentro da tenda, porquê? Eu ontem deixei-as no vestíbulo porque estavam molhadas. A Sunita virou-se para mim, a tentar perceber se a T-shirt que tinha na mão estava do avesso ou do direito. Então não te lembras que um dos carregadores veio aqui a meio da noite para nos avisar para não deixarmos nada de fora da tenda? Eles estavam preocupados com os piquetes, não fossem cá vir enquanto estivéssemos a dormir.
Afinal não foi um sonho. O vulto ajoelhado do outro lado da porta mosquiteira foi real. Ele preocupado com os nossos pertences e eu a dar-lhe pontapés. Coitado! A Sunita continuou. Tu ainda levantaste a cabeça. Não te lembras? Nem por isso. Será que apliquei a técnica defensiva da salsicha espasmódica à posteriori, enquanto sonhava com o carregador que vi enquanto dormia? A Sunita não fez referência aos meus pontapés… Será que é possível ver algo enquanto se dorme? Ou será que sonhei que dei os pontapés? É possível estar com estas dúvidas existenciais à beira de me urinar toda?
Os carregadores vieram retirar os alguidares azuis com água tépida (não estava caliente) e a Sunita aproveitou a oportunidade para lhes perguntar sobre as casas de banho. Oh Susana, como se diz casa de banho em espanhol? Aseos. Espreitou para fora da tenda e chamou o carregador que estava mais perto. Por favor, los aseos? Donde son los aseos? Eu estava a apertar os atacadores das botas e fiquei na expectativa da resposta. No entanto, o senhor ficou baralhado com a pergunta. Balbuciava qualquer coisa em Quechua e apontava vagamente para a nossa direita e encolhia os ombros. A Sunita insistiu: los aseos para las señoritas? O homem começou a tremer e a olhar para vários sítios. Levantou o braço para apontar, mas agora foi para a esquerda. Mau, então em que é que ficamos?
Visto já estar despachada, sai da tenda e percebi logo a hesitação do carregador. Nós não estávamos num parque de campismo como eu pensava, mas sim num pasto com vacas. Invadimos o espaço das bichinhas, que estavam reunidas num dos cantos do terreno. O negrume e a confusão da noite anterior não tinham deixado perceber onde estávamos, mas agora sim. Estávamos no meio de bostas e torrões de terra molhada com erva. À esquerda estava um milheiral, limítrofe ao prado; à direita, algumas hortas. Em frente, a algumas dezenas de metros, estava a linha de caminho de ferro e depois o início de várias encostas cada vez mais altas, que se estendiam para a direita até se perderem de vista. Atrás de mim estavam as tendas amarelas e as vermelhas e duas tendas de campanha. Uma era a cozinha, a outra a “sala de jantar”. Os carregadores andavam já a desfazer as tendas desocupadas, muito azafamados e a juntar os duffle bags. Os caminheiros mais despachados andavam por ali, a atrapalhar a vida dos carregadores.
Onde são as casas de banho? A cabeça da Sunita espreitou para fora da tenda. Não há, respondi eu. Temos de ir “atrás do arbusto”. O quê?! Então não posso tomar banho e maquilhar-me? Virei-me para trás, olhei para a minha amiga e pisquei os olhos várias vezes, na tentativa vã de encontrar uma resposta capaz. Não encontrei nenhuma. Tomar banho e maquilhar-se? Tentei perceber onde ficava o melhor “arbusto”. Vi o gorro colorido da Kate ir para direita, em direcção às montanhas. Depois vi a Anne a regressar pelo mesmo caminho. Talvez seja por ali. A Anne passou por mim e sem rodeios disse-me que o melhor sítio era junto à linha-férrea, por detrás de uma casita de cimento. Era o local mais abrigado de olhares indiscretos, segundo a sua opinião. Fui andando devagar, apesar de me sentir prestes a rebentar. Queria dar tempo à Kate. Ela regressou ao acampamento e eu dirigi-me à construção de cimento. Estava fechada. Provavelmente tinha a ver com a manutenção da linha do comboio. Baixei-me, de costas para os carris, resguardada pela casa, mas com um olho no acampamento, não fosse alguém mais distraído ir “explorar” o sítio. Enquanto me aliviava, pensava: Que paisagem tão bucólica. O pasto e as vacas malhadas; as montanhas altíssimas, as hortas cuidadas, a bruma matinal que ainda tem dificuldade em se despegar da terra, e eu aqui a fazer chichi num quadro de John Constable.
Regressei ao acampamento e dirigi-me à tenda da “sala de jantar”. Estavam todos reunidos a tomar o pequeno-almoço, com Percy à cabeceira. Havia leite, café, chocolate, chá, granola, tostas, omeletas vegetarianas (lacto-ovo) e omeletas sem serem vegetarianas. A tensão da noite anterior tinha-se dissipado por completo e a animação era muita. Parecia que nos tínhamos esquecido do Camino Inka, do portão, do piquete grevista e que só estávamos ali para conversar e comer. O Percy e os carregadores tiveram que nos enxotar da mesa e fazer-nos ver que tínhamos de ir pondo as mochilas às costas, para começarmos a andar.
Fomos buscar as mochilas e começámos a nos preparar. Ajustar alças e correias; colocar capas impermeáveis; pôr à mão cantis ou mangueiras dos sacos de água; adaptar os bastões para uma marcha plana e por fim, dar uns saltinhos para acomodar tudo. Os carregadores ficaram a arrumar o acampamento e, segundo informação do Percy, eles iriam alcançar-nos em pouco tempo. Não acreditámos muito, mas aquele era o primeiro dia de caminhada e ainda não conhecíamos a velocidade e a capacidade de resistência daqueles homens.
O caminho estreito por onde caminhávamos pela segunda vez serpenteava por entre hortas, prados, milheirais e casas de adobe dispersas, pequenas e muito rudimentares. As montanhas acercavam-se de nós, parecendo inclinarem-se curiosas com o que lhes pudéssemos dizer. À luz do dia pudemos constatar com exactidão o trabalho diligente do piquete grevista. O caminho estava completamente pejado de pedras e ramos. Fazíamos verdadeiras gincanas para não tropeçarmos e cairmos. Algumas pessoas encontravam-se à porta de casa, outras deambulavam pelo caminho, provavelmente comentando sobre a greve. Todas respondiam quando lhes dizíamos Buenos días.
À medida que progredíamos no terreno, os obstáculos minerais e vegetais aumentavam de tamanho. Houve alturas em que nos questionámos sobre a logística implicada na presença de tão grande rocha ou nalgum tronco de árvore com raízes no meio do caminho. Caminhávamos depressa, concentrados na ideia de chegar ao portão do Parque Natural de Machu Picchu mais cedo do que o piquete e evitar a barricada que nos obrigaria a cancelar a expedição. A chuva não nos largava. Era miudinha, menos que na noite anterior, mas tornava a caminhada desconfortável. Seguíamos em silêncio, com Percy na dianteira. A tensão insinuava-se nas nossas mentes. Chegaríamos a tempo? Tínhamos quatro quilómetros para percorrer e descobrir a resposta.
Virámos numa bifurcação à esquerda e seguimos por um estradão sem obstáculos. A dado ponto, pudemos ver que estávamos numa zona elevada, tendo uma perspectiva privilegiada sobre a geografia que se estendia à nossa frente. Víamos um vale prolongado, ladeado de altas montanhas, a linha do comboio, que serpenteava paralela ao rio Urubamba, numa cota obviamente mais baixa e o famoso portão, com uma grande tabuleta em madeira avermelhada que dizia “Santuario Histórico de Machupicchu – Camino Inka-Inka Trail – Piscacucho km 82 – Bienvenido, Wellcome, Bienvenu, Bienvenuto”. Direccionando a vista um pouco para a direita, encontrava-se uma construção pequena em madeira pintada de verde. Era o “Checkpoint Charlie” peruano, onde teríamos de carimbar os nossos passaportes. A partir dali, seguíamos pela ponte suspensa sobre o rio Urubamba e entrávamos oficialmente no Parque e no Camino Inka. Para nosso descanso e contentamento, não víamos vivalma. Eu queria à força que alguém me tirasse uma fotografia sob a tabuleta, para o caso de ter Alzeihmer daqui a uns anos e já não me lembrar por onde é que andei quando era trintona. Foi tudo um bocado à pressa, fiquei péssima na fotografia, toda franzida por causa da chuva, mas estávamos com medo de ver o piquete grevista chegar a qualquer momento, a correr por ali a baixo e nos impedir de entrar.
Enquanto estávamos a ser carimbados (salvo seja) no posto de controlo, imaginava com algum terror termos de desatar a correr pela ponte suspensa, à frente dum grupo de homens raivosos, querendo maltratar os fura-greves, que éramos nós. Não é que me choque correr. Por acaso não gosto muito, mas o que mais me fazia impressão era mesmo ultrapassar a ponte, fosse a correr, fosse a andar. Aquilo era parecido com a famosa ponte do Indiana Jones e o Templo Perdido, quando ele corta as cordas e os mauzões caem no abismo infestado de crocodilos, excepto o Indy, a Willie e o Shorty, que ficam agarrados nas cortas cortadas. O chão desta ponte estava em melhor estado de conservação, mas havia um ou dois troncos partidos em que a minha bota quase cabia.
Uns passaram a correr, outros menos exuberantes, caminhavam sem stress, outros pulavam e abanavam a ponte. Eu, com muito cuidado, agarrada ao corrimão, lembrava-me do filme e dizia baixinho: “Oh my god, oh my god! Is he nutts!? He’s no nutts; he’s crazy!” Só quando me vi em terra firme, sem água espumosa a passar sob os meus pés é que dei os vivas todos e pulei e saltei em sintonia com o resto do grupo. Estávamos finalmente no Caminho Inca!
Continua
Parte 2
Ganhando coragem abri o saco cama e deixei o frio da manhã entrar. A Joana acordou logo a resmungar, que não tinha dormido nada, que calor insuportável, isto não pode ser, toda apertada, e isto e aquilo. Vestiu-se o mais depressa possível, sempre a resmungar, e saiu da tenda. Eu, como sou daquelas que só acordam duas horas depois de se levantarem, comecei a vestir-me, tentando controlar a bexiga, que ao mínimo movimento parecia explodir com o ímpeto de uma supernova. Maldito chá de folhas de coca, que dá tanta vontade de fazer chichi.
Olha lá, as minhas botas estão aqui dentro da tenda, porquê? Eu ontem deixei-as no vestíbulo porque estavam molhadas. A Sunita virou-se para mim, a tentar perceber se a T-shirt que tinha na mão estava do avesso ou do direito. Então não te lembras que um dos carregadores veio aqui a meio da noite para nos avisar para não deixarmos nada de fora da tenda? Eles estavam preocupados com os piquetes, não fossem cá vir enquanto estivéssemos a dormir.
Afinal não foi um sonho. O vulto ajoelhado do outro lado da porta mosquiteira foi real. Ele preocupado com os nossos pertences e eu a dar-lhe pontapés. Coitado! A Sunita continuou. Tu ainda levantaste a cabeça. Não te lembras? Nem por isso. Será que apliquei a técnica defensiva da salsicha espasmódica à posteriori, enquanto sonhava com o carregador que vi enquanto dormia? A Sunita não fez referência aos meus pontapés… Será que é possível ver algo enquanto se dorme? Ou será que sonhei que dei os pontapés? É possível estar com estas dúvidas existenciais à beira de me urinar toda?
Os carregadores vieram retirar os alguidares azuis com água tépida (não estava caliente) e a Sunita aproveitou a oportunidade para lhes perguntar sobre as casas de banho. Oh Susana, como se diz casa de banho em espanhol? Aseos. Espreitou para fora da tenda e chamou o carregador que estava mais perto. Por favor, los aseos? Donde son los aseos? Eu estava a apertar os atacadores das botas e fiquei na expectativa da resposta. No entanto, o senhor ficou baralhado com a pergunta. Balbuciava qualquer coisa em Quechua e apontava vagamente para a nossa direita e encolhia os ombros. A Sunita insistiu: los aseos para las señoritas? O homem começou a tremer e a olhar para vários sítios. Levantou o braço para apontar, mas agora foi para a esquerda. Mau, então em que é que ficamos?
Visto já estar despachada, sai da tenda e percebi logo a hesitação do carregador. Nós não estávamos num parque de campismo como eu pensava, mas sim num pasto com vacas. Invadimos o espaço das bichinhas, que estavam reunidas num dos cantos do terreno. O negrume e a confusão da noite anterior não tinham deixado perceber onde estávamos, mas agora sim. Estávamos no meio de bostas e torrões de terra molhada com erva. À esquerda estava um milheiral, limítrofe ao prado; à direita, algumas hortas. Em frente, a algumas dezenas de metros, estava a linha de caminho de ferro e depois o início de várias encostas cada vez mais altas, que se estendiam para a direita até se perderem de vista. Atrás de mim estavam as tendas amarelas e as vermelhas e duas tendas de campanha. Uma era a cozinha, a outra a “sala de jantar”. Os carregadores andavam já a desfazer as tendas desocupadas, muito azafamados e a juntar os duffle bags. Os caminheiros mais despachados andavam por ali, a atrapalhar a vida dos carregadores.
Onde são as casas de banho? A cabeça da Sunita espreitou para fora da tenda. Não há, respondi eu. Temos de ir “atrás do arbusto”. O quê?! Então não posso tomar banho e maquilhar-me? Virei-me para trás, olhei para a minha amiga e pisquei os olhos várias vezes, na tentativa vã de encontrar uma resposta capaz. Não encontrei nenhuma. Tomar banho e maquilhar-se? Tentei perceber onde ficava o melhor “arbusto”. Vi o gorro colorido da Kate ir para direita, em direcção às montanhas. Depois vi a Anne a regressar pelo mesmo caminho. Talvez seja por ali. A Anne passou por mim e sem rodeios disse-me que o melhor sítio era junto à linha-férrea, por detrás de uma casita de cimento. Era o local mais abrigado de olhares indiscretos, segundo a sua opinião. Fui andando devagar, apesar de me sentir prestes a rebentar. Queria dar tempo à Kate. Ela regressou ao acampamento e eu dirigi-me à construção de cimento. Estava fechada. Provavelmente tinha a ver com a manutenção da linha do comboio. Baixei-me, de costas para os carris, resguardada pela casa, mas com um olho no acampamento, não fosse alguém mais distraído ir “explorar” o sítio. Enquanto me aliviava, pensava: Que paisagem tão bucólica. O pasto e as vacas malhadas; as montanhas altíssimas, as hortas cuidadas, a bruma matinal que ainda tem dificuldade em se despegar da terra, e eu aqui a fazer chichi num quadro de John Constable.
Regressei ao acampamento e dirigi-me à tenda da “sala de jantar”. Estavam todos reunidos a tomar o pequeno-almoço, com Percy à cabeceira. Havia leite, café, chocolate, chá, granola, tostas, omeletas vegetarianas (lacto-ovo) e omeletas sem serem vegetarianas. A tensão da noite anterior tinha-se dissipado por completo e a animação era muita. Parecia que nos tínhamos esquecido do Camino Inka, do portão, do piquete grevista e que só estávamos ali para conversar e comer. O Percy e os carregadores tiveram que nos enxotar da mesa e fazer-nos ver que tínhamos de ir pondo as mochilas às costas, para começarmos a andar.
Fomos buscar as mochilas e começámos a nos preparar. Ajustar alças e correias; colocar capas impermeáveis; pôr à mão cantis ou mangueiras dos sacos de água; adaptar os bastões para uma marcha plana e por fim, dar uns saltinhos para acomodar tudo. Os carregadores ficaram a arrumar o acampamento e, segundo informação do Percy, eles iriam alcançar-nos em pouco tempo. Não acreditámos muito, mas aquele era o primeiro dia de caminhada e ainda não conhecíamos a velocidade e a capacidade de resistência daqueles homens.
O caminho estreito por onde caminhávamos pela segunda vez serpenteava por entre hortas, prados, milheirais e casas de adobe dispersas, pequenas e muito rudimentares. As montanhas acercavam-se de nós, parecendo inclinarem-se curiosas com o que lhes pudéssemos dizer. À luz do dia pudemos constatar com exactidão o trabalho diligente do piquete grevista. O caminho estava completamente pejado de pedras e ramos. Fazíamos verdadeiras gincanas para não tropeçarmos e cairmos. Algumas pessoas encontravam-se à porta de casa, outras deambulavam pelo caminho, provavelmente comentando sobre a greve. Todas respondiam quando lhes dizíamos Buenos días.
À medida que progredíamos no terreno, os obstáculos minerais e vegetais aumentavam de tamanho. Houve alturas em que nos questionámos sobre a logística implicada na presença de tão grande rocha ou nalgum tronco de árvore com raízes no meio do caminho. Caminhávamos depressa, concentrados na ideia de chegar ao portão do Parque Natural de Machu Picchu mais cedo do que o piquete e evitar a barricada que nos obrigaria a cancelar a expedição. A chuva não nos largava. Era miudinha, menos que na noite anterior, mas tornava a caminhada desconfortável. Seguíamos em silêncio, com Percy na dianteira. A tensão insinuava-se nas nossas mentes. Chegaríamos a tempo? Tínhamos quatro quilómetros para percorrer e descobrir a resposta.
Virámos numa bifurcação à esquerda e seguimos por um estradão sem obstáculos. A dado ponto, pudemos ver que estávamos numa zona elevada, tendo uma perspectiva privilegiada sobre a geografia que se estendia à nossa frente. Víamos um vale prolongado, ladeado de altas montanhas, a linha do comboio, que serpenteava paralela ao rio Urubamba, numa cota obviamente mais baixa e o famoso portão, com uma grande tabuleta em madeira avermelhada que dizia “Santuario Histórico de Machupicchu – Camino Inka-Inka Trail – Piscacucho km 82 – Bienvenido, Wellcome, Bienvenu, Bienvenuto”. Direccionando a vista um pouco para a direita, encontrava-se uma construção pequena em madeira pintada de verde. Era o “Checkpoint Charlie” peruano, onde teríamos de carimbar os nossos passaportes. A partir dali, seguíamos pela ponte suspensa sobre o rio Urubamba e entrávamos oficialmente no Parque e no Camino Inka. Para nosso descanso e contentamento, não víamos vivalma. Eu queria à força que alguém me tirasse uma fotografia sob a tabuleta, para o caso de ter Alzeihmer daqui a uns anos e já não me lembrar por onde é que andei quando era trintona. Foi tudo um bocado à pressa, fiquei péssima na fotografia, toda franzida por causa da chuva, mas estávamos com medo de ver o piquete grevista chegar a qualquer momento, a correr por ali a baixo e nos impedir de entrar.
Enquanto estávamos a ser carimbados (salvo seja) no posto de controlo, imaginava com algum terror termos de desatar a correr pela ponte suspensa, à frente dum grupo de homens raivosos, querendo maltratar os fura-greves, que éramos nós. Não é que me choque correr. Por acaso não gosto muito, mas o que mais me fazia impressão era mesmo ultrapassar a ponte, fosse a correr, fosse a andar. Aquilo era parecido com a famosa ponte do Indiana Jones e o Templo Perdido, quando ele corta as cordas e os mauzões caem no abismo infestado de crocodilos, excepto o Indy, a Willie e o Shorty, que ficam agarrados nas cortas cortadas. O chão desta ponte estava em melhor estado de conservação, mas havia um ou dois troncos partidos em que a minha bota quase cabia.
Uns passaram a correr, outros menos exuberantes, caminhavam sem stress, outros pulavam e abanavam a ponte. Eu, com muito cuidado, agarrada ao corrimão, lembrava-me do filme e dizia baixinho: “Oh my god, oh my god! Is he nutts!? He’s no nutts; he’s crazy!” Só quando me vi em terra firme, sem água espumosa a passar sob os meus pés é que dei os vivas todos e pulei e saltei em sintonia com o resto do grupo. Estávamos finalmente no Caminho Inca!
Continua
Sexta-feira, Outubro 02, 2009
Uifa: a energia dos Incas IX
Capítulo 6 - O piquete grevista
Parte 1
Saímos de Ollantaytambo já noite cerrada. A chuva mantinha-se constante, sem vento. O ar condicionado estava ligado, mas a Cindy Lauper estava calada. Seguíamos em silêncio por um estradão estreito de brita miúda. Não se via nada pelos vidros das janelas. Não havia iluminação pública nem sinal de iluminação privada de alguma casa perdida naqueles campos ermos.
De repente o autocarro imobiliza-se. Espreitei pela coxia, já que pelo vidro da minha janela não via nada, na esperança de vislumbrar alguma coisa pelo vidro da frente. Só consegui perceber uns feixes de luzes de lanterna dispersos na noite. O Percy falava pela janela do motorista com alguém que se encontrava na berma da estrada.
Levantou-se um burburinho entre os caminheiros que se encontravam do lado esquerdo do minibus. Eles viram várias pessoas sair da vegetação alta para a estrada, acercando-se do primeiro homem e formando um grupo de cerca de uma dúzia de pessoas. Do lado direito, onde eu me encontrava, não via nada nem ninguém. Percy continuava à conversa com o homem na estrada. Falavam baixinho, em Quechua e nem mesmo os que falavam espanhol entendiam o que se passava. Entretanto, apareceram do lado direito do minibus uns três homens. Vi-os com a luminosidade dos faróis do autocarro, que eram a única fonte de luz naquele negrume infinito. Um deles tinha um ramo de árvore na mão, como se fosse um bastão.
Quando o Percy terminou o diálogo com o homem na estrada, virou-se para dentro do autocarro, olhando para nós com ar sério. Estávamos apreensivos, sem saber muito bem o que se estava a passar. Eu ainda mais, porque não via nada do que se passava do lado esquerdo, que pelos vistos era mais dado a movimentações humanas que o lado direito, onde me encontrava.
Malta, o autocarro não vai poder avançar mais, porque a estrada está barricada. Peço a todos que coloquem os frontais, vistam os casacos e não se esqueçam de nenhuns pertences dentro do autocarro. Vamos ter de fazer o resto do percurso a pé até ao acampamento. São só mais uns vinte minutos a pé. Ao longo daqueles quatro dias, aprendi o verdadeiro significado da expressão “vinte minutos” para o Percy, mas naquele momento de tensão não dei grande importância à expressão.
Quando saí para a rua, vi uns vinte e cinco homens espalhados na estrada em frente ao autocarro. O foco de luz projectada pelos faróis iluminava uma estrada atravancada de grossos troncos de árvores, alguns com raízes agarradas, e grandes pedregulhos. Os homens mexiam-se desconfortáveis, apoiando-se ora num pé ora noutro, mas algo me dizia que não tinha a ver com a chuva que teimava em cair. Olhavam para nós com expressões carrancudas, mas talvez fosse só o resultado do encadeamento dos nossos frontais.
O Percy certificou-se que não ficou nada no minibus e mandou o motorista para trás, já que não tinha mais serventia para nós. Eu comecei a ficar enervada. Ali naquele negrume tão intenso, num país estranho, no meio de uma greve que parecia ser levada mesmo a sério. Piquetes de greve com estradas barricadas? Eu só conheço as greves da CP às horas extraordinárias. Quando há uma geralmente não sinto diferenças, porque não deixa de haver comboios e chego sempre a horas ao escritório. Mas ali era diferente. Aqueles trabalhadores rurais tinham um ar determinado e de poucos amigos. A situação não era para menos: nós, liderados pelo Percy, estávamos a tentar furar a greve. Lembrei-me dum certo Terry Malloy, um famoso estivador, que também furou uma greve num filme de culto de Elia Kazan.
Quando estou enervada, tenho tendência para dizer disparates e brincar com as coisas mais parvas que me surgem no pensamento. Por esse motivo, era a única do grupo de caminheiros que estava para ali a palrar como o papagaio azul e verde do oleiro e ainda por cima a rir. Os outros mantinham-se votados ao silêncio, mais ou menos macambúzios, tentando mostrar alguma serenidade. A rigor, estavam tão nervosos como eu.
O nosso guia pediu-nos para nos mantermos unidos e iniciou a caminhada forçada. Tínhamos de caminhar com cuidado, entre as pedras e os ramos de árvores, para não cairmos. O piquete era maior do que parecia, pois muitos homens mantinham-se na berma da estrada e até em pequenos morros de onde provavelmente tinham empurrado as rochas. Estavam também silenciosos, mas observavam-nos com atenção e curiosidade. Tivemos de passar entre eles, numa espécie de corredor humano. Sentia-me muito apreensiva e tinha já desistido de rir e dizer disparates. Apenas tentava acompanhar os meus amigos, mantendo um olho míope no chão e outro olho míope na mochila amarela familiar à minha frente. Isto tudo, ao mesmo tempo que fazia os possíveis por desembaciar os óculos e ver algo através das gotas que se acumulavam nas lentes e nos cabelos molhados que teimavam em escorregar para os olhos.
Caminhávamos em silêncio, tentando andar o mais depressa possível sem tropeçar nos obstáculos vegetais e minerais. Já não se viam piquetes. A estrada estreitou. Éramos só nós no meio da escuridão desconhecida. Nem a lua ajudava, porque estava Lua Nova. Atravessámos uma linha férrea, também ela com um tronco de árvore e algumas pedras em cima dos carris. Voltámos a trotar uns atrás dos outros. Respirávamos ofegantes. De vez em quando ouvia-se um tilintar de cantil de alumínio. O som constante era o das botas sobre a brita. As luzes dos frontais saltavam descompassadas, seguindo os movimentos nervosos das cabeças, que procuravam o melhor sítio onde pôr os pés e algum conforto na visão de um rosto amigo.
Contornámos uma curva e voltámos a passar por cima da linha do comboio. Continuávamos a ter obstáculos no caminho, mas agora resumiam-se a pedras de pequena dimensão e ramos de árvores dignos de uma qualquer lareira. Mantínhamos o silêncio e o passo estugado. A chuva continuava. Pela terceira vez passámos a linha férrea. Aquele troço não pertence de certeza à Linha de Sintra, com aquela ausência de comboios… Continuámos a caminhar depressa, até que começámos a ver umas luzes difusas no meio do breu. Eram os frontais dos carregadores no acampamento improvisado. Com esta visão, a angústia sentida no seio do grupo desanuviou um bocadinho. Dissemos umas coisas indecifráveis, mais sons do que palavras, demos umas risadinhas nervosas, aliviámos um pouco a tensão.
Chegados de facto ao local do acampamento, não se percebia grande coisa. Tendas montadas amarelas e outras vermelhas mais pequenas, todas encharcadas da chuva, estavam espalhadas aparentemente ao acaso. Os carregadores diziam por aquí señorita, por aquí señor, levantando a “porta” do vestíbulo da tenda, convidando-nos a entrar e a nos abrigarmos da chuva. Levantou-se ali alguma confusão. Não se sabia onde estavam os duffle bags respectivos; os carregadores incitavam-nos a entrar nas tendas, mas nem sempre a primeira tenda em que nos agachávamos para espreitar, era onde estava o saco com o nosso nome escrito.
As vozes cruzavam-se, dando informações caóticas. Jeremy, está aqui o teu saco e o da Maria. Kate, onde está o Greg? O saco dele está ali naquela tenda. What? Is that you, Andrew? Viram o meu duffle bag? E o meu? Where’s my wife? Señorita, acá, acá. Os americanos, canadianos e britânicos estavam mais perdidos do que nós, pois não falavam espanhol. Só o Jeremy, que tinha a namorada colombiana, usufruía do privilégio de poder perceber (à posteriori) o que diziam os carregadores. O pior era quando apanhávamos um carregador que só falava Quechua. Aí, tínhamos mesmo de nos safar com a linguagem gestual que, melhor ou pior, é internacional.
Naquelas circunstâncias, não vi nenhuma tenda para mim e, a rigor, também não procurei com muito afinco. E se um piquete grevista decidisse ir para ali reivindicar melhores condições de trabalho? E se o piquete trouxesse paus e pedras para reivindicar com mais força? E se o piquete escolhesse a tenda onde eu estivesse sozinha para servir de mediadora das suas reivindicações? Naquele momento de tensão, os ses eram demasiados e a premência em encontrar abrigo da chuva era maior ainda.
Tinha já encontrado o meu duffle bag, incluindo o saco cama, mas fiquei ali em pé à chuva, meio aparvalhada. As pessoas já tinham encontrado uma tenda e estavam mais ou menos distribuídas. Umas de rabo para o ar a colocar mochilas nas tendas, outras já só se viam os pés calçados de fora. Tentei convencer as minhas amigas a me aceitarem por uma noite na tenda delas. A Sunita mantinha-se calada, olhando de soslaio para a Joana. Por sua vez, a Joana resmungava e esbracejava, antecipando o calor que ia sentir, dentro de uma tenda sobrelotada. Bolas, que aquela mulher parece que já nasceu com a menopausa!
Expus os factos irrefutáveis de que era a mais pequena das três e de não me mexer (muito) enquanto durmo. A Sunita esperava pela resposta da Joana e esta, no meio de resmungos, lá aquiesceu com relutância. Na verdade, as tendas amarelas tinham capacidade para três pessoas, mas tenho de concordar que três mulheres (mesmo que pequenas), mais mochilas, duffle bags e botas, ficam muito atravancadas, mesmo para os parâmetros de confortabilidade de uma tenda.
Lá entrei, tentando reduzir ao mínimo a minha presença dentro da tenda. Como é que é possível tentar passar despercebida dentro duma tenda com mais duas pessoas? Enfim, encostei-me o mais possível à “parede”, encolhi-me dentro do saco cama e lá fui adormecendo aos poucos, embalada pelas vozes dos carregadores, abafadas pela chuva que caía em cima do tecto duplo da tenda.
A meio da noite senti que abanavam a tenda. Ouvi os fechos da porta da tenda, passos, vozes sussurradas. Alguém falava "portinhol" baixinho. Fiquei com medo. Seria o piquete grevista reivindicando os seus direitos? Algum bando organizado a roubar caminheiros desprevenidos? Abri um olho míope mas só consegui ver a textura monocromática da flanela do interior do meu saco cama. Levantei um pouco a cabeça, mas continuava a não ver nada. O esforço era enorme, pois o ângulo a vencer entre o colchonete e uma perspectiva propícia à visão da porta da tenda, era grande. Eu dormia com a cabeça apoiada no polar do dia anterior, dobrado de maneira a não me magoar no fecho. No entanto, a preguiça era maior do que o medo e enquanto tentava contrair os músculos do pescoço para o levantar, o barulho desvaneceu-se. O breu mantinha-se, mais ainda com a névoa da miopia, pois estava sem óculos. Decidi por isso deixar que os dedos pegajosos do sono voltassem a envolver-me e puxarem-me outra vez para a Terra do Nunca, sem me preocupar com bandidos, salteadores ou piquetes grevistas.
Mais tarde, já se percebia uma claridade muito ténue, senti que alguém estava a entrar na tenda. Desta vez fiquei assustada a sério, porque vi um vulto de joelhos no vestíbulo. Senti um nó na garganta e desatei ao pontapé na direcção da porta. O resultado foi no mínimo cómico, porque me esqueci que estava dentro de um saco cama de dois metros e dez e que eu tenho um metro e cinquenta e nove. Quem visse de fora, eu devia lembrar uma salsicha azul-cobalto com espasmos, tentando acertar no vazio. Os espasmos (e o susto) foram tais, que fui escorregando pelo colchonete até à porta, conseguindo mesmo bater com a ponta dos cinquenta e um centímetros de sobra de saco cama na porta. Sem beneficiar nada de concreto com esta minha acção defensiva, voltei a dar a vitória ao sono, para tranquilidade das minhas amigas.
Acordei pela terceira vez com a tenda a abanar e com uma voz tímida que dizia Buenos días señorita, agua caliente. Era de dia. Ainda estremunhada, resolvi pôr logo os óculos, não fosse o diabo tecê-las. Ergui-me nos cotovelos e vi um dos carregadores a abrir a porta da tenda e a colocar no interior do vestíbulo duas bacias de plástico azul cueca com água. Já me tinham falado desta prática nas expedições a Machu Picchu, por isso sorri e decidi que seria mais correcto não ter outra crise espasmódica defensiva de pseudo salsicha gigante.
Continua
Parte 1
Saímos de Ollantaytambo já noite cerrada. A chuva mantinha-se constante, sem vento. O ar condicionado estava ligado, mas a Cindy Lauper estava calada. Seguíamos em silêncio por um estradão estreito de brita miúda. Não se via nada pelos vidros das janelas. Não havia iluminação pública nem sinal de iluminação privada de alguma casa perdida naqueles campos ermos.
De repente o autocarro imobiliza-se. Espreitei pela coxia, já que pelo vidro da minha janela não via nada, na esperança de vislumbrar alguma coisa pelo vidro da frente. Só consegui perceber uns feixes de luzes de lanterna dispersos na noite. O Percy falava pela janela do motorista com alguém que se encontrava na berma da estrada.
Levantou-se um burburinho entre os caminheiros que se encontravam do lado esquerdo do minibus. Eles viram várias pessoas sair da vegetação alta para a estrada, acercando-se do primeiro homem e formando um grupo de cerca de uma dúzia de pessoas. Do lado direito, onde eu me encontrava, não via nada nem ninguém. Percy continuava à conversa com o homem na estrada. Falavam baixinho, em Quechua e nem mesmo os que falavam espanhol entendiam o que se passava. Entretanto, apareceram do lado direito do minibus uns três homens. Vi-os com a luminosidade dos faróis do autocarro, que eram a única fonte de luz naquele negrume infinito. Um deles tinha um ramo de árvore na mão, como se fosse um bastão.
Quando o Percy terminou o diálogo com o homem na estrada, virou-se para dentro do autocarro, olhando para nós com ar sério. Estávamos apreensivos, sem saber muito bem o que se estava a passar. Eu ainda mais, porque não via nada do que se passava do lado esquerdo, que pelos vistos era mais dado a movimentações humanas que o lado direito, onde me encontrava.
Malta, o autocarro não vai poder avançar mais, porque a estrada está barricada. Peço a todos que coloquem os frontais, vistam os casacos e não se esqueçam de nenhuns pertences dentro do autocarro. Vamos ter de fazer o resto do percurso a pé até ao acampamento. São só mais uns vinte minutos a pé. Ao longo daqueles quatro dias, aprendi o verdadeiro significado da expressão “vinte minutos” para o Percy, mas naquele momento de tensão não dei grande importância à expressão.
Quando saí para a rua, vi uns vinte e cinco homens espalhados na estrada em frente ao autocarro. O foco de luz projectada pelos faróis iluminava uma estrada atravancada de grossos troncos de árvores, alguns com raízes agarradas, e grandes pedregulhos. Os homens mexiam-se desconfortáveis, apoiando-se ora num pé ora noutro, mas algo me dizia que não tinha a ver com a chuva que teimava em cair. Olhavam para nós com expressões carrancudas, mas talvez fosse só o resultado do encadeamento dos nossos frontais.
O Percy certificou-se que não ficou nada no minibus e mandou o motorista para trás, já que não tinha mais serventia para nós. Eu comecei a ficar enervada. Ali naquele negrume tão intenso, num país estranho, no meio de uma greve que parecia ser levada mesmo a sério. Piquetes de greve com estradas barricadas? Eu só conheço as greves da CP às horas extraordinárias. Quando há uma geralmente não sinto diferenças, porque não deixa de haver comboios e chego sempre a horas ao escritório. Mas ali era diferente. Aqueles trabalhadores rurais tinham um ar determinado e de poucos amigos. A situação não era para menos: nós, liderados pelo Percy, estávamos a tentar furar a greve. Lembrei-me dum certo Terry Malloy, um famoso estivador, que também furou uma greve num filme de culto de Elia Kazan.
Quando estou enervada, tenho tendência para dizer disparates e brincar com as coisas mais parvas que me surgem no pensamento. Por esse motivo, era a única do grupo de caminheiros que estava para ali a palrar como o papagaio azul e verde do oleiro e ainda por cima a rir. Os outros mantinham-se votados ao silêncio, mais ou menos macambúzios, tentando mostrar alguma serenidade. A rigor, estavam tão nervosos como eu.
O nosso guia pediu-nos para nos mantermos unidos e iniciou a caminhada forçada. Tínhamos de caminhar com cuidado, entre as pedras e os ramos de árvores, para não cairmos. O piquete era maior do que parecia, pois muitos homens mantinham-se na berma da estrada e até em pequenos morros de onde provavelmente tinham empurrado as rochas. Estavam também silenciosos, mas observavam-nos com atenção e curiosidade. Tivemos de passar entre eles, numa espécie de corredor humano. Sentia-me muito apreensiva e tinha já desistido de rir e dizer disparates. Apenas tentava acompanhar os meus amigos, mantendo um olho míope no chão e outro olho míope na mochila amarela familiar à minha frente. Isto tudo, ao mesmo tempo que fazia os possíveis por desembaciar os óculos e ver algo através das gotas que se acumulavam nas lentes e nos cabelos molhados que teimavam em escorregar para os olhos.
Caminhávamos em silêncio, tentando andar o mais depressa possível sem tropeçar nos obstáculos vegetais e minerais. Já não se viam piquetes. A estrada estreitou. Éramos só nós no meio da escuridão desconhecida. Nem a lua ajudava, porque estava Lua Nova. Atravessámos uma linha férrea, também ela com um tronco de árvore e algumas pedras em cima dos carris. Voltámos a trotar uns atrás dos outros. Respirávamos ofegantes. De vez em quando ouvia-se um tilintar de cantil de alumínio. O som constante era o das botas sobre a brita. As luzes dos frontais saltavam descompassadas, seguindo os movimentos nervosos das cabeças, que procuravam o melhor sítio onde pôr os pés e algum conforto na visão de um rosto amigo.
Contornámos uma curva e voltámos a passar por cima da linha do comboio. Continuávamos a ter obstáculos no caminho, mas agora resumiam-se a pedras de pequena dimensão e ramos de árvores dignos de uma qualquer lareira. Mantínhamos o silêncio e o passo estugado. A chuva continuava. Pela terceira vez passámos a linha férrea. Aquele troço não pertence de certeza à Linha de Sintra, com aquela ausência de comboios… Continuámos a caminhar depressa, até que começámos a ver umas luzes difusas no meio do breu. Eram os frontais dos carregadores no acampamento improvisado. Com esta visão, a angústia sentida no seio do grupo desanuviou um bocadinho. Dissemos umas coisas indecifráveis, mais sons do que palavras, demos umas risadinhas nervosas, aliviámos um pouco a tensão.
Chegados de facto ao local do acampamento, não se percebia grande coisa. Tendas montadas amarelas e outras vermelhas mais pequenas, todas encharcadas da chuva, estavam espalhadas aparentemente ao acaso. Os carregadores diziam por aquí señorita, por aquí señor, levantando a “porta” do vestíbulo da tenda, convidando-nos a entrar e a nos abrigarmos da chuva. Levantou-se ali alguma confusão. Não se sabia onde estavam os duffle bags respectivos; os carregadores incitavam-nos a entrar nas tendas, mas nem sempre a primeira tenda em que nos agachávamos para espreitar, era onde estava o saco com o nosso nome escrito.
As vozes cruzavam-se, dando informações caóticas. Jeremy, está aqui o teu saco e o da Maria. Kate, onde está o Greg? O saco dele está ali naquela tenda. What? Is that you, Andrew? Viram o meu duffle bag? E o meu? Where’s my wife? Señorita, acá, acá. Os americanos, canadianos e britânicos estavam mais perdidos do que nós, pois não falavam espanhol. Só o Jeremy, que tinha a namorada colombiana, usufruía do privilégio de poder perceber (à posteriori) o que diziam os carregadores. O pior era quando apanhávamos um carregador que só falava Quechua. Aí, tínhamos mesmo de nos safar com a linguagem gestual que, melhor ou pior, é internacional.
Naquelas circunstâncias, não vi nenhuma tenda para mim e, a rigor, também não procurei com muito afinco. E se um piquete grevista decidisse ir para ali reivindicar melhores condições de trabalho? E se o piquete trouxesse paus e pedras para reivindicar com mais força? E se o piquete escolhesse a tenda onde eu estivesse sozinha para servir de mediadora das suas reivindicações? Naquele momento de tensão, os ses eram demasiados e a premência em encontrar abrigo da chuva era maior ainda.
Tinha já encontrado o meu duffle bag, incluindo o saco cama, mas fiquei ali em pé à chuva, meio aparvalhada. As pessoas já tinham encontrado uma tenda e estavam mais ou menos distribuídas. Umas de rabo para o ar a colocar mochilas nas tendas, outras já só se viam os pés calçados de fora. Tentei convencer as minhas amigas a me aceitarem por uma noite na tenda delas. A Sunita mantinha-se calada, olhando de soslaio para a Joana. Por sua vez, a Joana resmungava e esbracejava, antecipando o calor que ia sentir, dentro de uma tenda sobrelotada. Bolas, que aquela mulher parece que já nasceu com a menopausa!
Expus os factos irrefutáveis de que era a mais pequena das três e de não me mexer (muito) enquanto durmo. A Sunita esperava pela resposta da Joana e esta, no meio de resmungos, lá aquiesceu com relutância. Na verdade, as tendas amarelas tinham capacidade para três pessoas, mas tenho de concordar que três mulheres (mesmo que pequenas), mais mochilas, duffle bags e botas, ficam muito atravancadas, mesmo para os parâmetros de confortabilidade de uma tenda.
Lá entrei, tentando reduzir ao mínimo a minha presença dentro da tenda. Como é que é possível tentar passar despercebida dentro duma tenda com mais duas pessoas? Enfim, encostei-me o mais possível à “parede”, encolhi-me dentro do saco cama e lá fui adormecendo aos poucos, embalada pelas vozes dos carregadores, abafadas pela chuva que caía em cima do tecto duplo da tenda.
A meio da noite senti que abanavam a tenda. Ouvi os fechos da porta da tenda, passos, vozes sussurradas. Alguém falava "portinhol" baixinho. Fiquei com medo. Seria o piquete grevista reivindicando os seus direitos? Algum bando organizado a roubar caminheiros desprevenidos? Abri um olho míope mas só consegui ver a textura monocromática da flanela do interior do meu saco cama. Levantei um pouco a cabeça, mas continuava a não ver nada. O esforço era enorme, pois o ângulo a vencer entre o colchonete e uma perspectiva propícia à visão da porta da tenda, era grande. Eu dormia com a cabeça apoiada no polar do dia anterior, dobrado de maneira a não me magoar no fecho. No entanto, a preguiça era maior do que o medo e enquanto tentava contrair os músculos do pescoço para o levantar, o barulho desvaneceu-se. O breu mantinha-se, mais ainda com a névoa da miopia, pois estava sem óculos. Decidi por isso deixar que os dedos pegajosos do sono voltassem a envolver-me e puxarem-me outra vez para a Terra do Nunca, sem me preocupar com bandidos, salteadores ou piquetes grevistas.
Mais tarde, já se percebia uma claridade muito ténue, senti que alguém estava a entrar na tenda. Desta vez fiquei assustada a sério, porque vi um vulto de joelhos no vestíbulo. Senti um nó na garganta e desatei ao pontapé na direcção da porta. O resultado foi no mínimo cómico, porque me esqueci que estava dentro de um saco cama de dois metros e dez e que eu tenho um metro e cinquenta e nove. Quem visse de fora, eu devia lembrar uma salsicha azul-cobalto com espasmos, tentando acertar no vazio. Os espasmos (e o susto) foram tais, que fui escorregando pelo colchonete até à porta, conseguindo mesmo bater com a ponta dos cinquenta e um centímetros de sobra de saco cama na porta. Sem beneficiar nada de concreto com esta minha acção defensiva, voltei a dar a vitória ao sono, para tranquilidade das minhas amigas.
Acordei pela terceira vez com a tenda a abanar e com uma voz tímida que dizia Buenos días señorita, agua caliente. Era de dia. Ainda estremunhada, resolvi pôr logo os óculos, não fosse o diabo tecê-las. Ergui-me nos cotovelos e vi um dos carregadores a abrir a porta da tenda e a colocar no interior do vestíbulo duas bacias de plástico azul cueca com água. Já me tinham falado desta prática nas expedições a Machu Picchu, por isso sorri e decidi que seria mais correcto não ter outra crise espasmódica defensiva de pseudo salsicha gigante.
Continua
Terça-feira, Setembro 15, 2009
Uifa: a Energia dos Incas VIII
Capítulo 5 - Preliminares
Parte 2 de 2
Percy avisou-nos pelo microfone do minibus que iríamos proceder a uma pequena paragem numa olaria típica de um senhor amigo dele, para vermos uma demonstração do trabalho artesanal de oleiro. Impacientei-me. Chovia e estava frio e eu não tinha vontade de sair do ambiente controlado do autocarro. Talvez fosse a preguiça da digestão a falar…
A olaria dividia-se entre a loja e a sala de trabalho e secagem, afastadas entre si por um pátio interior, que por sua vez fazia ligação com a residência do oleiro e sua esposa. Entrámos na loja e fomos directamente para a sala de trabalho, passando pelo pátio, onde um belo papagaio azul e verde estava recolhido debaixo de umas telhas, a coberto da chuva miudinha. O oleiro estava de pé atrás da mesa de trabalho, à espera que nos sentássemos nos bancos corridos.
Iniciou a explicação, falando espanhol por detrás de um bigode farfalhudo. Finda a explicação da primeira fase do processo, parou e deixou que o Percy fizesse a tradução para inglês. Lá tive de ouvir outra vez a mesma história. O Percy calou-se e deu a voz ao oleiro. Lá explicou a segunda fase do processo e deu a palavra ao amigo. Assim foram se revezando, completando a demonstração audiovisual e bilingue. A minha cabeça fazia movimentos como se estivesse a ver um jogo de ténis; olhava para a direita e falava o oleiro em espanhol do Peru, olhava para a esquerda e falava o guia Quechua em inglês americano.
A esposa do oleiro encontrava-se apoiada na ombreira da porta a ver explicado o labor do seu marido. Ao mesmo tempo mandava calar o papagaio que estava excitado com tantas visitas. Palrava como um doido, mas à semelhança de muita gente, não dizia nada. Finda a demonstração, o grupo mudou-se para a loja, já a pensar em comprar taças, potes, vasos e canecas, que tão baratas e bonitas eram. Eu e as duas canadianas mais velhas não fizemos compras. Realmente as peças tinham o seu interesse e eram bastante baratas, mas os meus impulsos consumistas tinham sido aplacados de manhã, com a compra do gorro que ainda não tinha saído da minha cabeça.
Aproveitei aqueles momentos para conversar com a Emma, mulher gordinha dos seus cinquenta anos e indagar sobre os seus dotes caminheiros. Pela conversa não me pareceu muito experiente, ao contrário da sua amiga Anne e do trio americano com quem já tinha falado. A primeira restringia o seu treino habitual ao uso das escadas para ir para o escritório, que ficava num décimo primeiro andar. É curioso, pois nos dois meses antecedentes à viagem, também eu fiz esse treino extra (para além da caminhada semanal e do treino físico diário), mas o escritório onde trabalho fica apenas num sexto andar. Independentemente do treino que cada um opta por fazer, o trilho inca é acessível a todas as idades. O que mais preocupa é a altitude, mas este factor tanto pode influenciar o caminheiro experiente como o caminheiro principiante.
Voltámos ao aconchego climatizado do minibus e seguimos para o próximo destino: Pisac. A Tina Turner voltou a acompanhar-nos e o efeito diurético do chá de folhas de coca regressou em grande. Porque é que não aproveitei a olaria e perguntei por uma casa de banho? Chegados a Pisac, alguém também aflito perguntou pelos aseos e mais uma vez o cooperativismo feminino em questões de bexiga foi unânime. Fomos não aos pares, como é apanágio das mulheres, mas em grupo! Éramos seis ou sete, todas com premências idênticas, até às poucas casinhas construídas junto à entrada das ruínas. Trocámos sorrisos, lenços de papel para as mais incautas, técnicas de urinar em sanitas e em turcas, enquanto íamos esperando pela nossa vez. Já aliviadas, regressámos ao grupo, onde Percy e os outros homens esperavam. O nosso guia, benevolente e conhecedor dos efeitos da coca, pôde iniciar a explicação sem perigo de interrupções forçadas.
Pisac foi uma urbanização importante, tanto pelo seu tamanho como pela sua localização geográfica, a Sul do Vale Sagrado. A cidade fica no topo de uma colina, com as encostas transformadas em socalcos regulares. Ao contrário do que se pode supor, não serviam para a agricultura. Esta era praticada nos vales férteis; aqueles eram para protecção à erosão da chuva, que é muita e forte na sua estação. Se os incas tinham a inteligência suficiente para não deixar as suas casas vir de reboleta colina abaixo, não percebo porque hoje em dia se permite construir em arribas não fósseis, beiras de barrancos e leitos de rios, acontecendo as desgraças humanas e materiais que se sabe, sempre que cai uma chuvita, culpando inevitavelmente os governos e câmaras municipais respectivos.
Voltámos ao minibus e dirigimo-nos ao último local de visita do dia: Ollantaytambo. Sinceramente já estava saturada. Sair do autocarro, ver ruínas, entrar no autocarro, ir a sítios para se comprar coisas… Era tudo interessante de ver, mas eu queria caminhar, deixar o asfalto, esquecer-me da civilização e do consumismo e entrar nos trilhos pela floresta adentro.
Ollantaytambo revelou-se uma vila muito bem arranjada, com edifícios baixos em pedra e madeira, com uma vida muito alegre e descontraída. Não é de admirar, pois é daqui que saem a maioria das expedições a pé para Machu Picchu ou outras expedições com outros métodos de locomoção (canoa, BTT, cavalo, TT) para outros destinos. Por isso, a atmosfera é feérica, tanto pela expectativa da partida, como pelo deslumbramento da chegada. Existem muitos bares e restaurantes, para todos os gostos e bolsas, cafés com Internet, esplanadas, um mercado ao ar livre e, claro está, o sítio arqueológico de Ollantaytambo (o tambo de Ollantay, que é como quem diz “o lugar fortificado do [general] Ollantay”).
Fiquei encantada com a vila! As ruas calcetadas com pedras redondas e com pequenos canais onde passava veloz a água de escorrências. O ribeiro que acompanhava um dos limites da vila, sob uma pequena ponte de pedra. Os restaurantes que tinham mesas nos alpendres e nas varandas em madeira. As pessoas de tantas nacionalidades que passeavam. Os índios que ali viviam. O ambiente era alegre, dinâmico, frenético. Sentia-se no ar uma forte energia; uma inquietação, uma ansiedade, um desassossego, mas estes sentimentos eram positivos, alegres e bem-dispostos.
A visita ao sítio arqueológico foi muito interessante. Além de vermos de perto mais um exemplo dos socalcos anti-erosão, a perspectiva do topo da colina proporcionava uma visão total da vila. O plano das ruas antigas era ortogonal, tal como na Baixa Pombalina. Havia uma praça central, a Plaza de Armas local, mas esta era contemporânea da colonização espanhola. A original foi destruída e substituída por edifícios e a actual foi feita noutro lugar. Em termos arqueológicos, o local foi um reduto da resistência inca e do seu último “rei”, Manco Inca. Antes desse período, tinha um núcleo urbano associado a um templo construído na encosta, sobre os socalcos.
Do templo, pouco resta além de uns monólitos de pedra com cerca de oitenta toneladas cada um, polidos e unidos com a técnica misteriosa inca, sem uso de colas ou argamassas. É impressionante constatar que aquelas pedras foram trazidas do outro lado do vale, dividido pelo rio Urubamba. Os incas tiveram de fazer descer os monólitos do topo do outro monte, galgar o rio e subir a encosta oposta. Depois disto, poliram e encaixaram de tal forma os pedregulhos que não existem interstícios nenhuns entre eles. O Percy explicou-nos também que o encaixe é feito com uma peça côncava e outra convexa, o que pressupõe um trabalho mais complexo e demorado do que se as pedras fossem “simplesmente” encostadas umas nas outras.
Se tivermos em consideração que os incas não conheciam a roda, nem usavam instrumentos de ferro e, alegadamente, não usavam trabalho escravo, torna-se difícil imaginar como conseguiram tal proeza. Há pessoas que optam por acreditar que foram uns homenzinhos verdes com antenas, vindos em objectos voadores não identificados, que ajudaram os pobrezitos dos incas, que eram uns incultos, coitadinhos. Outras, mais dadas a explicações de base científica, ficam sem respostas, a matutar como é que aquilo foi feito. Eu sei que fiquei. Olhava para o topo da montanha à minha frente, olhava para o rio lá em baixo e olhava para os monólitos ao meu lado, duas vezes e meia mais altos do que eu. Senti uma espécie de reverência quando toquei naqueles pedregulhos alisados.
Regressados à vila, fomos até ao Hostal Las Orquídeas, onde formámos uma pequena reunião no pátio interior, cheio de flores de todos os tipos, menos de orquídeas. O Percy esperou que nos acomodássemos nas cadeiras de verga e introduziu o assunto que tinha para nos falar. Devido à Greve Geral Nacional de Trabalhadores, não iríamos poder dormir essa noite no Hostal, como estava previsto. Não era porque os empregados participassem na greve, mas era porque iríamos dormir num acampamento a quatro quilómetros da entrada do Parque Nacional de Machu Picchu, de forma a conseguirmos no dia seguinte entrar o mais cedo possível, antes da chegada do piquete grevista que ia barricar o portão e, provavelmente, as estradas de acesso ao parque.
Piquetes a fazer barricadas!? Oh Percy, desculpa lá, mas afinal qual é a razão da greve? É porque os preços dos bens essenciais, como o milho e a batata, quadruplicaram em muito pouco tempo e as pessoas das zonas rurais mais pobres (que é mais de metade da população peruana) não têm dinheiro para os comprar e passam fome. Ficámos apreensivos. Tínhamos todos consciência que é necessário passar por um posto de controlo de passaportes antes de entrar no Parque. Esse posto é o famoso Quilómetro 82, que está sediado ao lado do portão que dá acesso à ponte sobre o rio onde inicia o Camino Inka. Se um piquete grevista o barricasse, era impossível entrar e, por consequência, chegar a Machu Picchu por aquela via pedonal.
Apesar do Percy explicar-nos esta situação da greve como se não fosse nada de especial, o facto de haver piquetes grevistas a cortar estradas e a cerrar entradas de locais como o Parque, deixou-me bastante preocupada. Não tanto no sentido de ficar com as férias estragadas (que seria realmente desagradável), mas mais no sentido de podermos estar numa zona potencialmente perigosa, com possibilidade de distúrbios públicos. Já conseguia ver-me espojada no chão, com uma ferida sangrenta na cabeça, no meio de uma manifestação de trabalhadores armados com paus e pedras, engalfinhados nos polícias de choque com bastões, balas de borracha e gás lacrimogéneo. Cenários que se vêem com frequência nos telejornais e que eu preferia mantê-los o mais longe possível de mim.
Percy continuou a falar, antecipando uma série de perguntas. Os carregadores já estavam a caminho para montar o acampamento; os nossos duffle bags estavam em segurança, na posse deles; amanhã teríamos de nos levantar às seis da manhã e não às sete; as compras efectuadas hoje iriam ficar ali no Orquídeas, à espera do nosso regresso; assim que passássemos pelo portão estaríamos descansados e por nossa conta; ao quarto dia de caminhada chegaríamos à cidade “perdida”.
Dito daquela forma, parecia tudo simples e sem complicações. Percy conseguiu apaziguar as nossas mentes, apesar de termos ficado a saber que tínhamos de prescindir já naquele dia de cama, de electricidade e de água quente canalizada. O grupo era realmente constituído por pessoas de trato fácil, porque ninguém se opôs demasiado à situação, sem resmungar, sem pedir indemnizações, sem chamar nomes a ninguém. Estávamos cientes da situação, tanto pelo direito das pessoas à greve, como pela pró-actividade do Percy, que tomou todas as providências para que a caminhada se efectivasse.
Finda a reunião, Percy deu-nos a optar entre uma caminhada até às “despensas” da antiga Ollantaytambo (uns buracos na encosta onde antigamente se guardavam os cereais e outros alimentos menos perecíveis) ou um passeio livre pela vila. O grupo não foi unânime nas escolhas, mas mais ou menos dividiu-se a meio. Uma metade foi com o Percy às “despensas” e a outra metade decidiu deambular pelas ruas. Ficou combinado encontro ao final da tarde para um jantar leve antes da ida para o primeiro acampamento.
Apesar da vontade de caminhar, não quis ir às “despensas”. Preferia explorar a vila. Estava encantada com ela. Conseguia até imaginar-me a viver ali. Não sei por quanto tempo, mas conseguia imaginar-me. Talvez pouco, porque certamente iria ter saudades do mar. Não obstante, parecia-me uma ideia plausível e agradável, imigrar para o Peru e, quem sabe, montar uma empresa de caminhadas. Talvez abrisse também um SPA com massagens, visto este negócio ter muita saída naquela zona, e provavelmente um restaurantezito de comida vegetariana com tempero português. Via já uma daquelas casas de pedra adaptadas e com um reclamo chamativo: escritório de caminhadas no rés-do-chão, restaurante no primeiro andar com terraço e o SPA algures entre os sacos de quinoa armazenados e os bastões de caminhada para alugar. Dividir-me-ia de manhã para as caminhadas, à tarde para as massagens e à noite para os jantares no restaurante. Os três departamentos teriam imagem corporativa coordenada e filosofia coerente com os ideais de sustentabilidade e ecologia.
Estes devaneios podiam ter origem em dois factores. O primeiro que o chá de folhas de coca pode não ser só diurético. O segundo que eu sentia-me feliz e capaz de ultrapassar qualquer desafio, mesmo o mais desconchavado, talvez até ir ao pé-coxinho até Machu Picchu e voltar. Decidi respirar fundo e ir comprar alguns postais para enviar aos amigos e familiares. Podia ser que me aliviasse um pouco a cabeça e que os destinatários recebessem parte desta minha energia que parecia estar a danificar as sinapses dos meus neurónios.
Passeámos sem destino aparente. Na praça principal, com uma estátua de Manco Inca, umas índias vendiam bastões de madeira com punhos em lã e saquinhos com folhas frescas de coca. Lembrados do conselho do Percy, comprámos um saquinho cada um, pois ele disse que nos iria ensinar a mascá-las durante o caminho inca. A Joana e a Sunita também compraram bastões de madeira. Mais uma vez, aquele sentimento de tabu invadiu-nos. Estávamos a comprar folhas de coca! Com os conhecimentos adequados, podíamos juntar os cinco saquinhos de cem gramas cada um, processar o alcalóide catorze e tornar-nos traficantes empedernidos!
Apesar de faltar pouco menos de duas horas para o encontro com o resto do grupo, nós os cinco decidimos ir petiscar qualquer coisa, não fosse o caso da refeição leve mencionada pelo Percy ser demasiado leve. Escolhemos um restaurante pequeno, com um alpendre virado para a rua principal. Era bastante agradável, com mesas de madeira sob toalhas coloridas e bancos corridos. Nos cantos do alpendre, havia vasos pendurados com flores. Já estava a escurecer e a esfriar, mas as pessoas continuavam na mesma dinâmica. A vila não parecia esmorecer. Será que tinha uma vida nocturna tão activa como Cusco? Não pudemos confirmar.
Enquanto esperávamos pelos pedidos, comecei a escrever os postais. Optei por não referir os meus planos de imigração e empreendedorismo, não fossem as pessoas pensar que eu tinha sucumbido aos efeitos da altitude e da coca(ína). Apenas fiz menção à meteorologia e à expectativa pela caminhada. Um postal tem um espaço útil pequeno, o que ajuda aos menos imaginativos para a escrita, mas da maneira como eu me sentia, era capaz de escrever ali um romance em dez volumes. Sentia-me frenética, inspirada. Oito postalinhos de quinze por dez são curtos para descrever aquilo que eu experimentava.
Enquanto comíamos as sopas (as sopas peruanas são magníficas), o casal britânico passou por nós na rua. Pareciam umas aves pernaltas louras de olhos claros. O John tinha um metro e noventa e cinco e a sua esposa tinha menos dez centímetros. Como ambos eram magros, ainda pareciam mais altos e desengonçados. Devem ter pensado que os portugueses não fazem mais nada na vida do que comer e falar. Éramos realmente o grupo mais falador, ainda por cima falávamos com as mãos, com os olhos, com os braços e com o que viesse à mão, enquanto o resto do grupo era mais recatado quando falavam. O casal inglês era particularmente silencioso. A ela só lhe ouvi a voz duas vezes. A primeira num jantar na tenda de campanha a recusar a sobremesa e a segunda já em Machu Picchu quando disse Look John, so many butterflies! E era verdade, eram muitas. Ele era mais social e simpático, mas com limites. Mesmo quando começaram a falar do Manchester United e do Chelsea, o John deixava os entusiasmos clubísticos para o Pedro, resumindo as suas opiniões a modestos trejeitos guturais de assentimento, que a meu ver eram mais de cortesia do que de real interesse pelo tema.
À hora combinada, lá nos encontrámos todos no Hostal Las Orquídeas para ir para o restaurante onde iríamos ter a “leve” refeição. Os que foram visitar as “despensas” e gastaram calorias na caminhada, deviam estar esgalgados com fome e a pensar na comida. Como nós tínhamos já o estômago forrado, fomos mais pelo convívio.
Continua
Parte 2 de 2
Percy avisou-nos pelo microfone do minibus que iríamos proceder a uma pequena paragem numa olaria típica de um senhor amigo dele, para vermos uma demonstração do trabalho artesanal de oleiro. Impacientei-me. Chovia e estava frio e eu não tinha vontade de sair do ambiente controlado do autocarro. Talvez fosse a preguiça da digestão a falar…
A olaria dividia-se entre a loja e a sala de trabalho e secagem, afastadas entre si por um pátio interior, que por sua vez fazia ligação com a residência do oleiro e sua esposa. Entrámos na loja e fomos directamente para a sala de trabalho, passando pelo pátio, onde um belo papagaio azul e verde estava recolhido debaixo de umas telhas, a coberto da chuva miudinha. O oleiro estava de pé atrás da mesa de trabalho, à espera que nos sentássemos nos bancos corridos.
Iniciou a explicação, falando espanhol por detrás de um bigode farfalhudo. Finda a explicação da primeira fase do processo, parou e deixou que o Percy fizesse a tradução para inglês. Lá tive de ouvir outra vez a mesma história. O Percy calou-se e deu a voz ao oleiro. Lá explicou a segunda fase do processo e deu a palavra ao amigo. Assim foram se revezando, completando a demonstração audiovisual e bilingue. A minha cabeça fazia movimentos como se estivesse a ver um jogo de ténis; olhava para a direita e falava o oleiro em espanhol do Peru, olhava para a esquerda e falava o guia Quechua em inglês americano.
A esposa do oleiro encontrava-se apoiada na ombreira da porta a ver explicado o labor do seu marido. Ao mesmo tempo mandava calar o papagaio que estava excitado com tantas visitas. Palrava como um doido, mas à semelhança de muita gente, não dizia nada. Finda a demonstração, o grupo mudou-se para a loja, já a pensar em comprar taças, potes, vasos e canecas, que tão baratas e bonitas eram. Eu e as duas canadianas mais velhas não fizemos compras. Realmente as peças tinham o seu interesse e eram bastante baratas, mas os meus impulsos consumistas tinham sido aplacados de manhã, com a compra do gorro que ainda não tinha saído da minha cabeça.
Aproveitei aqueles momentos para conversar com a Emma, mulher gordinha dos seus cinquenta anos e indagar sobre os seus dotes caminheiros. Pela conversa não me pareceu muito experiente, ao contrário da sua amiga Anne e do trio americano com quem já tinha falado. A primeira restringia o seu treino habitual ao uso das escadas para ir para o escritório, que ficava num décimo primeiro andar. É curioso, pois nos dois meses antecedentes à viagem, também eu fiz esse treino extra (para além da caminhada semanal e do treino físico diário), mas o escritório onde trabalho fica apenas num sexto andar. Independentemente do treino que cada um opta por fazer, o trilho inca é acessível a todas as idades. O que mais preocupa é a altitude, mas este factor tanto pode influenciar o caminheiro experiente como o caminheiro principiante.
Voltámos ao aconchego climatizado do minibus e seguimos para o próximo destino: Pisac. A Tina Turner voltou a acompanhar-nos e o efeito diurético do chá de folhas de coca regressou em grande. Porque é que não aproveitei a olaria e perguntei por uma casa de banho? Chegados a Pisac, alguém também aflito perguntou pelos aseos e mais uma vez o cooperativismo feminino em questões de bexiga foi unânime. Fomos não aos pares, como é apanágio das mulheres, mas em grupo! Éramos seis ou sete, todas com premências idênticas, até às poucas casinhas construídas junto à entrada das ruínas. Trocámos sorrisos, lenços de papel para as mais incautas, técnicas de urinar em sanitas e em turcas, enquanto íamos esperando pela nossa vez. Já aliviadas, regressámos ao grupo, onde Percy e os outros homens esperavam. O nosso guia, benevolente e conhecedor dos efeitos da coca, pôde iniciar a explicação sem perigo de interrupções forçadas.
Pisac foi uma urbanização importante, tanto pelo seu tamanho como pela sua localização geográfica, a Sul do Vale Sagrado. A cidade fica no topo de uma colina, com as encostas transformadas em socalcos regulares. Ao contrário do que se pode supor, não serviam para a agricultura. Esta era praticada nos vales férteis; aqueles eram para protecção à erosão da chuva, que é muita e forte na sua estação. Se os incas tinham a inteligência suficiente para não deixar as suas casas vir de reboleta colina abaixo, não percebo porque hoje em dia se permite construir em arribas não fósseis, beiras de barrancos e leitos de rios, acontecendo as desgraças humanas e materiais que se sabe, sempre que cai uma chuvita, culpando inevitavelmente os governos e câmaras municipais respectivos.
Voltámos ao minibus e dirigimo-nos ao último local de visita do dia: Ollantaytambo. Sinceramente já estava saturada. Sair do autocarro, ver ruínas, entrar no autocarro, ir a sítios para se comprar coisas… Era tudo interessante de ver, mas eu queria caminhar, deixar o asfalto, esquecer-me da civilização e do consumismo e entrar nos trilhos pela floresta adentro.
Ollantaytambo revelou-se uma vila muito bem arranjada, com edifícios baixos em pedra e madeira, com uma vida muito alegre e descontraída. Não é de admirar, pois é daqui que saem a maioria das expedições a pé para Machu Picchu ou outras expedições com outros métodos de locomoção (canoa, BTT, cavalo, TT) para outros destinos. Por isso, a atmosfera é feérica, tanto pela expectativa da partida, como pelo deslumbramento da chegada. Existem muitos bares e restaurantes, para todos os gostos e bolsas, cafés com Internet, esplanadas, um mercado ao ar livre e, claro está, o sítio arqueológico de Ollantaytambo (o tambo de Ollantay, que é como quem diz “o lugar fortificado do [general] Ollantay”).
Fiquei encantada com a vila! As ruas calcetadas com pedras redondas e com pequenos canais onde passava veloz a água de escorrências. O ribeiro que acompanhava um dos limites da vila, sob uma pequena ponte de pedra. Os restaurantes que tinham mesas nos alpendres e nas varandas em madeira. As pessoas de tantas nacionalidades que passeavam. Os índios que ali viviam. O ambiente era alegre, dinâmico, frenético. Sentia-se no ar uma forte energia; uma inquietação, uma ansiedade, um desassossego, mas estes sentimentos eram positivos, alegres e bem-dispostos.
A visita ao sítio arqueológico foi muito interessante. Além de vermos de perto mais um exemplo dos socalcos anti-erosão, a perspectiva do topo da colina proporcionava uma visão total da vila. O plano das ruas antigas era ortogonal, tal como na Baixa Pombalina. Havia uma praça central, a Plaza de Armas local, mas esta era contemporânea da colonização espanhola. A original foi destruída e substituída por edifícios e a actual foi feita noutro lugar. Em termos arqueológicos, o local foi um reduto da resistência inca e do seu último “rei”, Manco Inca. Antes desse período, tinha um núcleo urbano associado a um templo construído na encosta, sobre os socalcos.
Do templo, pouco resta além de uns monólitos de pedra com cerca de oitenta toneladas cada um, polidos e unidos com a técnica misteriosa inca, sem uso de colas ou argamassas. É impressionante constatar que aquelas pedras foram trazidas do outro lado do vale, dividido pelo rio Urubamba. Os incas tiveram de fazer descer os monólitos do topo do outro monte, galgar o rio e subir a encosta oposta. Depois disto, poliram e encaixaram de tal forma os pedregulhos que não existem interstícios nenhuns entre eles. O Percy explicou-nos também que o encaixe é feito com uma peça côncava e outra convexa, o que pressupõe um trabalho mais complexo e demorado do que se as pedras fossem “simplesmente” encostadas umas nas outras.
Se tivermos em consideração que os incas não conheciam a roda, nem usavam instrumentos de ferro e, alegadamente, não usavam trabalho escravo, torna-se difícil imaginar como conseguiram tal proeza. Há pessoas que optam por acreditar que foram uns homenzinhos verdes com antenas, vindos em objectos voadores não identificados, que ajudaram os pobrezitos dos incas, que eram uns incultos, coitadinhos. Outras, mais dadas a explicações de base científica, ficam sem respostas, a matutar como é que aquilo foi feito. Eu sei que fiquei. Olhava para o topo da montanha à minha frente, olhava para o rio lá em baixo e olhava para os monólitos ao meu lado, duas vezes e meia mais altos do que eu. Senti uma espécie de reverência quando toquei naqueles pedregulhos alisados.
Regressados à vila, fomos até ao Hostal Las Orquídeas, onde formámos uma pequena reunião no pátio interior, cheio de flores de todos os tipos, menos de orquídeas. O Percy esperou que nos acomodássemos nas cadeiras de verga e introduziu o assunto que tinha para nos falar. Devido à Greve Geral Nacional de Trabalhadores, não iríamos poder dormir essa noite no Hostal, como estava previsto. Não era porque os empregados participassem na greve, mas era porque iríamos dormir num acampamento a quatro quilómetros da entrada do Parque Nacional de Machu Picchu, de forma a conseguirmos no dia seguinte entrar o mais cedo possível, antes da chegada do piquete grevista que ia barricar o portão e, provavelmente, as estradas de acesso ao parque.
Piquetes a fazer barricadas!? Oh Percy, desculpa lá, mas afinal qual é a razão da greve? É porque os preços dos bens essenciais, como o milho e a batata, quadruplicaram em muito pouco tempo e as pessoas das zonas rurais mais pobres (que é mais de metade da população peruana) não têm dinheiro para os comprar e passam fome. Ficámos apreensivos. Tínhamos todos consciência que é necessário passar por um posto de controlo de passaportes antes de entrar no Parque. Esse posto é o famoso Quilómetro 82, que está sediado ao lado do portão que dá acesso à ponte sobre o rio onde inicia o Camino Inka. Se um piquete grevista o barricasse, era impossível entrar e, por consequência, chegar a Machu Picchu por aquela via pedonal.
Apesar do Percy explicar-nos esta situação da greve como se não fosse nada de especial, o facto de haver piquetes grevistas a cortar estradas e a cerrar entradas de locais como o Parque, deixou-me bastante preocupada. Não tanto no sentido de ficar com as férias estragadas (que seria realmente desagradável), mas mais no sentido de podermos estar numa zona potencialmente perigosa, com possibilidade de distúrbios públicos. Já conseguia ver-me espojada no chão, com uma ferida sangrenta na cabeça, no meio de uma manifestação de trabalhadores armados com paus e pedras, engalfinhados nos polícias de choque com bastões, balas de borracha e gás lacrimogéneo. Cenários que se vêem com frequência nos telejornais e que eu preferia mantê-los o mais longe possível de mim.
Percy continuou a falar, antecipando uma série de perguntas. Os carregadores já estavam a caminho para montar o acampamento; os nossos duffle bags estavam em segurança, na posse deles; amanhã teríamos de nos levantar às seis da manhã e não às sete; as compras efectuadas hoje iriam ficar ali no Orquídeas, à espera do nosso regresso; assim que passássemos pelo portão estaríamos descansados e por nossa conta; ao quarto dia de caminhada chegaríamos à cidade “perdida”.
Dito daquela forma, parecia tudo simples e sem complicações. Percy conseguiu apaziguar as nossas mentes, apesar de termos ficado a saber que tínhamos de prescindir já naquele dia de cama, de electricidade e de água quente canalizada. O grupo era realmente constituído por pessoas de trato fácil, porque ninguém se opôs demasiado à situação, sem resmungar, sem pedir indemnizações, sem chamar nomes a ninguém. Estávamos cientes da situação, tanto pelo direito das pessoas à greve, como pela pró-actividade do Percy, que tomou todas as providências para que a caminhada se efectivasse.
Finda a reunião, Percy deu-nos a optar entre uma caminhada até às “despensas” da antiga Ollantaytambo (uns buracos na encosta onde antigamente se guardavam os cereais e outros alimentos menos perecíveis) ou um passeio livre pela vila. O grupo não foi unânime nas escolhas, mas mais ou menos dividiu-se a meio. Uma metade foi com o Percy às “despensas” e a outra metade decidiu deambular pelas ruas. Ficou combinado encontro ao final da tarde para um jantar leve antes da ida para o primeiro acampamento.
Apesar da vontade de caminhar, não quis ir às “despensas”. Preferia explorar a vila. Estava encantada com ela. Conseguia até imaginar-me a viver ali. Não sei por quanto tempo, mas conseguia imaginar-me. Talvez pouco, porque certamente iria ter saudades do mar. Não obstante, parecia-me uma ideia plausível e agradável, imigrar para o Peru e, quem sabe, montar uma empresa de caminhadas. Talvez abrisse também um SPA com massagens, visto este negócio ter muita saída naquela zona, e provavelmente um restaurantezito de comida vegetariana com tempero português. Via já uma daquelas casas de pedra adaptadas e com um reclamo chamativo: escritório de caminhadas no rés-do-chão, restaurante no primeiro andar com terraço e o SPA algures entre os sacos de quinoa armazenados e os bastões de caminhada para alugar. Dividir-me-ia de manhã para as caminhadas, à tarde para as massagens e à noite para os jantares no restaurante. Os três departamentos teriam imagem corporativa coordenada e filosofia coerente com os ideais de sustentabilidade e ecologia.
Estes devaneios podiam ter origem em dois factores. O primeiro que o chá de folhas de coca pode não ser só diurético. O segundo que eu sentia-me feliz e capaz de ultrapassar qualquer desafio, mesmo o mais desconchavado, talvez até ir ao pé-coxinho até Machu Picchu e voltar. Decidi respirar fundo e ir comprar alguns postais para enviar aos amigos e familiares. Podia ser que me aliviasse um pouco a cabeça e que os destinatários recebessem parte desta minha energia que parecia estar a danificar as sinapses dos meus neurónios.
Passeámos sem destino aparente. Na praça principal, com uma estátua de Manco Inca, umas índias vendiam bastões de madeira com punhos em lã e saquinhos com folhas frescas de coca. Lembrados do conselho do Percy, comprámos um saquinho cada um, pois ele disse que nos iria ensinar a mascá-las durante o caminho inca. A Joana e a Sunita também compraram bastões de madeira. Mais uma vez, aquele sentimento de tabu invadiu-nos. Estávamos a comprar folhas de coca! Com os conhecimentos adequados, podíamos juntar os cinco saquinhos de cem gramas cada um, processar o alcalóide catorze e tornar-nos traficantes empedernidos!
Apesar de faltar pouco menos de duas horas para o encontro com o resto do grupo, nós os cinco decidimos ir petiscar qualquer coisa, não fosse o caso da refeição leve mencionada pelo Percy ser demasiado leve. Escolhemos um restaurante pequeno, com um alpendre virado para a rua principal. Era bastante agradável, com mesas de madeira sob toalhas coloridas e bancos corridos. Nos cantos do alpendre, havia vasos pendurados com flores. Já estava a escurecer e a esfriar, mas as pessoas continuavam na mesma dinâmica. A vila não parecia esmorecer. Será que tinha uma vida nocturna tão activa como Cusco? Não pudemos confirmar.
Enquanto esperávamos pelos pedidos, comecei a escrever os postais. Optei por não referir os meus planos de imigração e empreendedorismo, não fossem as pessoas pensar que eu tinha sucumbido aos efeitos da altitude e da coca(ína). Apenas fiz menção à meteorologia e à expectativa pela caminhada. Um postal tem um espaço útil pequeno, o que ajuda aos menos imaginativos para a escrita, mas da maneira como eu me sentia, era capaz de escrever ali um romance em dez volumes. Sentia-me frenética, inspirada. Oito postalinhos de quinze por dez são curtos para descrever aquilo que eu experimentava.
Enquanto comíamos as sopas (as sopas peruanas são magníficas), o casal britânico passou por nós na rua. Pareciam umas aves pernaltas louras de olhos claros. O John tinha um metro e noventa e cinco e a sua esposa tinha menos dez centímetros. Como ambos eram magros, ainda pareciam mais altos e desengonçados. Devem ter pensado que os portugueses não fazem mais nada na vida do que comer e falar. Éramos realmente o grupo mais falador, ainda por cima falávamos com as mãos, com os olhos, com os braços e com o que viesse à mão, enquanto o resto do grupo era mais recatado quando falavam. O casal inglês era particularmente silencioso. A ela só lhe ouvi a voz duas vezes. A primeira num jantar na tenda de campanha a recusar a sobremesa e a segunda já em Machu Picchu quando disse Look John, so many butterflies! E era verdade, eram muitas. Ele era mais social e simpático, mas com limites. Mesmo quando começaram a falar do Manchester United e do Chelsea, o John deixava os entusiasmos clubísticos para o Pedro, resumindo as suas opiniões a modestos trejeitos guturais de assentimento, que a meu ver eram mais de cortesia do que de real interesse pelo tema.
À hora combinada, lá nos encontrámos todos no Hostal Las Orquídeas para ir para o restaurante onde iríamos ter a “leve” refeição. Os que foram visitar as “despensas” e gastaram calorias na caminhada, deviam estar esgalgados com fome e a pensar na comida. Como nós tínhamos já o estômago forrado, fomos mais pelo convívio.
Continua
Quarta-feira, Julho 15, 2009
Uifa: a energia dos Incas VII
Capítulo 5 - Preliminares
Parte 1 de 2
O Percy veio buscar-nos ao hotel às nove da manhã. Quando ele chegou, eu estava a terminar o meu sumo de papaia. Felizmente acordei com o estômago refeito e com um apetite voraz. Os duffle bags de sete quilos foram lançados para o tejadilho do minibus, onde foram acondicionados por um dos carregadores (porters, para os locais) na estrutura de alumínio.
O dia seria dedicado a visitas a dois sítios arqueológicos, a uma aldeia tradicional e ao famoso Vale Sagrado, não necessariamente por esta ordem. Teríamos de viajar sempre de minibus para conseguir cumprir o itinerário, claro está, mas este facto parece um paradoxo: um grupo de caminheiros, que estava ali para caminhar, mas iria passar um dia inteiro a entrar e a sair dum autocarro, como uma qualquer excursão turística massificada.
O grupo foi entrando com as mochilas, acomodando-se o melhor possível entre bancos estreitos e mochilas pessoais volumosas. As duas amigas canadianas num banco duplo; a tripla americana ao fundo; o casal americano/colombiana mais à frente; coitado do casal britânico, que tinham mais de um metro e noventa e onze de altura cada um, ficavam todos encolhidos, fossem em que bancos fossem. No meu caso, devo admitir que ser da era da miniaturização tem um lado positivo. Não posso conduzir as motas dos meus sonhos, mas naquele autocarro ia a roçar com as pontas dos pés no chão e nem que quisesse, tocava com os joelhos no banco à minha frente.
Em termos de arqueologia, o Peru é um bocado como o Egipto (ou como em certas zonas de Lisboa): dá-se uma cavadela e, além das prováveis minhocas, encontram-se ruínas com mil anos. Neste país encontram-se vestígios de inúmeras civilizações pré-colombianas, tanto a nível de construções em pedra, como de múmias e objectos de uso quotidiano e pessoal. As edificações incas são mais famosas, talvez por serem contemporâneas da chegada dos primeiros espanhóis, talvez por usarem técnicas de construção pouco claras ainda para nós, talvez por parecerem incólumes aos tantos terramotos que se fazem sentir, onde tudo se desmorona menos os palácios e os templos incas. Seja como for, naquele dia íamos visitar dois famosos sítios: Pisac e Ollantaytambo.
Saímos de Cusco, subindo pelas encostas da “tigela” em direcção a uma aldeia chamada Qaqaqollo. Esta aldeia comunitária favorece de um programa de ecoturismo e sustentabilidade patrocinado por aquela empresa de caminhadas. Traduzindo, os habitantes mantém os seus modos de vida ancestrais e a empresa leva até eles os turistas que depois compram produtos manufacturados pelos locais, como é o caso dos lanifícios provenientes das alpacas criadas na aldeia. O dinheiro arrecadado é investido em infra-estruturas, tais como saneamento ou electricidade; em meios educativos para as crianças; e também em produtos não produzidos na aldeia, como é o caso do açúcar ou do calçado.
Pela estrada viam-se alguns minibus idênticos ao nosso, de outras empresas. Muitos grupos paravam à beira da estrada, em pequenos miradouros, para apreciarem a vista de Cusco. Outros grupos, de locais, encontravam-se espaçados pelas estradas. Era um ajuntamento estranho, sentia-se ali alguma tensão, tanto no modo de estar, como nos olhares. Percy explicou que aquelas pessoas estavam ali, porque queriam ver o Primeiro-Ministro que iria visitar a cidade e os arredores com o objectivo de tentar cancelar a Greve Geral Nacional de Trabalhadores programada para o dia seguinte.
Ficámos à coca (e não estou a falar do arbusto dos catorze alcalóides) quando ouvimos falar pela segunda vez da Greve Geral. Afinal, ia ter influência no nosso programa, ou não? Ia condicionar a entrada no Caminho Inka e a Machu Picchu, ou não? É evidente que concordo que as pessoas têm de lutar pelos seus direitos e por melhores condições de vida e trabalho, mas cresceu-me um temor de, por algum motivo exterior a mim, não conseguir cumprir o objectivo a que me propus e pelo qual me esforcei tanto em termos económicos.
O Percy sossegou-nos afirmando que tinha tudo sob controlo; que era um guia experiente e conhecedor; que tinha tudo arranjado para entrarmos amanhã no Parque Nacional; que era a quadringentésima quadragésima nona vez que fazia o Camino Inka até Machu Picchu. Uma vez lá dentro podia haver as greves todas que quisessem organizar, que já não nos impediam de chegar à “cidade perdida”. Uau… Quase quinhentas vezes que fez o caminho inca. Este guia deve acordar e dizer: Oh que aborrecimento, lá vou ter de ir outra vez a Machu Picchu!
Não estávamos a questionar as qualidades profissionais do guia, mas mesmo assim ficámos mais tranquilos. Voltámos a prestar atenção à paisagem que passava pelas janelas. Sem contar com a altitude e o tamanho descomunal das montanhas, lembrava-me um pouco o interior de Portugal. A semelhança baseava-se na presença de eucaliptos. Também aqui plantaram árvores infestantes provenientes da Austrália, com o fito no comércio da pasta de papel.
O minibus ia contornando as encostas íngremes, fazendo curvas apertadas. Deixámos o asfalto e começámos a subir um estradão de terra inclinado. Já ninguém ligava aos eucaliptos; só prestávamos atenção ao som do motor a subir em esforço supremo aqueles caminhos rurais estreitos.
No centro da aldeia esperavam-nos seis mulheres índias vestidas nos seus fatos típicos. Cada uma empunhava utensílios de fiar lã. Era uma demonstração bastante insípida e mal representada, mas para quem não teve uma tia que tricotava camisolas de lã pesadíssimas e que pedia braços alheios para serem os desenroladores das meadas que ela transformava em novelos, poderia achar interessante.
As casas em redor daquele grande terreiro eram feitas em adobe. Construíram-nas na encosta sobranceira ao vale. Muitos tijolos de adobe estavam alinhados no chão a secar, apesar de estar a cair uma chuva miudinha. Por debaixo de um telheiro comprido de palha, os produtos manufacturados em lã de alpaca apresentavam-se expostos por categorias. Peúgas, cachecóis, mantas, cobertores, camisolas, gorros, luvas, pequenas bonecas, sacos e festões com motivos peruanos. Senhoras índias tricotavam e incitavam-nos ao consumo.
Sabendo de antemão que ia fazer aquela visita, comprei um gorro colorido para ajudar a comunidade e para servir de recordação da viagem. E também para o usar claro. Assim que o comprei, coloquei-o na cabeça e só o tirei no final do dia. Ao contrário da lã de ovelha, a de alpaca não faz alergia em contacto com a pele. É uma lã muito mais fina, suave e quente.
Quando o grupo parecia já estar satisfeito com as compras efectuadas, Percy decidiu começar a “visita de estudo”. Sob outro telheiro de palha, mais pequeno, existia um forno a lenha e uns tanques em alvenaria que serviam para tingir as lãs. As tintas usadas são todas de origem natural. Umas folhas, umas flores e umas raízes específicas produzem respectivamente o verde, o amarelo e o castanho. O azul, creio, é obtido de um mineral. O vermelho é obtido da cochonilha, um insecto que vive num cacto. Esta cor também é conhecida por E120, usada na indústria alimentar e cosmética.
O cacto onde vive a cochonilha era sagrado para os incas, pois o sumo extraído da polpa era usado em rituais religiosos pelos sacerdotes. Ao beber o sumo, os sacerdotes conseguiam falar com os deuses. A meu ver, isto quer dizer que o sumo do cacto está para os sacerdotes incas, como as tâmaras estão para os eremitas franciscanos que iam para o deserto: são alucinogénicos. Uns viam deuses; outros viam a Virgem Maria. É a prova de que as pessoas só vêm aquilo que querem.
O Percy explicou também à pequena assembleia internacional em seu redor, que a lã leva muito tempo a crescer e por isso as alpacas são tosquiadas apenas uma vez em cada dois anos. Esta característica leva a que seja um produto raro e por consequência, os têxteis vendidos nas lojas são caros. O guia era extremamente pragmático. Continuou advertindo-nos que um pulôver ou casaco de lã de alpaca custa para cima de cem ou cento e cinquenta soles e se alguém quisesse vender-nos algo por menos do que esse valor, é porque estava a tentar intrujar-nos.
Avisada da conjuntura da procura e da oferta da lã de alpaca, decidi explorar o terreiro pois o meu interesse no consumo daquele bem já estava satisfeito com a compra do gorro. Não dava vontade para explorar mais além do terreiro por causa do frio, mas principalmente por causa da chuva. Não tinha comigo o casaco impermeável, porque estava acondicionado no duffle bag. Fui ter com os lamas e os alpacas que se encontravam encolhidos, à chuva, do lado oposto à montra dos lanifícios. O alpaca é um animal habituado ao ser humano e por isso foi fácil aproximar-me para fazer umas festas e tirar umas fotografias. Realmente o pêlo daquele bicho é muito fino e suave. Mesmo à chuva o pêlo permanecia morno, mas se calhar é porque o alpaca é um mamífero de sangue quente, e aquele em questão estava vivo e de saúde. Digo eu…
O efeito diurético do chá de folhas de coca começou a impor-se. Perguntei à Anne, a canadiana mais velha, se tinha visto alguma casa de banho. As mulheres têm uma espécie de sexto sentido para estas coisas e normalmente existe um mútuo apoio que não conhece fronteiras. Apontou-me uma casinha, num dos lados do terreiro. Era uma verdadeira “casinha”: um cubículo de chapa de zinco pintado de azul, com um buraco rectangular no chão coberto por uma tábua de madeira que, por sua vez, tinha um buraco redondo, mais pequeno, mas suficiente para a função a exercer. E mais não é preciso!
A visita à aldeia de Qaqaqollo terminou pouco depois e voltámos a entrar no minibus. O destino seguinte era o Vale Sagrado. Parámos num grande miradouro para observar o famoso vale e saímos aproveitando uma aberta da chuva. O rio Wilcamayu (rio sagrado) serpenteava ao longo do vale, por entre hortas e campos de milho. Actualmente existem pequenos povoados, ao contrário de antigamente, que era uma zona não urbanizada e exclusiva para a monocultura do milho. É um vale grandioso, tanto pela sua dimensão como pela sua beleza. De certa forma, lembra um pouco os vales açorianos, pelos diferentes tons de verde e pelos “retalhos” criados pelas divisões de propriedades, mas numa escala maior.
Outro aguaceiro forçou-nos a entrar mais cedo no minibus. A próxima paragem tinha um valor mais prosaico: almoçar. Estava previsto um almoço volante na Hacienda Allambra, uma quinta com restaurante em tudo idêntica às quintas portuguesas onde se organizam casamentos e outros eventos sociais. Consistia em um edifício central de um só piso, onde estavam a cozinha, as instalações sanitárias, uma loja de artesanato e um pátio coberto. O jardim em redor do edifício estava povoado de palhotas de colmo com conjuntos de mesas sob a sua alçada. Um grupo musical actuava debaixo de uma palhota mais pequena. No pátio coberto estava o buffet, disposto em duas filas de pratos variados. Numa mesa ao fundo, encontravam-se as sobremesas. A comida não era nada de extraordinário e ainda por cima fui obrigada a cingir-me às saladas, porque o resto era à base de carne. Enquanto comíamos, o Percy descreveu um doce tradicional peruano à base de arroz e milho, disponível na supra referida mesa. As minhas papilas gustativas começaram logo a salivar pela sobremesa.
Quando o tema de conversa é Sobremesa, tenho o mau hábito de elevar demasiado as expectativas. Os gulosos são assim e eu não sou excepção. Comi o mais rápido possível as massas e as saladas e dirigi-me à mesa dos doces. Reconheci logo os recipientes descritos pelo Percy: um tacho de barro com uma papa amarela e uma travessa com um líquido espesso roxo. Apesar do jogo de cores ser do meu agrado, fiquei desconfiada, mas como no episódio das “papas”, entrei em negação e servi-me de duas belas porções de cada um dos recipientes, deixando para trás os bolos de chocolate.
Lá fui fugindo à chuva o melhor que pude e sentei-me à mesa com os meus companheiros. O Percy olhava para mim, também em expectativa, mas no seu caso era mais do tipo nacionalista, gastronomicamente falando, claro. Queria que nós gostássemos das sobremesas do seu país. Era natural, todos os povos são assim. Provei como ele sugeriu, um pouco das duas coisas na mesma colher. Os olhos de Percy exigiam-me uma resposta. Engoli e olhei para ele sentindo-me defraudada: isto é arroz doce com geleia de milho! Só lhe faltava a canela. Seria este, outro exemplo da Globalização?
À medida que íamos acabando de comer, fomos buscar chá de folhas de coca e ficámos à conversa, enquanto do lado de lá do perímetro do colmo chovia. O efeito diurético do chá continuava a fazer-se sentir, cada vez com mais premência e tanto antes como depois da refeição tive de ir à casa de banho. Felizmente aqui não disponibilizavam uma “casinha”, mas sim umas instalações sanitárias com águas quentes e frias, papel higiénico de folha dupla, espelhos e secadores de mãos.
Voltámos ao minibus. Agora a viagem demoraria um pouco mais. Íamos passar ao longo do Vale Sagrado, em direcção a Pisac, um sítio arqueológico de grande importância. Foi interessante ir na estrada, a acompanhar o rio Wilcamayu. A perspectiva do Vale era agora térrea, o que facilitava a confirmação de alguns dados que os meus olhos míopes não puderam perceber com mais rigor do cimo do miradouro.
Eu ia à janela, agarrada à minha mochila, com o nariz quase a tocar no vidro. Sentia-me bem. Primeiro, porque tinha a barriga cheia; segundo, porque o ar condicionado estava calibrado para uma temperatura confortável; terceiro, porque a paisagem era muito bonita e eu ainda não acreditava que estava na América do Sul, na eminência de fazer o Camino Inka até Machu Picchu.
Ouvia as vozes das outras pessoas a falarem, tanto as dos meus amigos, como as dos companheiros estrangeiros. Aquela cacofonia de palavras soltas era entrecortada pela Tina Turner e pela Cindy Lauper, escolhas musicais do motorista. Imaginava que nestas viagens turísticas só colocassem aquelas músicas das flautas de pan e outras músicas alegadamente tradicionais, como durante a hora do almoço. Se ao princípio me pareceu que a Cindy e as suas True Colors estavam um bocado deslocadas, deixou-me de parecer estranho logo a seguir. Aquela escolha musical era sinal de que o guia e o motorista eram pessoas avisadas e modernas e que não seguem os dogmas habituais do turismo massificado. Chegada a esta conclusão, continuei a sentir-me feliz e confortável.
Continua
Parte 1 de 2
O Percy veio buscar-nos ao hotel às nove da manhã. Quando ele chegou, eu estava a terminar o meu sumo de papaia. Felizmente acordei com o estômago refeito e com um apetite voraz. Os duffle bags de sete quilos foram lançados para o tejadilho do minibus, onde foram acondicionados por um dos carregadores (porters, para os locais) na estrutura de alumínio.
O dia seria dedicado a visitas a dois sítios arqueológicos, a uma aldeia tradicional e ao famoso Vale Sagrado, não necessariamente por esta ordem. Teríamos de viajar sempre de minibus para conseguir cumprir o itinerário, claro está, mas este facto parece um paradoxo: um grupo de caminheiros, que estava ali para caminhar, mas iria passar um dia inteiro a entrar e a sair dum autocarro, como uma qualquer excursão turística massificada.
O grupo foi entrando com as mochilas, acomodando-se o melhor possível entre bancos estreitos e mochilas pessoais volumosas. As duas amigas canadianas num banco duplo; a tripla americana ao fundo; o casal americano/colombiana mais à frente; coitado do casal britânico, que tinham mais de um metro e noventa e onze de altura cada um, ficavam todos encolhidos, fossem em que bancos fossem. No meu caso, devo admitir que ser da era da miniaturização tem um lado positivo. Não posso conduzir as motas dos meus sonhos, mas naquele autocarro ia a roçar com as pontas dos pés no chão e nem que quisesse, tocava com os joelhos no banco à minha frente.
Em termos de arqueologia, o Peru é um bocado como o Egipto (ou como em certas zonas de Lisboa): dá-se uma cavadela e, além das prováveis minhocas, encontram-se ruínas com mil anos. Neste país encontram-se vestígios de inúmeras civilizações pré-colombianas, tanto a nível de construções em pedra, como de múmias e objectos de uso quotidiano e pessoal. As edificações incas são mais famosas, talvez por serem contemporâneas da chegada dos primeiros espanhóis, talvez por usarem técnicas de construção pouco claras ainda para nós, talvez por parecerem incólumes aos tantos terramotos que se fazem sentir, onde tudo se desmorona menos os palácios e os templos incas. Seja como for, naquele dia íamos visitar dois famosos sítios: Pisac e Ollantaytambo.
Saímos de Cusco, subindo pelas encostas da “tigela” em direcção a uma aldeia chamada Qaqaqollo. Esta aldeia comunitária favorece de um programa de ecoturismo e sustentabilidade patrocinado por aquela empresa de caminhadas. Traduzindo, os habitantes mantém os seus modos de vida ancestrais e a empresa leva até eles os turistas que depois compram produtos manufacturados pelos locais, como é o caso dos lanifícios provenientes das alpacas criadas na aldeia. O dinheiro arrecadado é investido em infra-estruturas, tais como saneamento ou electricidade; em meios educativos para as crianças; e também em produtos não produzidos na aldeia, como é o caso do açúcar ou do calçado.
Pela estrada viam-se alguns minibus idênticos ao nosso, de outras empresas. Muitos grupos paravam à beira da estrada, em pequenos miradouros, para apreciarem a vista de Cusco. Outros grupos, de locais, encontravam-se espaçados pelas estradas. Era um ajuntamento estranho, sentia-se ali alguma tensão, tanto no modo de estar, como nos olhares. Percy explicou que aquelas pessoas estavam ali, porque queriam ver o Primeiro-Ministro que iria visitar a cidade e os arredores com o objectivo de tentar cancelar a Greve Geral Nacional de Trabalhadores programada para o dia seguinte.
Ficámos à coca (e não estou a falar do arbusto dos catorze alcalóides) quando ouvimos falar pela segunda vez da Greve Geral. Afinal, ia ter influência no nosso programa, ou não? Ia condicionar a entrada no Caminho Inka e a Machu Picchu, ou não? É evidente que concordo que as pessoas têm de lutar pelos seus direitos e por melhores condições de vida e trabalho, mas cresceu-me um temor de, por algum motivo exterior a mim, não conseguir cumprir o objectivo a que me propus e pelo qual me esforcei tanto em termos económicos.
O Percy sossegou-nos afirmando que tinha tudo sob controlo; que era um guia experiente e conhecedor; que tinha tudo arranjado para entrarmos amanhã no Parque Nacional; que era a quadringentésima quadragésima nona vez que fazia o Camino Inka até Machu Picchu. Uma vez lá dentro podia haver as greves todas que quisessem organizar, que já não nos impediam de chegar à “cidade perdida”. Uau… Quase quinhentas vezes que fez o caminho inca. Este guia deve acordar e dizer: Oh que aborrecimento, lá vou ter de ir outra vez a Machu Picchu!
Não estávamos a questionar as qualidades profissionais do guia, mas mesmo assim ficámos mais tranquilos. Voltámos a prestar atenção à paisagem que passava pelas janelas. Sem contar com a altitude e o tamanho descomunal das montanhas, lembrava-me um pouco o interior de Portugal. A semelhança baseava-se na presença de eucaliptos. Também aqui plantaram árvores infestantes provenientes da Austrália, com o fito no comércio da pasta de papel.
O minibus ia contornando as encostas íngremes, fazendo curvas apertadas. Deixámos o asfalto e começámos a subir um estradão de terra inclinado. Já ninguém ligava aos eucaliptos; só prestávamos atenção ao som do motor a subir em esforço supremo aqueles caminhos rurais estreitos.
No centro da aldeia esperavam-nos seis mulheres índias vestidas nos seus fatos típicos. Cada uma empunhava utensílios de fiar lã. Era uma demonstração bastante insípida e mal representada, mas para quem não teve uma tia que tricotava camisolas de lã pesadíssimas e que pedia braços alheios para serem os desenroladores das meadas que ela transformava em novelos, poderia achar interessante.
As casas em redor daquele grande terreiro eram feitas em adobe. Construíram-nas na encosta sobranceira ao vale. Muitos tijolos de adobe estavam alinhados no chão a secar, apesar de estar a cair uma chuva miudinha. Por debaixo de um telheiro comprido de palha, os produtos manufacturados em lã de alpaca apresentavam-se expostos por categorias. Peúgas, cachecóis, mantas, cobertores, camisolas, gorros, luvas, pequenas bonecas, sacos e festões com motivos peruanos. Senhoras índias tricotavam e incitavam-nos ao consumo.
Sabendo de antemão que ia fazer aquela visita, comprei um gorro colorido para ajudar a comunidade e para servir de recordação da viagem. E também para o usar claro. Assim que o comprei, coloquei-o na cabeça e só o tirei no final do dia. Ao contrário da lã de ovelha, a de alpaca não faz alergia em contacto com a pele. É uma lã muito mais fina, suave e quente.
Quando o grupo parecia já estar satisfeito com as compras efectuadas, Percy decidiu começar a “visita de estudo”. Sob outro telheiro de palha, mais pequeno, existia um forno a lenha e uns tanques em alvenaria que serviam para tingir as lãs. As tintas usadas são todas de origem natural. Umas folhas, umas flores e umas raízes específicas produzem respectivamente o verde, o amarelo e o castanho. O azul, creio, é obtido de um mineral. O vermelho é obtido da cochonilha, um insecto que vive num cacto. Esta cor também é conhecida por E120, usada na indústria alimentar e cosmética.
O cacto onde vive a cochonilha era sagrado para os incas, pois o sumo extraído da polpa era usado em rituais religiosos pelos sacerdotes. Ao beber o sumo, os sacerdotes conseguiam falar com os deuses. A meu ver, isto quer dizer que o sumo do cacto está para os sacerdotes incas, como as tâmaras estão para os eremitas franciscanos que iam para o deserto: são alucinogénicos. Uns viam deuses; outros viam a Virgem Maria. É a prova de que as pessoas só vêm aquilo que querem.
O Percy explicou também à pequena assembleia internacional em seu redor, que a lã leva muito tempo a crescer e por isso as alpacas são tosquiadas apenas uma vez em cada dois anos. Esta característica leva a que seja um produto raro e por consequência, os têxteis vendidos nas lojas são caros. O guia era extremamente pragmático. Continuou advertindo-nos que um pulôver ou casaco de lã de alpaca custa para cima de cem ou cento e cinquenta soles e se alguém quisesse vender-nos algo por menos do que esse valor, é porque estava a tentar intrujar-nos.
Avisada da conjuntura da procura e da oferta da lã de alpaca, decidi explorar o terreiro pois o meu interesse no consumo daquele bem já estava satisfeito com a compra do gorro. Não dava vontade para explorar mais além do terreiro por causa do frio, mas principalmente por causa da chuva. Não tinha comigo o casaco impermeável, porque estava acondicionado no duffle bag. Fui ter com os lamas e os alpacas que se encontravam encolhidos, à chuva, do lado oposto à montra dos lanifícios. O alpaca é um animal habituado ao ser humano e por isso foi fácil aproximar-me para fazer umas festas e tirar umas fotografias. Realmente o pêlo daquele bicho é muito fino e suave. Mesmo à chuva o pêlo permanecia morno, mas se calhar é porque o alpaca é um mamífero de sangue quente, e aquele em questão estava vivo e de saúde. Digo eu…
O efeito diurético do chá de folhas de coca começou a impor-se. Perguntei à Anne, a canadiana mais velha, se tinha visto alguma casa de banho. As mulheres têm uma espécie de sexto sentido para estas coisas e normalmente existe um mútuo apoio que não conhece fronteiras. Apontou-me uma casinha, num dos lados do terreiro. Era uma verdadeira “casinha”: um cubículo de chapa de zinco pintado de azul, com um buraco rectangular no chão coberto por uma tábua de madeira que, por sua vez, tinha um buraco redondo, mais pequeno, mas suficiente para a função a exercer. E mais não é preciso!
A visita à aldeia de Qaqaqollo terminou pouco depois e voltámos a entrar no minibus. O destino seguinte era o Vale Sagrado. Parámos num grande miradouro para observar o famoso vale e saímos aproveitando uma aberta da chuva. O rio Wilcamayu (rio sagrado) serpenteava ao longo do vale, por entre hortas e campos de milho. Actualmente existem pequenos povoados, ao contrário de antigamente, que era uma zona não urbanizada e exclusiva para a monocultura do milho. É um vale grandioso, tanto pela sua dimensão como pela sua beleza. De certa forma, lembra um pouco os vales açorianos, pelos diferentes tons de verde e pelos “retalhos” criados pelas divisões de propriedades, mas numa escala maior.
Outro aguaceiro forçou-nos a entrar mais cedo no minibus. A próxima paragem tinha um valor mais prosaico: almoçar. Estava previsto um almoço volante na Hacienda Allambra, uma quinta com restaurante em tudo idêntica às quintas portuguesas onde se organizam casamentos e outros eventos sociais. Consistia em um edifício central de um só piso, onde estavam a cozinha, as instalações sanitárias, uma loja de artesanato e um pátio coberto. O jardim em redor do edifício estava povoado de palhotas de colmo com conjuntos de mesas sob a sua alçada. Um grupo musical actuava debaixo de uma palhota mais pequena. No pátio coberto estava o buffet, disposto em duas filas de pratos variados. Numa mesa ao fundo, encontravam-se as sobremesas. A comida não era nada de extraordinário e ainda por cima fui obrigada a cingir-me às saladas, porque o resto era à base de carne. Enquanto comíamos, o Percy descreveu um doce tradicional peruano à base de arroz e milho, disponível na supra referida mesa. As minhas papilas gustativas começaram logo a salivar pela sobremesa.
Quando o tema de conversa é Sobremesa, tenho o mau hábito de elevar demasiado as expectativas. Os gulosos são assim e eu não sou excepção. Comi o mais rápido possível as massas e as saladas e dirigi-me à mesa dos doces. Reconheci logo os recipientes descritos pelo Percy: um tacho de barro com uma papa amarela e uma travessa com um líquido espesso roxo. Apesar do jogo de cores ser do meu agrado, fiquei desconfiada, mas como no episódio das “papas”, entrei em negação e servi-me de duas belas porções de cada um dos recipientes, deixando para trás os bolos de chocolate.
Lá fui fugindo à chuva o melhor que pude e sentei-me à mesa com os meus companheiros. O Percy olhava para mim, também em expectativa, mas no seu caso era mais do tipo nacionalista, gastronomicamente falando, claro. Queria que nós gostássemos das sobremesas do seu país. Era natural, todos os povos são assim. Provei como ele sugeriu, um pouco das duas coisas na mesma colher. Os olhos de Percy exigiam-me uma resposta. Engoli e olhei para ele sentindo-me defraudada: isto é arroz doce com geleia de milho! Só lhe faltava a canela. Seria este, outro exemplo da Globalização?
À medida que íamos acabando de comer, fomos buscar chá de folhas de coca e ficámos à conversa, enquanto do lado de lá do perímetro do colmo chovia. O efeito diurético do chá continuava a fazer-se sentir, cada vez com mais premência e tanto antes como depois da refeição tive de ir à casa de banho. Felizmente aqui não disponibilizavam uma “casinha”, mas sim umas instalações sanitárias com águas quentes e frias, papel higiénico de folha dupla, espelhos e secadores de mãos.
Voltámos ao minibus. Agora a viagem demoraria um pouco mais. Íamos passar ao longo do Vale Sagrado, em direcção a Pisac, um sítio arqueológico de grande importância. Foi interessante ir na estrada, a acompanhar o rio Wilcamayu. A perspectiva do Vale era agora térrea, o que facilitava a confirmação de alguns dados que os meus olhos míopes não puderam perceber com mais rigor do cimo do miradouro.
Eu ia à janela, agarrada à minha mochila, com o nariz quase a tocar no vidro. Sentia-me bem. Primeiro, porque tinha a barriga cheia; segundo, porque o ar condicionado estava calibrado para uma temperatura confortável; terceiro, porque a paisagem era muito bonita e eu ainda não acreditava que estava na América do Sul, na eminência de fazer o Camino Inka até Machu Picchu.
Ouvia as vozes das outras pessoas a falarem, tanto as dos meus amigos, como as dos companheiros estrangeiros. Aquela cacofonia de palavras soltas era entrecortada pela Tina Turner e pela Cindy Lauper, escolhas musicais do motorista. Imaginava que nestas viagens turísticas só colocassem aquelas músicas das flautas de pan e outras músicas alegadamente tradicionais, como durante a hora do almoço. Se ao princípio me pareceu que a Cindy e as suas True Colors estavam um bocado deslocadas, deixou-me de parecer estranho logo a seguir. Aquela escolha musical era sinal de que o guia e o motorista eram pessoas avisadas e modernas e que não seguem os dogmas habituais do turismo massificado. Chegada a esta conclusão, continuei a sentir-me feliz e confortável.
Continua
Segunda-feira, Junho 15, 2009
Uifa: a Energia dos Incas VI
Capítulo 4 - Cusco
parte 2
Já eram quase quatro horas da tarde quando me lembrei que estava com fome. Afinal de contas a última refeição que tive foi o jantar do dia anterior, que foi vomitado no avião, nessa manhã. Resolvemos ir petiscar qualquer coisa num restaurante que tinha um varandim lindíssimo em madeira pintada de azul celeste. Por sorte, conseguimos a mesa que estava no varandim, aberto directamente para a Plaza de Armas e para a catedral. Sentámo-nos, apreciando a vista e a música alegre do restaurante. O senhor entregou-nos o menu e retirou-se. Optando por ler o menu em espanhol, segura dos meus conhecimentos da língua adquiridos no curso que tirei, vi um item que me despertou a atenção: papas freídas. Apesar de ter fome, sentia que o meu estômago ainda não estava a cem por cento e, comparando com as alternativas propostas no menu, achei por bem comer umas papas, um alimento simples e que sustenta, para não ferir mais o meu massacrado estômago.
Perguntei ao empregado no meu melhor castelhano se as papas seriam de milho. Estava a começar a desenvolver uma fantasia sobre uma refeição de qualquer coisa parecida com polenta, que adoro. No, señorita. Las papas son uno tubérculo de acá, muy típico del Perú. Es del tamaño de un puño y se hace así. E fez os gestos de quem descasca a mão fechada. Después se cortan y se frían. Ah bueno, disse eu. ¿Y es posible hervirlas? Es que tengo el estómago revuelto y… Si claro, señorita, las haré hervidas. Son muy buenas para su estómago. Muchas gracias señor.
Contente por ir experimentar um tubérculo típico do Peru, pedimos o resto das coisas e aguardamos. Como é usual no serviço de restauração, vieram primeiro as bebidas. Tínhamos pedido chá de coca! A folha de coca faz parte do dia-a-dia dos peruanos, principalmente dos índios. Aliás, fiquei fascinada com a miríade de soluções gastronómicas para a folha de coca. A lista é praticamente interminável, mas o mais visto era chá “coca matte”, rebuçados de coca, bolachas e barritas de cereais com coca e o mais típico de tudo, o chá de folhas frescas de coca.
Colocaram sobre a mesa as canecas de barro com folhas frescas de coca a boiar na água quente. Rimos todos como crianças traquinas na eminência de mais uma partida. Beber aquele chá tinha, literalmente, um sabor a Proibido. A coca tem aquela áurea malévola, pelo menos para os ocidentais, associada ao consumo e tráfico da cocaína, mas na realidade a folha de coca é uma verdadeira caixa de Pandora para a medicina, devido às suas propriedades terapêuticas e medicinais.
A Erythroxylum coca é um arbusto originário do Peru, de onde se pode utilizar as folhas, os frutos e a casca. As folhas e as cascas contêm catorze alcalóides, treze dos quais encerram proteínas, vitaminas, fibras, cálcio, fósforo e ferro. O décimo quarto alcalóide, infelizmente o mais famoso de todos, é o responsável pela obtenção da cocaína.
As folhas de kuka (coca em Quechua) têm propriedades analgésicas conhecidas desde os incas, que as mascavam, prática corrente hoje em dia, inclusive por mim, durante o famoso “Camino Inka”. A coca previne úlceras e gastrites, reduz o mal-estar causado pela altitude, reduz o cansaço, a fome e a sede (factores importantes quando se caminha muitos quilómetros a altitudes elevadas), melhora o funcionamento do fígado e da vesícula, é diurética (mesmo muito! Eu comprovei às minhas próprias custas), regula a melanina da pele e, ainda por cima, funciona como pasta de dentes, pois previne cáries. Em termos religiosos, a coca é crucial para os incas nas oferendas que fazem à Montanha, ao Sol e à Terra, usando três folhas em leque seguras por três dedos, invocando os três reinos sagrados.
Concluindo, a Erythroxylum coca é bem mais (e bem melhor) do que aquele famigerado alcalóide! Por isso, bebi chá de folhas de coca que nem uma maluca e masquei folhas de coca que nem uma maluca. E vivam os produtos naturais! Isto para dizer que aquela caneca de barro foi o primeiro chá de coca, dos muitos que bebi naquele país.
Passado pouco tempo depois da chegada dos chás, os pratos foram servidos. O famoso tubérculo peruano apresentava-se fatiado e fumegante num pequeno monte. Olhei para aquilo com ar desconfiado, porque me pareciam batatas cozidas. Cheirava a batata cozida e pareciam batatas cozidas cortadas às fatias. Completamente em negação, tive de provar o equivalente a três milímetros cúbicos para retirar qualquer dúvida existente ainda. Sabia a batatas cozidas! Estava eu na expectativa de comer papas de um tubérculo qualquer que não existisse em Portugal e oferecem-me um prato de batatas cozidas, o prato mais desenxabido de toda a culinária, a nível planetário?
Obriguei os meus amigos a provarem (e comprovarem) que o que se encontrava no meu prato eram batatas cozidas. Chamei o empregado de mesa. Perdone, ¿Esto son las papas? Sí señorita. Las papas, uno tubérculo muy típico de acá. Suspirei. Y dime, ¿Cómo se dice papas en España? ¡Patatas! Fiquei a olhar com cara de parva para o empregado de mesa durante uns vinte segundos, em silêncio. Pois, logo vi… Realmente as batatas são originárias do Peru, eu sabia isso. Tal como são também o milho, a quinoa e tantos outros alimentos consumidos na Europa. Mas até aquele momento, nunca me passou pela cabeça que ia comer um prato de batatas cozidas, sem acompanhamento, assim a seco. Estas idiossincrasias da língua espanhola / castelhana tinham de dar para o torto um dia destes…
Enquanto os meus amigos deleitavam-se com sopas de excelente aspecto e aroma, eu preparei-me para iniciar o meu sensaborão prato. Pedi o aceite de oliva e temperei o famoso tubérculo. Afinal, as batatas eram muito saborosas. Nada comparadas com muitas que como em Portugal, que por vezes são farinhentas. Comi com gosto e fiquei satisfeita. Afinal de contas a batata é um alimento muito rico e completo. Dadas as minhas próprias particularidades estomacais, foi a melhor refeição que podia ter tido naquele dia. Depois do almoço tardio, ficámos ali no varandim, a apreciar o Sol e a paisagem e a deixarmos a preguiça tomar conta dos nossos corpos. Bebericávamos o chá de folhas de coca ao ritmo da modorra típica de quem não tem horários nem obrigações.
Em frente à Catedral de Cusco, esvoaçavam duas grandes bandeiras, que pareciam hipnotizar-me. Uma era branca e vermelha, a do Peru. A outra era um enorme arco-íris, com as sete cores desenhadas na horizontal. Pensei espantada que Cusco tinha de ser muito moderna, para se apresentar na sua totalidade como uma cidade gay friendly. Nem mesmo Londres, com toda a sua multi-culturalidade ostenta na Praça de Trafalgar, por exemplo, uma bandeira com o arco-íris, símbolo internacional do movimento homossexual. Não podemos negar que o nicho de mercado para casais gay tem grande potencial, visto ter um bom poder de compra. Mas seria mesmo Cusco uma cidade gay friendy? Partilhei com os meus companheiros estas minhas considerações sobre os cusquenhos, sabendo de antemão o quão católico é o Peru e a quantidade de problemas que tal decisão poderia ter levantado à cidade e à sua "alcaideza".
“Qual gay, qual carapuça! Oh Susana, então não sabes que o arco-íris é a bandeira de Cusco?” O meu devaneio por um planeta mais igualitário e sem preconceitos, mesmo com veios capitalistas, desvaneceu-se naquele instante. A simbologia é antiga, proveniente dos Incas, que consideravam o arco-íris uma manifestação dos deuses e o número sete (juntamente com o número três), um número sagrado.
Antes que a preguiça nos vencesse, resolvemos pagar e sair, para mais um passeio aleatório pelas ruas movimentadas. Ainda tínhamos de preparar a mala, o famoso duffle bag, para o dia seguinte e para a grande caminhada. Existiam muitas boticas, lojas que vendiam sumos de fruta e pequenas mercearias. Estas expunham as famosas “papas”, os diferentes tipos de milho para consumo humano e, pendurados de um gancho por um cordel, uns animais secos, do tamanho de ratos. Que bicho seria aquele? Estavam completamente irreconhecíveis, assim secos e esticados. Lembravam-me vagamente os polvos que a minha avó punha a secar no estendal do quintal, com pauzinhos que esticavam a cabeça e os tentáculos, de modo a apanharem sol por igual. Sabiam muito bem assados na brasa, depois de secos. O bicho fazia impressão. O corpo seco, as patitas curtas e esticadas post mortem, o oco protuberante dos olhos… Não eram coelhos, mas seriam mesmo ratos? Bom, e se fossem? Não podemos criticar tão facilmente os hábitos de outras culturas. Nós não comemos caracóis? Porque é que os peruanos não podem comer ratos?
Na mercearia seguinte voltei a ver os pobres bichos secos à porta. Se os visse vivos, deveria ser capaz de os reconhecer, mas assim era impossível. Entrei e perguntei. Hola, ¿puede decirme el nombre de esto? E apontei para os animais secos. O senhor do lado de lá do balcão de madeira respondeu. Hola señorita. Esos son cuy, muy buenos para comer. E faz o gesto de comer, levando a mão à boca duas vezes. Escaldada com o episódio das "papas", resolvi contra atacar o quanto antes. Dime, y en España, ¿como se dice? Se dice cuy, señorita. Mau! O questionário não estava a correr da maneira prevista. O idoso sorria solícito, aparentemente contente por me estar a ajudar. O problema é que eu continuava com o mesmo nível de conhecimento de antes de ter entrado na mercearia.
Suspirei fundo, resignada em sair da mercearia sem o nome do bicho, até que do interior da loja saiu uma rapariga dos seus doze ou catorze anos. Esperançada direccionei as minhas baterias na sua direcção. Hola, ¿sabes el nombre del cuy en inglés? Si señorita sé, es guinea pig. O velhote sorria abanando a cabeça em sucessivos assentimentos. Guinea pig? Mas isso é porquinho-da-índia! Eles secam porquinhos-da-índia e comem-nos?! Agora entendo o porquê das T-shirts com cartoons de ratos dentro de caldeirões com incas à volta, felizes. Não eram ratos, eram cuy, porquinhos-da-índia!
Finalmente satisfeita com o nível de conhecimento atingido, dirigimo-nos ao hotel para prepararmos os duffle bags. Naquele país, tal como em muitos países pela Europa fora, usam-se muitas expressões americanas. Outro exemplo da globalização? Duffle bag é o nome usual para o saco de desporto vermelho que foi distribuído a cada caminheiro. Tínhamos direito a até sete quilos de pertences, incluindo roupas e produtos de higiene pessoal. Havia inclusive uma balança no átrio do hotel para confirmarmos o peso. Muitas pessoas chegavam lá e tinham de regressar aos quartos para retirar coisas. A azáfama nas escadas do hotel era grande, com as viagens de ida e volta entre quartos e a balança. O peso dos sacos e o “peso” da altitude ainda a se fazer sentir, faziam as escadas ser duplamente penosas. Alguns dos meus futuros companheiros de caminhada que se cruzavam comigo, principalmente o rapaz americano com ar de sem abrigo e a senhora ruiva canadiana perguntavam-me pela minha saúde. Eram todos muito simpáticos e prometia ser um grupo bem-disposto.
Para arrumar o meu duffle bag, tive de me munir de um grande pragmatismo. Desfiz a minha grande mala e coloquei todos os meus pertences, roupas e acessórios de caminhada geometricamente alinhados em cima da cama não usada. A uma conclusão já eu tinha chegado: a mochila nova de quarenta mais dez litros, um modelo especialmente concebido para mulheres, não iria ser necessária. De resto, era uma questão de olhar para tudo aquilo que tinha trazido e ver o que era prioritário e o que era secundário. Para planear uma caminhada, existem três itens fundamentais que não podem ser esquecidos: água, comida e agasalhos (sejam para o frio ou para a chuva). Tudo o resto é acessório.
Com esta regra simples em mente comecei a colocar roupa para quatro dias na outra cama. Gorro, luvas e cachecol foram a seguir. Saco cama era também fundamental. Frasquinhos de sabonete líquido mais champô e os toalhetes húmidos, idem aspas. Máquina fotográfica, mini tripé e pilhas extras também mudaram de cama. Eu sabia que a organização ia fornecer água purificada e refeições vegetarianas, mas como a água purificada sabe mal, decidi levar água engarrafa e barras energéticas. A água engarrafada seria um luxo desnecessário consciente (peso extra), mas as barras energéticas serviriam de lanches e também de refeições, caso a logística da empresa com os pratos vegetarianos falhasse, como é (infelizmente) muito usual.
Facilmente atingi e ultrapassei os sete quilos permitidos. É impressionante a diferença que faz uns gramas em objectos que achamos necessários. Os meus pertences passavam de uma cama para a outra várias vezes, tentando encontrar o Zen para o duffle bag. Prescindi do canivete suíço (não seria necessário abrir latas), do Moleskine (tiraria notas de memória quando regressasse), da barra de chocolate de cozinha (o meu preferido) e do cantil de alumínio (sempre são 150g), mas não prescindi do saco com mangueira para a água, de uma manta polar extra e de um miminho especial que tinha trazido para festejar a chegada a Machu Picchu. Depois de ser necessário pedir ajuda para fechar o saco, desci as escadas para pesar o duffle bag uma última vez. A agulha indicava sete quilos certos. Finalmente o Zen!
Depois de arrumados os sacos, nós os cinco saímos para jantar, desfrutando da última noite em Cusco, antes da partida para Machu Picchu, através do famoso Camino Inka.
Continua
parte 2
Já eram quase quatro horas da tarde quando me lembrei que estava com fome. Afinal de contas a última refeição que tive foi o jantar do dia anterior, que foi vomitado no avião, nessa manhã. Resolvemos ir petiscar qualquer coisa num restaurante que tinha um varandim lindíssimo em madeira pintada de azul celeste. Por sorte, conseguimos a mesa que estava no varandim, aberto directamente para a Plaza de Armas e para a catedral. Sentámo-nos, apreciando a vista e a música alegre do restaurante. O senhor entregou-nos o menu e retirou-se. Optando por ler o menu em espanhol, segura dos meus conhecimentos da língua adquiridos no curso que tirei, vi um item que me despertou a atenção: papas freídas. Apesar de ter fome, sentia que o meu estômago ainda não estava a cem por cento e, comparando com as alternativas propostas no menu, achei por bem comer umas papas, um alimento simples e que sustenta, para não ferir mais o meu massacrado estômago.
Perguntei ao empregado no meu melhor castelhano se as papas seriam de milho. Estava a começar a desenvolver uma fantasia sobre uma refeição de qualquer coisa parecida com polenta, que adoro. No, señorita. Las papas son uno tubérculo de acá, muy típico del Perú. Es del tamaño de un puño y se hace así. E fez os gestos de quem descasca a mão fechada. Después se cortan y se frían. Ah bueno, disse eu. ¿Y es posible hervirlas? Es que tengo el estómago revuelto y… Si claro, señorita, las haré hervidas. Son muy buenas para su estómago. Muchas gracias señor.
Contente por ir experimentar um tubérculo típico do Peru, pedimos o resto das coisas e aguardamos. Como é usual no serviço de restauração, vieram primeiro as bebidas. Tínhamos pedido chá de coca! A folha de coca faz parte do dia-a-dia dos peruanos, principalmente dos índios. Aliás, fiquei fascinada com a miríade de soluções gastronómicas para a folha de coca. A lista é praticamente interminável, mas o mais visto era chá “coca matte”, rebuçados de coca, bolachas e barritas de cereais com coca e o mais típico de tudo, o chá de folhas frescas de coca.
Colocaram sobre a mesa as canecas de barro com folhas frescas de coca a boiar na água quente. Rimos todos como crianças traquinas na eminência de mais uma partida. Beber aquele chá tinha, literalmente, um sabor a Proibido. A coca tem aquela áurea malévola, pelo menos para os ocidentais, associada ao consumo e tráfico da cocaína, mas na realidade a folha de coca é uma verdadeira caixa de Pandora para a medicina, devido às suas propriedades terapêuticas e medicinais.
A Erythroxylum coca é um arbusto originário do Peru, de onde se pode utilizar as folhas, os frutos e a casca. As folhas e as cascas contêm catorze alcalóides, treze dos quais encerram proteínas, vitaminas, fibras, cálcio, fósforo e ferro. O décimo quarto alcalóide, infelizmente o mais famoso de todos, é o responsável pela obtenção da cocaína.
As folhas de kuka (coca em Quechua) têm propriedades analgésicas conhecidas desde os incas, que as mascavam, prática corrente hoje em dia, inclusive por mim, durante o famoso “Camino Inka”. A coca previne úlceras e gastrites, reduz o mal-estar causado pela altitude, reduz o cansaço, a fome e a sede (factores importantes quando se caminha muitos quilómetros a altitudes elevadas), melhora o funcionamento do fígado e da vesícula, é diurética (mesmo muito! Eu comprovei às minhas próprias custas), regula a melanina da pele e, ainda por cima, funciona como pasta de dentes, pois previne cáries. Em termos religiosos, a coca é crucial para os incas nas oferendas que fazem à Montanha, ao Sol e à Terra, usando três folhas em leque seguras por três dedos, invocando os três reinos sagrados.
Concluindo, a Erythroxylum coca é bem mais (e bem melhor) do que aquele famigerado alcalóide! Por isso, bebi chá de folhas de coca que nem uma maluca e masquei folhas de coca que nem uma maluca. E vivam os produtos naturais! Isto para dizer que aquela caneca de barro foi o primeiro chá de coca, dos muitos que bebi naquele país.
Passado pouco tempo depois da chegada dos chás, os pratos foram servidos. O famoso tubérculo peruano apresentava-se fatiado e fumegante num pequeno monte. Olhei para aquilo com ar desconfiado, porque me pareciam batatas cozidas. Cheirava a batata cozida e pareciam batatas cozidas cortadas às fatias. Completamente em negação, tive de provar o equivalente a três milímetros cúbicos para retirar qualquer dúvida existente ainda. Sabia a batatas cozidas! Estava eu na expectativa de comer papas de um tubérculo qualquer que não existisse em Portugal e oferecem-me um prato de batatas cozidas, o prato mais desenxabido de toda a culinária, a nível planetário?
Obriguei os meus amigos a provarem (e comprovarem) que o que se encontrava no meu prato eram batatas cozidas. Chamei o empregado de mesa. Perdone, ¿Esto son las papas? Sí señorita. Las papas, uno tubérculo muy típico de acá. Suspirei. Y dime, ¿Cómo se dice papas en España? ¡Patatas! Fiquei a olhar com cara de parva para o empregado de mesa durante uns vinte segundos, em silêncio. Pois, logo vi… Realmente as batatas são originárias do Peru, eu sabia isso. Tal como são também o milho, a quinoa e tantos outros alimentos consumidos na Europa. Mas até aquele momento, nunca me passou pela cabeça que ia comer um prato de batatas cozidas, sem acompanhamento, assim a seco. Estas idiossincrasias da língua espanhola / castelhana tinham de dar para o torto um dia destes…
Enquanto os meus amigos deleitavam-se com sopas de excelente aspecto e aroma, eu preparei-me para iniciar o meu sensaborão prato. Pedi o aceite de oliva e temperei o famoso tubérculo. Afinal, as batatas eram muito saborosas. Nada comparadas com muitas que como em Portugal, que por vezes são farinhentas. Comi com gosto e fiquei satisfeita. Afinal de contas a batata é um alimento muito rico e completo. Dadas as minhas próprias particularidades estomacais, foi a melhor refeição que podia ter tido naquele dia. Depois do almoço tardio, ficámos ali no varandim, a apreciar o Sol e a paisagem e a deixarmos a preguiça tomar conta dos nossos corpos. Bebericávamos o chá de folhas de coca ao ritmo da modorra típica de quem não tem horários nem obrigações.
Em frente à Catedral de Cusco, esvoaçavam duas grandes bandeiras, que pareciam hipnotizar-me. Uma era branca e vermelha, a do Peru. A outra era um enorme arco-íris, com as sete cores desenhadas na horizontal. Pensei espantada que Cusco tinha de ser muito moderna, para se apresentar na sua totalidade como uma cidade gay friendly. Nem mesmo Londres, com toda a sua multi-culturalidade ostenta na Praça de Trafalgar, por exemplo, uma bandeira com o arco-íris, símbolo internacional do movimento homossexual. Não podemos negar que o nicho de mercado para casais gay tem grande potencial, visto ter um bom poder de compra. Mas seria mesmo Cusco uma cidade gay friendy? Partilhei com os meus companheiros estas minhas considerações sobre os cusquenhos, sabendo de antemão o quão católico é o Peru e a quantidade de problemas que tal decisão poderia ter levantado à cidade e à sua "alcaideza".
“Qual gay, qual carapuça! Oh Susana, então não sabes que o arco-íris é a bandeira de Cusco?” O meu devaneio por um planeta mais igualitário e sem preconceitos, mesmo com veios capitalistas, desvaneceu-se naquele instante. A simbologia é antiga, proveniente dos Incas, que consideravam o arco-íris uma manifestação dos deuses e o número sete (juntamente com o número três), um número sagrado.
Antes que a preguiça nos vencesse, resolvemos pagar e sair, para mais um passeio aleatório pelas ruas movimentadas. Ainda tínhamos de preparar a mala, o famoso duffle bag, para o dia seguinte e para a grande caminhada. Existiam muitas boticas, lojas que vendiam sumos de fruta e pequenas mercearias. Estas expunham as famosas “papas”, os diferentes tipos de milho para consumo humano e, pendurados de um gancho por um cordel, uns animais secos, do tamanho de ratos. Que bicho seria aquele? Estavam completamente irreconhecíveis, assim secos e esticados. Lembravam-me vagamente os polvos que a minha avó punha a secar no estendal do quintal, com pauzinhos que esticavam a cabeça e os tentáculos, de modo a apanharem sol por igual. Sabiam muito bem assados na brasa, depois de secos. O bicho fazia impressão. O corpo seco, as patitas curtas e esticadas post mortem, o oco protuberante dos olhos… Não eram coelhos, mas seriam mesmo ratos? Bom, e se fossem? Não podemos criticar tão facilmente os hábitos de outras culturas. Nós não comemos caracóis? Porque é que os peruanos não podem comer ratos?
Na mercearia seguinte voltei a ver os pobres bichos secos à porta. Se os visse vivos, deveria ser capaz de os reconhecer, mas assim era impossível. Entrei e perguntei. Hola, ¿puede decirme el nombre de esto? E apontei para os animais secos. O senhor do lado de lá do balcão de madeira respondeu. Hola señorita. Esos son cuy, muy buenos para comer. E faz o gesto de comer, levando a mão à boca duas vezes. Escaldada com o episódio das "papas", resolvi contra atacar o quanto antes. Dime, y en España, ¿como se dice? Se dice cuy, señorita. Mau! O questionário não estava a correr da maneira prevista. O idoso sorria solícito, aparentemente contente por me estar a ajudar. O problema é que eu continuava com o mesmo nível de conhecimento de antes de ter entrado na mercearia.
Suspirei fundo, resignada em sair da mercearia sem o nome do bicho, até que do interior da loja saiu uma rapariga dos seus doze ou catorze anos. Esperançada direccionei as minhas baterias na sua direcção. Hola, ¿sabes el nombre del cuy en inglés? Si señorita sé, es guinea pig. O velhote sorria abanando a cabeça em sucessivos assentimentos. Guinea pig? Mas isso é porquinho-da-índia! Eles secam porquinhos-da-índia e comem-nos?! Agora entendo o porquê das T-shirts com cartoons de ratos dentro de caldeirões com incas à volta, felizes. Não eram ratos, eram cuy, porquinhos-da-índia!
Finalmente satisfeita com o nível de conhecimento atingido, dirigimo-nos ao hotel para prepararmos os duffle bags. Naquele país, tal como em muitos países pela Europa fora, usam-se muitas expressões americanas. Outro exemplo da globalização? Duffle bag é o nome usual para o saco de desporto vermelho que foi distribuído a cada caminheiro. Tínhamos direito a até sete quilos de pertences, incluindo roupas e produtos de higiene pessoal. Havia inclusive uma balança no átrio do hotel para confirmarmos o peso. Muitas pessoas chegavam lá e tinham de regressar aos quartos para retirar coisas. A azáfama nas escadas do hotel era grande, com as viagens de ida e volta entre quartos e a balança. O peso dos sacos e o “peso” da altitude ainda a se fazer sentir, faziam as escadas ser duplamente penosas. Alguns dos meus futuros companheiros de caminhada que se cruzavam comigo, principalmente o rapaz americano com ar de sem abrigo e a senhora ruiva canadiana perguntavam-me pela minha saúde. Eram todos muito simpáticos e prometia ser um grupo bem-disposto.
Para arrumar o meu duffle bag, tive de me munir de um grande pragmatismo. Desfiz a minha grande mala e coloquei todos os meus pertences, roupas e acessórios de caminhada geometricamente alinhados em cima da cama não usada. A uma conclusão já eu tinha chegado: a mochila nova de quarenta mais dez litros, um modelo especialmente concebido para mulheres, não iria ser necessária. De resto, era uma questão de olhar para tudo aquilo que tinha trazido e ver o que era prioritário e o que era secundário. Para planear uma caminhada, existem três itens fundamentais que não podem ser esquecidos: água, comida e agasalhos (sejam para o frio ou para a chuva). Tudo o resto é acessório.
Com esta regra simples em mente comecei a colocar roupa para quatro dias na outra cama. Gorro, luvas e cachecol foram a seguir. Saco cama era também fundamental. Frasquinhos de sabonete líquido mais champô e os toalhetes húmidos, idem aspas. Máquina fotográfica, mini tripé e pilhas extras também mudaram de cama. Eu sabia que a organização ia fornecer água purificada e refeições vegetarianas, mas como a água purificada sabe mal, decidi levar água engarrafa e barras energéticas. A água engarrafada seria um luxo desnecessário consciente (peso extra), mas as barras energéticas serviriam de lanches e também de refeições, caso a logística da empresa com os pratos vegetarianos falhasse, como é (infelizmente) muito usual.
Facilmente atingi e ultrapassei os sete quilos permitidos. É impressionante a diferença que faz uns gramas em objectos que achamos necessários. Os meus pertences passavam de uma cama para a outra várias vezes, tentando encontrar o Zen para o duffle bag. Prescindi do canivete suíço (não seria necessário abrir latas), do Moleskine (tiraria notas de memória quando regressasse), da barra de chocolate de cozinha (o meu preferido) e do cantil de alumínio (sempre são 150g), mas não prescindi do saco com mangueira para a água, de uma manta polar extra e de um miminho especial que tinha trazido para festejar a chegada a Machu Picchu. Depois de ser necessário pedir ajuda para fechar o saco, desci as escadas para pesar o duffle bag uma última vez. A agulha indicava sete quilos certos. Finalmente o Zen!
Depois de arrumados os sacos, nós os cinco saímos para jantar, desfrutando da última noite em Cusco, antes da partida para Machu Picchu, através do famoso Camino Inka.
Continua
Terça-feira, Maio 19, 2009
Uifa: a Energia dos Incas V
Capítulo 4 - Cusco
parte 1
Cusco fica rodeada por montanhas por todos os lados, parecendo que estamos dentro de uma tigela de cereais gigante, onde mais de trezentos mil cereais (habitantes) vivem dentro dessa tigela. O nome em Quechua (Qosqo) significa umbigo. A cidade é literalmente o centro, o cerne do antigo império Inca que geograficamente é simbolizado pela Plaza de Armas, local de onde saíam quatro estradas apontadas aos quatro pontos cardeais, que iam em direcção aos quatro cantos desse grande império sul-americano.
Devido à altitude (mais ou menos três mil e quatrocentos metros), custa muito a respirar pois o ar contém menos oxigénio que ao nível do mar. Os tubos de escape dos carros sem catalisadores ou outras preocupações ecológicas pioram a situação. Mas a circunstância de estarmos em tão carismática cidade e de o dia estar luminoso e quente, sempre ajudava a esquecer essa dificuldade.
Até para atravessar a estrada a passo de corrida para evitar um automóvel, cansava-me. Tínhamos de andar devagar, para adaptarmos o nosso organismo à menor quantidade de oxigénio no ar. A rigor, não tínhamos pressa, apenas um desassossego quase infantil para descobrirmos todos os encantos daquela cidade cheia de vida.
No meu entender, a vida activa e alegre de Cusco provém de dois factores principais. O primeiro é a existência da Universidad Nacional de San Antonio Abad del Cusco fundada no século XVII, que chama até si uma população extra e jovem. O segundo factor é o turismo (principalmente eco-turismo e de aventura), que atrai inúmeras pessoas de inúmeras nacionalidades (principalmente jovens mochileiros e caminheiros de todas as idades). Estes dois factores fazem com que Cusco seja uma cidade alegre, divertida e cosmopolita.
Outro factor importante é um comércio dinâmico, à base de lojas de rua e de vendedores ambulantes. Existem vendedores ambulantes a vender pequenos recuerdos, bebidas (principalmente Inka Cola – um refrigerante amarelo fluorescente com sabor a remédio para as baratas e Cusqueña, a cerveja local – loura ou preta), aperitivos (empadas sabe-se lá do quê, maçarocas de milho doce, fatias de ananás artisticamente cortadas, pipocas gigantes de um milho especial e até pequenas refeições de espetadas de carne grelhada ou frita. E tudo isto fora da alçada da ASAE. Que maravilha!
Passeávamos na rua observando tudo e todos. As ruas, as pessoas, os cães vadios, as janelas, as portas, as montras das lojas, as pedras, tudo era novidade; tudo era motivo de interesse. Vimos três rapariguitas Quechua vestidas a rigor, uma com um lama bebé ao colo, as outras duas com cordeiros bebés. Como turistas ingénuos e desatentos que éramos, tirámos uma fotografia às crianças. É evidente que elas depois do clic foram cobrar o “cachet” pela pose artística. Daquela vez caí na armadilha, mas nunca mais tirei fotografias a índios vestidos a rigor, apesar de ter visto vários, tanto adultos como crianças, com lamas engalanados com lãs coloridas.
Depois ter pago os três soles exigidos, continuámos a passear, mas agora com mais atenção às casas. Essas talvez não fossem atrás de nós pedir dinheiro pelas fotografias. A maioria dos edifícios no centro de Cusco é do tempo colonial, edifícios esses que foram construídos sobre edifícios incas religiosos ou governamentais destruídos pelos espanhóis. Por este motivo, é habitual ver duas paredes distintas em quase todas as construções. A metade inferior, a parede inca de pedra, famosa pelas suas junções perfeitas sem argamassa onde não cabe uma lâmina; a metade superior, a parede típica dos países mediterrânicos pintada de branco, mas com varandins em madeira, trabalhos fabulosos de entalhamento. Muitos dos quarteirões têm acesso livre para pátios tipicamente andaluzes, onde há comércio de artesanato e muitos restaurantes.
Surpreendeu-me ver tantas lojas especializadas em materiais de belas-artes, mas depois de saber da existência da universidade e do curso respectivo percebi a razão. Quando passava à porta de uma dessas lojas, passava devagarinho, olhando para os pincéis de pêlo de marta, para as embalagens de lápis e pastéis Caran Dache, para os papéis Canson, para as paletas fabulosas dos óleos Van Gogh… Passava com um misto de nostalgia e ressentimento, lembrando-me do meu décimo segundo ano de escolaridade. Em concreto, lembrava-me daquela minha professora de Desenho que um dia me informou de forma implícita que se continuasse a trabalhar com os meus lápis e pastéis de marca desconhecida (vulgo: mais barata) e não comprasse material da Caran Dache, a minha nota sofreria consequências graves. Nesse dia cheguei a casa muito enervada, e foi entre lágrimas que relatei o acontecimento à minha mãe. Ciente de que a minha média para o acesso ao ensino superior podia baixar bastante, no dia seguinte a minha mãe pegou em mim e fomos as duas até à papelaria do bairro comprar uma caixa de lápis e outra de pastéis da marca preferida da minha professora de Desenho.
De regresso às aulas continuei a desenhar com os mesmos erros de proporcionalidade, mas para a s’tora parecia não haver motivos de preocupação ou correcção; o importante era que agora já usava lápis Caran Dache. A verdade é que não ingressei no ensino superior nesse ano, mas mesmo assim foi uma lição que aprendi com dificuldade. Não por incompreensão da mensagem, mas por a considerar altamente injusta e de uma ignorância atroz. Talvez devido a esse episódio, ou porque na altura foi com dificuldade que se comprou aquele material, usei com tal aprumo e parcimónia os lápis e os pastéis que hoje (mais de quinze anos volvidos) ainda os tenho a todos, uns mais usados que outros é claro, mas todos alinhados nas posições originais e em perfeitas condições de usabilidade.
Estas considerações demoravam meio segundo, o tempo necessário para, em dois passos, ultrapassar a ombreira da loja e continuar no passeio. Outras casas de comércio chamavam a minha atenção, porém, as que mais me espantaram foram as casas de massagens e SPAs. O índice per capita era desmedido! E não estou a falar de “massagens” (que também as havia); estou a falar de massagens, realizadas por pessoas com formação profissional específica em shiatsu, acupunctura ou outras técnicas do género. Em cada esquina há pessoas a distribuir brochuras publicitando massagens e nas fachadas pululam placares pendurados das janelas proclamando preços e durações das ditas. Há inclusive a “Inca Massage” que, pelo que consegui averiguar, utiliza pedras quentes. Existem casas para todos os gostos e bolsas; umas mais sofisticadas e modernas, outras mais rústicas e improvisadas, mas todas com agendas preenchidas.
Voltámos à Plaza de Armas, ao umbigo do Puma. Diz a lenda que Cusco foi inicialmente desenhada com a forma de um puma e que a sua praça maior estava situada no umbigo. Isto porque o puma é um animal sagrado para os incas, o representante do Reino dos Vivos. Os outros dois reinos são o dos Deuses ou Superior, representado pelo Condor e o dos Mortos ou Inferior, representado pela Serpente.
Sentámo-nos num banco de jardim no centro da praça, perto do espelho de água com repuxo, para descansar um pouco. A adaptação à altitude é lenta. Índias passavam com longas tranças negras atadas nas pontas, chapéu enfeitado (item de importância capital) e saias garridas com muitos saiotes. Polícias de luvas brancas controlavam os vendedores ambulantes de forma a não apoquentarem demasiado os turistas. Estes fotografavam-se perto do repuxo ou enquadravam-se a meio da fachada da catedral. Mais do que numa capital europeia, sentia-me ali no centro do mundo. Conseguiam-se ouvir duas ou três línguas diferentes ao mesmo tempo, sem contar com o espanhol e o Quechua. Os turistas vestiam T-shirts humorísticas com emblemas peruanos e gorros típicos feitos com lãs coloridas. Esses emblemas eram basicamente a Inca Kola, a Cusqueña, a folha de coca, o cuy e Machu Picchu mais o seu Camino Inka.
Continua
parte 1
Cusco fica rodeada por montanhas por todos os lados, parecendo que estamos dentro de uma tigela de cereais gigante, onde mais de trezentos mil cereais (habitantes) vivem dentro dessa tigela. O nome em Quechua (Qosqo) significa umbigo. A cidade é literalmente o centro, o cerne do antigo império Inca que geograficamente é simbolizado pela Plaza de Armas, local de onde saíam quatro estradas apontadas aos quatro pontos cardeais, que iam em direcção aos quatro cantos desse grande império sul-americano.
Devido à altitude (mais ou menos três mil e quatrocentos metros), custa muito a respirar pois o ar contém menos oxigénio que ao nível do mar. Os tubos de escape dos carros sem catalisadores ou outras preocupações ecológicas pioram a situação. Mas a circunstância de estarmos em tão carismática cidade e de o dia estar luminoso e quente, sempre ajudava a esquecer essa dificuldade.
Até para atravessar a estrada a passo de corrida para evitar um automóvel, cansava-me. Tínhamos de andar devagar, para adaptarmos o nosso organismo à menor quantidade de oxigénio no ar. A rigor, não tínhamos pressa, apenas um desassossego quase infantil para descobrirmos todos os encantos daquela cidade cheia de vida.
No meu entender, a vida activa e alegre de Cusco provém de dois factores principais. O primeiro é a existência da Universidad Nacional de San Antonio Abad del Cusco fundada no século XVII, que chama até si uma população extra e jovem. O segundo factor é o turismo (principalmente eco-turismo e de aventura), que atrai inúmeras pessoas de inúmeras nacionalidades (principalmente jovens mochileiros e caminheiros de todas as idades). Estes dois factores fazem com que Cusco seja uma cidade alegre, divertida e cosmopolita.
Outro factor importante é um comércio dinâmico, à base de lojas de rua e de vendedores ambulantes. Existem vendedores ambulantes a vender pequenos recuerdos, bebidas (principalmente Inka Cola – um refrigerante amarelo fluorescente com sabor a remédio para as baratas e Cusqueña, a cerveja local – loura ou preta), aperitivos (empadas sabe-se lá do quê, maçarocas de milho doce, fatias de ananás artisticamente cortadas, pipocas gigantes de um milho especial e até pequenas refeições de espetadas de carne grelhada ou frita. E tudo isto fora da alçada da ASAE. Que maravilha!
Passeávamos na rua observando tudo e todos. As ruas, as pessoas, os cães vadios, as janelas, as portas, as montras das lojas, as pedras, tudo era novidade; tudo era motivo de interesse. Vimos três rapariguitas Quechua vestidas a rigor, uma com um lama bebé ao colo, as outras duas com cordeiros bebés. Como turistas ingénuos e desatentos que éramos, tirámos uma fotografia às crianças. É evidente que elas depois do clic foram cobrar o “cachet” pela pose artística. Daquela vez caí na armadilha, mas nunca mais tirei fotografias a índios vestidos a rigor, apesar de ter visto vários, tanto adultos como crianças, com lamas engalanados com lãs coloridas.
Depois ter pago os três soles exigidos, continuámos a passear, mas agora com mais atenção às casas. Essas talvez não fossem atrás de nós pedir dinheiro pelas fotografias. A maioria dos edifícios no centro de Cusco é do tempo colonial, edifícios esses que foram construídos sobre edifícios incas religiosos ou governamentais destruídos pelos espanhóis. Por este motivo, é habitual ver duas paredes distintas em quase todas as construções. A metade inferior, a parede inca de pedra, famosa pelas suas junções perfeitas sem argamassa onde não cabe uma lâmina; a metade superior, a parede típica dos países mediterrânicos pintada de branco, mas com varandins em madeira, trabalhos fabulosos de entalhamento. Muitos dos quarteirões têm acesso livre para pátios tipicamente andaluzes, onde há comércio de artesanato e muitos restaurantes.
Surpreendeu-me ver tantas lojas especializadas em materiais de belas-artes, mas depois de saber da existência da universidade e do curso respectivo percebi a razão. Quando passava à porta de uma dessas lojas, passava devagarinho, olhando para os pincéis de pêlo de marta, para as embalagens de lápis e pastéis Caran Dache, para os papéis Canson, para as paletas fabulosas dos óleos Van Gogh… Passava com um misto de nostalgia e ressentimento, lembrando-me do meu décimo segundo ano de escolaridade. Em concreto, lembrava-me daquela minha professora de Desenho que um dia me informou de forma implícita que se continuasse a trabalhar com os meus lápis e pastéis de marca desconhecida (vulgo: mais barata) e não comprasse material da Caran Dache, a minha nota sofreria consequências graves. Nesse dia cheguei a casa muito enervada, e foi entre lágrimas que relatei o acontecimento à minha mãe. Ciente de que a minha média para o acesso ao ensino superior podia baixar bastante, no dia seguinte a minha mãe pegou em mim e fomos as duas até à papelaria do bairro comprar uma caixa de lápis e outra de pastéis da marca preferida da minha professora de Desenho.
De regresso às aulas continuei a desenhar com os mesmos erros de proporcionalidade, mas para a s’tora parecia não haver motivos de preocupação ou correcção; o importante era que agora já usava lápis Caran Dache. A verdade é que não ingressei no ensino superior nesse ano, mas mesmo assim foi uma lição que aprendi com dificuldade. Não por incompreensão da mensagem, mas por a considerar altamente injusta e de uma ignorância atroz. Talvez devido a esse episódio, ou porque na altura foi com dificuldade que se comprou aquele material, usei com tal aprumo e parcimónia os lápis e os pastéis que hoje (mais de quinze anos volvidos) ainda os tenho a todos, uns mais usados que outros é claro, mas todos alinhados nas posições originais e em perfeitas condições de usabilidade.
Estas considerações demoravam meio segundo, o tempo necessário para, em dois passos, ultrapassar a ombreira da loja e continuar no passeio. Outras casas de comércio chamavam a minha atenção, porém, as que mais me espantaram foram as casas de massagens e SPAs. O índice per capita era desmedido! E não estou a falar de “massagens” (que também as havia); estou a falar de massagens, realizadas por pessoas com formação profissional específica em shiatsu, acupunctura ou outras técnicas do género. Em cada esquina há pessoas a distribuir brochuras publicitando massagens e nas fachadas pululam placares pendurados das janelas proclamando preços e durações das ditas. Há inclusive a “Inca Massage” que, pelo que consegui averiguar, utiliza pedras quentes. Existem casas para todos os gostos e bolsas; umas mais sofisticadas e modernas, outras mais rústicas e improvisadas, mas todas com agendas preenchidas.
Voltámos à Plaza de Armas, ao umbigo do Puma. Diz a lenda que Cusco foi inicialmente desenhada com a forma de um puma e que a sua praça maior estava situada no umbigo. Isto porque o puma é um animal sagrado para os incas, o representante do Reino dos Vivos. Os outros dois reinos são o dos Deuses ou Superior, representado pelo Condor e o dos Mortos ou Inferior, representado pela Serpente.
Sentámo-nos num banco de jardim no centro da praça, perto do espelho de água com repuxo, para descansar um pouco. A adaptação à altitude é lenta. Índias passavam com longas tranças negras atadas nas pontas, chapéu enfeitado (item de importância capital) e saias garridas com muitos saiotes. Polícias de luvas brancas controlavam os vendedores ambulantes de forma a não apoquentarem demasiado os turistas. Estes fotografavam-se perto do repuxo ou enquadravam-se a meio da fachada da catedral. Mais do que numa capital europeia, sentia-me ali no centro do mundo. Conseguiam-se ouvir duas ou três línguas diferentes ao mesmo tempo, sem contar com o espanhol e o Quechua. Os turistas vestiam T-shirts humorísticas com emblemas peruanos e gorros típicos feitos com lãs coloridas. Esses emblemas eram basicamente a Inca Kola, a Cusqueña, a folha de coca, o cuy e Machu Picchu mais o seu Camino Inka.
Continua
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