quarta-feira, dezembro 15, 2010

O monstro da Lagoa de Óbidos

Em Janeiro passado fui acompanhar uns amigos numa caminhada pela areia. Eles iam fazer uma expedição pelo deserto marroquino, tinham de praticar, e decidi acompanhá-los, mesmo não indo eu participar na expedição africana. Seria diferente caminhar pela areia; um esforço distinto, talvez até mais exigente do que caminhar no campo ou na serra, em caminhos de pé posto.

Pediram-me para ser pontual (como se eu não o fosse!) devido às horas da maré baixa. Cheguei quinze minutos mais cedo. Calcei as botas de caminhada, coloquei o cantil no bolso exterior da mochila, confirmei o interior desta, ajustei as alças e fui fazer um chichi no café de praia que iniciava a sua actividade de restauração.

As apresentações foram feitas entre os caminheiros ainda desconhecidos entre si e a marcha iniciou-se sem mais delongas. O areal era extenso e largo; o mar estava revolto; o céu de prata. Um ou outro pescador mantinha-se à espera junto à sua cana de pesca cravada na área húmida.

Não era difícil caminhar precisamente por a areia estar húmida. Pontos de interesse apareciam constantemente. Dunas, vegetação dunar típica, formações rochosas e flora e fauna característica deste tipo de ecossistema. À medida que nos aproximávamos de uma localidade, pessoas surgiam a caminhar, desafiando o céu carregado. Atravessámos a estrada asfaltada e rumámos, novamente pelo areal, em direcção à Lagoa de Óbidos.

Deste lado da estrada, o areal estreitou e surgiram escarpas de rocha que pareciam vindas de Tantooine, substituindo as dunas macias e ondulantes da primeira parte da caminhada. As escarpas pareciam desenhadas a pastel de óleo, em tons de bege e de rosa claros. Subiam vários metros na vertical, lisas. O areal continuava a estreitar, mas perfeitamente espaçoso para irmos todos afastados em contemplação do mar, invernoso e revolto, com laivos prateados, cinza e verdes escuros.

O primeiro obstáculo surgiu na forma de uma zona de rocha informe cheia de limos e pequenas poças de água, só visível durante a maré-baixa. Uns mais depressa, outros mais devagar, fomos todos ultrapassando as rochas escorregadias até regressarmos à areia do outro lado da rocha coberta de limos. Um cão seguia-nos e na sua peugada seguia-lhe o dono. Chamava o cão mas ele fazia-se surdo achando que nós seríamos um programa de fim-de-semana mais interessante que o seu dono. Ladrava, saltava e cabriolava em nosso redor, enquanto o dono gritava por ele, para que regressasse.

O segundo obstáculo foi um pequeno “rio” de escorrências vindo da terra. As rochas tinham sido substituídas por pequenas colinas costeiras, cobertas de vegetação rasteira. O “rio” até era largo e tornava-se profundo quando uma onda subia e avançava pelo areal plano, em direcção à depressão formada pela passagem das escorrências. Era um fluxo e contra fluxo que fazia a transposição do “rio” pouco apetecível. Uns esperaram que a onda regredisse e saltaram em grandes passadas tipo triplo salto. Outros preferiram ir devagar, sem fazer saltar muita água, confirmando que o nível da água era inferior ao cano das botas. A Maria, que levava uma mochila enorme já pronta para a expedição marroquina (pelo menos pelo volume e pelo tamanho), tirou de lá umas galochas cor de laranja lindíssimas e placidamente avançou pelo rio sem medos nem hesitações. Depois de ultrapassado este segundo obstáculo e com as botas ainda relativamente secas por dentro, todos continuámos o nosso caminho pela praia.

As rochas de Tatooine voltaram a impor-se na paisagem. O areal minguou e o mar começava a seguir os caprichos da lua, subindo inexoravelmente em direcção às rochas. Comecei a ficar preocupada pois ao observá-las não via forma de as trepar caso a maré subisse muito rápido. A minha mente começou a imaginar notícias dignas do jornal o Diabo. “Grupo de caminheiros é resgatado pela polícia marítima, presos num nicho de rocha na zona de Peniche.”
“Vários caminheiros cadáveres são encontrados perto das Berlengas. Presume-se que tenham sido ceifados pelo mar junto a Peniche.”
“Tragédia em Peniche: mais de uma dezena de caminheiros e um espadarte são encontrados mortos durante a madrugada com a maré-baixa.”
Partilhei os meus receios com o Zen’umérico que, felizmente para mim, os compartilhava, mas em silêncio. Depois de alguns metros vimos uma zona de rocha mais baixa e de inclinação suave, que seria relativamente fácil escalar caso fosse necessário fazer uma fuga de emergência devido à escalada inexorável da maré-alta.

A caminhada continuou com os elementos do grupo mais próximos uns dos outros. O areal era mais estreito e a areia mais seca e por consequência mais difícil de se caminhar. Seguíamos em silêncio, pois o esforço de andar em areia seca é maior e requer mais concentração. Eu e o Zen’umérico discutíamos a possibilidade de voltarmos para trás e subirmos pela saída de emergência. Achávamos que a maré estava a subir muito depressa e que não teríamos tempo de voltar para trás por muito mais tempo.

A parede de rocha voltou a elevar-se e num pedaço de areal particularmente estreito alongava um cotovelo de rocha até ao mar. Todos parámos junto à rocha pois as ondas que galgavam a areia já nos lambiam os pés. “É seguro, podemos passar!” Diziam a Guia, o Super Herói e o Badocha. Eu e o Zen’umérico olhávamos um para o outro e dizíamos “Não é, não!”. Olhávamos para trás, mas os outros seguiam ainda muito lá atrás para poderem dar uma opinião formada sobre a situação presente. Este sim era um obstáculo a valer.

Os três companheiros tinham passado em segurança, dando uma pequena corrida assim que a onda desceu pela areia. Eu e o Zen’umérico hesitámos; o Badocha, a Guia e o Super Herói gritavam “Passem! Passem!” Nós os dois lá nos decidimos a ir, mas foi no momento errado. Corremos chapinhando na onda que regressava ao mar, contornámos o cotovelo de rocha, começámos a subir a pequena inclinação da língua de areia já do outro lado do cotovelo quando a outra onda nos apanhou.

Num primeiro momento, o sentimento geral foi “Chiça, estou toda molhada!”, e comecei a rir. De mim e do Zen’umérico pois a onda tinha-nos atingido até à cintura. Só via as costas do Zen’umérico um pouco mais acima, mas imaginava o ar franzido dele num misto de desânimo e de brincadeira, perante a sensação da água fria e cheia de espuma. Da minha cintura para baixo só via a espuma da onda que subia até muito perto da parede de rocha. Quando a onda começou o seu trajecto descendente, para o mar, deixei de rir e de achar piada ao facto de ter-me molhado e passei a ter outro tipo de sentimentos e sensações.

A força da onda foi tal que, primeiro, vi o Zen’umérico a cair para a frente e a ficar de gatas, tal era a pressão da água nas nossas pernas. Eu ainda tentei fincar o bastão na areia e colocar-me de lado mas as minhas pernas bambolearam como caniços e a onda derrubou-me caindo de barriga no chão.

Senti, para além da água fria a se infiltrar pelo meu corpo todo, uma coisa pegajosa a se enrolar no meu tornozelo esquerdo. O Zen’umérico estava a três metros de mim, de gatas, no meio de espuma branca, a tentar levantar-se. Quando eu tentei levantar-me, ou pelo menos, pôr-me de gatas, a coisa pegajosa enrolou-se mais no meu tornozelo esquerdo, deu uma volta no tornozelo direito e puxou-me para dentro do mar. Só via espuma branca em meu redor e o Zen’umérico cada vez mais longe de mim.

Não me lembro se gritei. Sentia apenas a força indómita daquela coisa pegajosa a puxar-me para o fundo e um terror petrificante que nunca tinha sentido antes na vida. Começa por um frio duro e estranho no estômago que se vai alastrando para as extremidades do corpo e vai congelando qualquer tipo de reacção motora. Estava ali de braço estendido sem forças para lutar com aquele titã, convencida que tinha chegado o momento de reencarnar. Tornar-me-ia num peixe (estava a ser engolida por um, não estava? Ou seria um polvo gigante com tentáculos super potentes?) ou numa planta? Eu gostava de ser um carvalho, num bosque calmo e solarengo…

Tentei lutar contra o monstro invisível ainda por uns momentos, vendo apenas fiapos da costa por entre a espuma das ondas ou talvez já fosse a saliva do bicho que me queria comer viva e crua. Mas passado pouco tempo, aquela doce sensação de desprendimento começou a invadir-me quando oiço uma voz gritar “Super Herói, olha a Susana!”. Era a Guia a chamar a atenção do Super Herói, para me tentar salvar. A espuma branca continuava a rodear-me, reduzindo o meu campo de visão; a minha adrenalina, ou outro químico natural qualquer, já estava a me anestesiar por completo, pois não tinha forças nem ânimo para lutar mais.

De repente, da bruma branca e fria surge o braço do Super Herói que me agarra o meu braço esquerdo que nem sabia que estava esticado no ar. Deu umas bastonadas com o seu bastão no monstro que me engolia e lá conseguiu levantar-me, puxando-me para terra e para a vida. Assim que me vi viva, e em terra, a reacção foi recomeçar a caminhar, sem dizer nada a ninguém, muito depressa. Caminhava apressadamente com as roupas todas molhadas, com uns cinco quilos de areia a me prenderem os movimentos e os cabelos todos molhados na cara e nos olhos. Era a adrenalina que me fazia andar. O Zen’umérico, também molhado, mas “apenas” até ao peito veio ter comigo e perguntou-me se estava bem. Sem parar de andar desfilei um chorrilho de asneiras. Bem?! Achas que estou bem? Fod*, car*, put* que a par*, *, *, *… “Não havia necessidade nenhuma de ter acontecido isto.” Repetia vezes sem conta. “Devíamos ter saído naquele pedaço de rocha que se podia escalar.” Mais um chorrilho de asneiras, a maioria repetidas, porque o meu vocabulário vernacular e popular não é assim tão extenso. O Zen’umerico estava preocupado comigo e eu tratei-o mal... Sem necessidade nenhuma também, mas foi devido ao choque.

Tremia como varas verdes e não parava de andar. Ainda sentia nos tornozelos aquela sensação pegajosa e no peito o medo indizível. Mantinha a mochila às costas e o bastão no pulso. Alguns elementos do grupo vinham perguntar-me se estava bem, preocupados comigo e sugeriam-me que parasse para tirar aquela roupa molhada. Eu não conseguia parar. Só pensava que se parasse podia entrar em hipotermia. Afinal estávamos em Janeiro. Por isso caminhava como se fosse atrasada para o comboio. Várias pessoas disseram-me o mesmo mas eu continuava sobre o efeito da adrenalina a tremer e sem vontade de parar no areal da praia. O areal era agora outra vez extenso, sem possibilidade mesmo remota, de a maré ou o monstro o subir tanto enquanto ali estivéssemos. Mas mesmo assim, eu só queria sair da praia. Agora que isto tinha acontecido insistia que fossemos pelo pinhal, que ficava além da arriba da praia.

Conseguiram convencer-me a parar numa plataforma rochosa para despir a roupa molhada e cheia de areia. Pois sim, e vestia o quê? Não podia fazer o resto da caminhada em cuecas! Para minha surpresa e júbilo, a Maria tirou da sua grande mochila um par de calças, um par de peúgas, um polar e um impermeável. A guia tinha uma camisola primeira-camada extra. Fiquei boquiaberta. Nunca me lembraria de levar para uma caminhada uma muda de roupa completa. Mas a verdade é que fez falta naquele dia. Para o Zen’umérico e para o Super Herói não havia roupa seca extra. Coitados.

As mulheres juntaram-se em círculo e enxotámos os homens para longe. As roupas custavam a despir devido á areia entranhada e por estarem totalmente ensopadas. Cada uma delas estendia-me uma peça de roupa seca enquanto outra ajudava-me a despir. Aquele gineceu era bastante eficaz. Até a roupa interior estava encharcada e com areia. Só não tirei as cuecas por pudor. Vesti a roupa emprestada, sentei-me no chão, calcei as peúgas secas, calcei sacos de plástico e depois as botas molhadas. O saco com a roupa molhada com areia pesava o mesmo que um garrafão de água (ou de vinho…).

Depois da primeira fase do choque e da adrenalina ter passado, continuava a tremer, mas iniciei outra fase que durou mais tempo que a primeira: a fase da histeria. Ria, gozava comigo própria, dizia piadas sem nexo e isto tudo aos berros. Não me calava por um segundo que fosse. O Tó bem tentava falar comigo mas debatia-se com o meu quase monólogo que não dava tréguas.

A caminhada prosseguiu pelo pinhal, a bom ritmo, fazendo corta mato numa encosta pouco inclinada. Escalámos a encosta, também enlameada, passámos por uma zona de placas rochosas entremeadas de areia molhada tão fina que parecia pudim. O Tó enterrou uma bota e meia perna no pudim cinzento, deixando um icnofóssil perfeito. Fizemos mais um pouco de corta mato e entrámos no trilho, junto a um restaurante de praia.

O trilho no pinhal era de brita fina que permitia um bom ritmo de marcha. O meu ritmo interno continuava na histeria, mas a pouco e pouco ia diminuindo de potência. Continuava a rir, a bracejar e a dizer piadas secas. A guia achava o máximo eu estar tão bem disposta depois daquela experiência. Eu não estava bem-disposta, eu estava histérica e não queria dar parte fraca. Eu estava nervosa e no fundo só precisava era de um abraço forte. Eu estava ainda em choque, e dava-me para aquilo. A minha boca parecia uma matraca. Já me doía a garganta de falar tão alto mas isso não me impedia de falar. Por vezes lembrava-me do Zen’umérico e do Super Herói que continuavam molhados sem terem tido direito a roupa seca. Coitados. O Zen’umérico parava de tempos a tempos para descalçar as botas e torcer as peúgas. O Super Herói, que entrou dentro de água para me salvar, caminhava sem se queixar. Caminhar com botas molhadas pode ser muito desconfortável e doloroso.

Ao fim de algum tempo, a histeria regrediu para níveis mais normais e já conseguia estar alguns momentos calada. A adrenalina também tem um limite… Depois de cerca de uma hora de caminhada conseguimos chegar ao nosso destino, após termos contornado parte da lagoa de Óbidos. Os carros estavam junto a um café de madeira onde iríamos petiscar. Depois de uma aventura destas todos merecíamos um bom lanche, e quente!

Fim

segunda-feira, novembro 15, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XXII

Finalmente, Percy levou-nos à cereja no topo do bolo, isto é, ao centro astronómico com o relógio solar. O centro astronómico não é nada parecido com o Planetário de Lisboa! Fica noutra zona mais alta da cidade e é constituído por uma mesa esculpida em pedra de forma mais ou menos quadrangular com uma crista a meio. Se à primeira vista pode não ter nada de extraordinário, o Percy refutou de forma cabal essa ideia. As arestas da “mesa” estão alinhadas com os pontos cardeais e a “crista” é na realidade um relógio solar. Se esta primeira parte da explicação não impressiona o caminheiro/visitante mais conhecedor, a segunda já consegue. Os mais atentos conseguem perceber que a “mesa” está inclinada. Poderá pensar “ah é coisa velha”, ou então, “pudera, com tantos tremores de terra…”. Nada disso! Segundo o Percy, a “mesa” tem uma inclinação de treze virgula zero nove graus exactos, o que significa que os incas tinham pleno conhecimento da localização de Machu Picchu no hemisfério sul e por consequência da dimensão exacta do nosso Planeta. Pouca coisa? Coitado do Galileu a tentar fugir aos tentáculos da Santa Inquisição e os Incas sem problemas ideológicos, pelo menos em termos de astronomia.


O altar, o último local da visita guiada, consiste numa pedra longa rectangular onde se fariam os alegados sacrifícios, protegida por uma parede alta. Esta parede está rachada devido a um tremor de terra ocorrido já depois da fuga dos seus habitantes. Esta racha está patente nas fotografias tiradas por Hiram Bingham no local mas, segundo estudos recentes, está hoje mais dilatada. Quer dizer que no espaço de pouco mais de cem anos, o planalto moveu-se (as placas tectónicas locais moveram-se) e que é provável que o sítio arqueológico esteja em risco de desabamento parcial.

Fiquei a matutar no assunto. Então a cidade está em risco de desabamento (claro que não vai ser amanhã nem depois) e continuam a permitir a entrada ao local de rebanhos tão monstruosos de turistas? Se o Parque Nacional de Machu Picchu está condicionado a quinhentos caminheiros por dia (não discuto se o número é aceitável ou não), porque não condicionam também a cidade? Machu Picchu é visitada, em média por mil turistas por dia, mas nos meses mais concorridos (Junho e Julho), Machu Picchu pode receber mais de três mil turistas por dia, entre caminheiros e turistas vindos de autocarro ou comboio. Ninguém pensa no impacto que esta gente toda tem nos edifícios e nas outras estruturas arqueológicas?

Protege-se um local que sem sombra de dúvida merece ser protegido, mas depois sofre uma degradação igual ou superior à natural devido ao impacto dos visitantes. E não estou a falar de lixo no chão ou levar uma pedrinha ou outra de recuerdo. O local estava imaculado e não se podia sair dos corredores assinalados.

Gostava que uma universidade americana fizesse um estudo comparativo (já que fazem tantos estudos tão disparatados) sobre o impacto dos pés de todos os visitantes de Machu Picchu num dia. O “tremor de terra” de todos os pés juntos de todos os visitantes diários (sem contar com a trepidação das centenas de autocarros que sobem e descem aquela ziguezagueante estrada todo o santo dia) daria quantos valores na escala de Richter? Gostava mesmo de saber. Mas decidir limitar a entrada de visitantes num local deste género é sempre difícil de tomar. Mesmo sem os tesouros dourados que viviam entre os antigos habitantes, aquela cidade é uma mina de ouro para os cofres do Estado. É difícil prescindir de uma “Cash Cow” deste calibre.

O nosso guia finalizou a sua palestra e deixou-nos sozinhos para podermos percorrer aqueles caminhos ancestrais por nós próprios, chamando-nos a atenção que tínhamos um comboio para apanhar, sem falta.

Segundo os filmes caseiros que vi no you Tube, a montanha por detrás de Machu Picchu, Wayna Picchu é passível de ser escalada; demora cerca de uma hora a subir. Eu, que acalentava a ideia de subir aquela montanha para poder desfrutar de uma perspectiva diferente da Cidade Perdida, tirei logo da ideia a escalada assim que cheguei à Porta do Sol. Ainda tinha espasmos nas pernas, principalmente quando descia degraus. A subir, menos. Mas mesmo que estivesse em óptimas condições físicas, não tinha tempo de o fazer antes da partida do comboio para Cuzco.

Fiquei triste de ter tão pouco tempo para deambular pela cidade. Vagueámos por ali em silêncio, sem saber bem para onde ir ou o que dizer, por entre centenas de pessoas que, como nós, olhavam com espanto para aquelas pedras antigas. Tinha tido a ideia de me sentar algures e meditar naquele local tão emblemático, mas era impossível. A quantidade de gente que ali passava a falar ou a rir ou a tirar fotografias não permitia um ambiente adequado à meditação. Era como querer ouvir o tiquetaque do relógio durante uma sessão da bolsa de Nova Iorque.

Resolvemos sentarmo-nos noutra zona relvada, menos frequentada, com vista para os cumes cobertos de vegetação. Ao fim de três dias de chuva e frio sabia-me muito bem sentir o calor a aquecer-me o rosto, os braços e a barriga. Sim, deitei-me e puxei a t-shirt para cima para apanhar Sol na barriga. Fechei os olhos e suspirei. Estou em Machu Picchu! Nem acredito! Arrotei. O puro malte às sete da manhã não foi de certeza uma boa opção… Talvez um chá de tília tivesse sido melhor escolha. Voltei a sentar-me. Tirei da mochila uma Tupperware minúscula. Com a ajuda do meu canivete, retirei quatro centímetros cúbicos de terra de Machu Picchu e coloquei-os na mini-Tupperware. Seria (mais) uma recordação da viagem. Um bocadinho de terra desta cidade em ruínas, com lamas a pastar em viçosos socalcos.

À hora combinada, saímos da cidade vedada e fomos apanhar o autocarro para Aguas Calientes, onde por sua vez apanharíamos o comboio para Cuzco. Depois de termos passado os torniquetes entrámos num mundo completamente diferente e estranho para mim depois de quatro dias em comunhão com a natureza. O restaurante com esplanada onde as pessoas comiam hambúrgueres, a loja de souvenirs industriais, o hotel, tudo me era estranho e chocante. Como era possível conviverem dois mundos tão díspares lado a lado? A máquina do turismo em massa não brinca em serviço.

Despedimo-nos de Machu Picchu de uma vez por todas já com saudade e entrámos no autocarro que aguardava em ponto morto na paragem. Depois de ficar lotado começámos a descida íngreme e em ziguezague até Aguas Calientes. Esta pequena vila vive literalmente à sombra de Machu Picchu. Vive também do turismo que aquelas ruínas mundialmente famosas provocam. As ruas estreitas e sinuosas estão repletas de pequenos restaurantes de pizzas e sumos naturais de ananás ou papaia e de hotéis ou pensões. Curiosamente, a linha de caminho de ferro divide a vila ao meio, pela rua principal. Podemos correr o risco de estar numa das esplanadas dos restaurantes dessa rua e ter o comboio a pouco mais de um metro do nosso braço. Tem um mercado de rua repleto de “artesanato” e um complexo termal (daí o nome Aguas Calientes), mas não o experimentámos devido ao tempo apertado do horário de saída do comboio.

A viagem de comboio foi já um misto de nostalgia pelo fim da aventura e de alegria pelo desafio conquistado. É uma viagem muito bonita e pudemos ver parte do percurso que tínhamos feito a pé mais o check point charlie do quilómetro oitenta e dois. Chegados à estação, estava de novo o mini bus à nossa espera para nos levar a Cuzco. Foram mais de uma hora e meia por caminhos campestres, com vistas de montanhas nevadas ao longe. Já estava meia a dormir quando chegámos a Cusco. A adrenalina tinha-se esgotado e agora o cérebro só enviava sinais para que me deitasse e dormisse. A altitude de Cusco ajudava ainda mais o cansaço. As pernas pesavam-me toneladas e as pálpebras lembravam-me as portas do Forte Knox. O corpo exigia um duche e descanso. Talvez só o descanso… Não. Era preferível um duche antes do descanso. Não tenho certeza de ter tomado o duche, pois já estava a dormir em pé, mas lembro-me de ter o cabelo húmido e cheirar a champô. Deixei-me cair na cama e adormeci no mesmo instante.

Uau, estive em Machu Picchu!

FIM(nalmente) :-)

segunda-feira, outubro 18, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XXI

Capítulo 11 Machu Picchu
Parte 1 de 2

O nosso guia chamou-nos incitando à descida até à cidade. Lá fomos andando atrás do Percy, devagar, observando a cidade, saboreando-a. Do lado direito em baixo, na famosa estrada em ziguezague dezenas de autocarros cheios de turistas subiam com esforço o caminho até Machu Picchu. De vez em quando olhava para trás, já sem a pressão da mole de gente a querer passar-me à frente. Lá em cima, sob o rectângulo de pedra da Porta do Sol, continuavam a chegar caminheiros. Só se viam as suas silhuetas e os flashes das máquinas fotográficas a dispararem sem interrupção.

Depois do que me pareceu mais de uma hora a descer devido ao mau estado das minhas pernas, chegámos finalmente à Cidade Perdida. Era impressionante a quantidade de gente que àquela hora já ali se encontrava. Deveriam ser pouco antes das sete da manhã, mas parecia dia de feira franca e com saldos. À entrada da cidade havia uma pequena casa onde se tinham de deixar as mochilas e os bastões, pois não era permitido entrar em Machu Picchu carregados. Ao lado, podíamos carimbar os passaportes com o carimbo que nos certificava termos estado na Cidade Perdida. Foi depois de ter carimbado o meu passaporte que voltámos a encontrar o Henrique, a Tara e as duas raparigas canadianas. Eu tinha uma surpresa guardada na mochila para aquele momento, não era tanto pelo reencontro, pois a separação foi uma coisa que não estava programada, mas era mais para comemorar a chegada a Machu Picchu. Tinha pensado numa garrafa de champanhe, mas a logística era, não impossível, mas pouco confortável. Andar com uma garrafa de champanhe, de vidro, pesada, durante quatro dias? Não me parecia a melhor opção. Por isso preferi trazer a minha garrafinha de alumínio, daquelas de forma côncava, para por no bolso das calças, cheia de whisky puro malte escocês, quinze anos. Um mimo. Até o William Wallace se orgulharia de mim.

Nós os cinco juntámo-nos em círculo, e bebemos um gole cada um para comemorarmos o facto de estarmos juntos em Machu Picchu. Praticamente em jejum e depois de um esforço físico brutal como foi aquele, (e antes das sete da manhã!) o whisky caiu-me mal no estômago. É que só podia cair mal! Deu-me vontade de vomitar e de repente tive medo de voltar a ficar com o Soroche ou ter de chamar o Gregório ali mesmo no meio de tanta gente. Continuámos a descer em direcção ao recinto histórico, cada degrau um suplício, uma faca a se espetar em cada perna. Por fim parámos numa zona relvada de um verde tenro e suculento onde o Percy, já com uma camisa lavada, nos fez as explicações iniciais sobre aquele sítio arqueológico.

Entretanto, chegavam cada vez mais pessoas. Aquilo era pior que Fátima no treze de Maio. Eu tentava ouvi-lo com atenção, juro que sim, mas a emoção (e o cansaço) era tal, que prestava mais atenção aos fiapos de nuvens a se elevarem desde o rio até se evaporarem no calor crescente do Sol matinal. Constantemente virava o rosto para o Sol, sedenta de sentir a sua energia. Tinha passado quase três dias sem o ver e só agora reparava na falta que me tinha feito. O Percy ia falando e eu acariciava a relva, olhava para as montanhas em meu redor; pareciam feitas de lã macia e fofa, talvez alpaca. Olhava para o monte em frente à cidade, aquele que lhe deu o nome e que se pode escalar, sendo possível ter outra perspectiva da cidade. Queria que me deixassem sozinha naquele sítio, para poder vaguear nele a meu bel-prazer, para conhecer aquelas pedras uma a uma. Mas não era possível. A quantidade de gente que, às oito horas da manhã, estava ali era impressionante.

Fizemos a visita guiada à cidade com o Percy. Primeiro mostrou-nos a Casa do Guardião. Era uma casa que ficava num ponto elevado da cidade, mas mais abaixo que a Porta do Sol. O procedimento usual dos mensageiros era anunciarem a sua chegada à Porta por meio de um búzio. Provocavam um som grave, que ecoava pelo vale todo e que era respondido pelo Guardião, que se encontrava na Casa. Imagino a reverberação do som dos búzios introduzir-se no meu peito e garganta e não consigo evitar um arrepio. Devia ser um belo espectáculo, especialmente àquela hora da manhã, ou então ao pôr-do-sol.

Passámos depois pelos edifícios recuperados com telhados de colmo que eram os antigos armazéns de cereais, por onde pastavam alguns lamas. Fomos andando, até que o nosso guia chamou-nos a atenção para a excelente obra de engenharia que eram as fontes de água. Todo o sítio arqueológico (e toda a antiga cidade) era percorrida por canais de água e, em locais estratégicos, por fontes de onde se podia beber. Na Europa contemporânea dos anos de ouro de Machu Picchu, eram poucas as capitais que se podiam orgulhar de ter um tal sistema.

Dirigimo-nos até ao Templo do Sol. Este está virado a Sul e as suas janelas correspondem aos locais exactos do nascer do Sol nos Equinócios. Visitámos uma pequena casa que segundo os especialistas, devia pertencer ao sacerdote principal. Havia provas de um piso superior em madeira, para além dos pequenos nichos nas paredes de pedra que deveriam albergar estatuetas ou alfaias religiosas. A construção sólida das paredes, de secção trapezoidal, com juntas perfeitas, sem a mínima abertura entre pedras, lembra a actividade sísmica daquele país. Já em Cusco isso estava bem patente no hotel, com a informação dos locais seguros em caso de terramoto. Sempre que há um terramoto, tudo cai menos os edifícios antigos dos incas. Até as construções dos conquistadores desabam.

Mais uns metros à frente o Percy mostrou-nos o Condor de Pedra. Era uma espécie de pia em forma de condor que acumulava água de uma “canalização”. A água era acumulada nas asas e transbordava pelo bico, seguindo o seu curso natural. Esta pia estava na zona do Templo e como tal teria participado nos rituais mais importantes da cidade.

Visitámos o local onde eram guardados os tesouros e, mais a frente, vimos num nicho a inscrição que confirma que alguém (sem ser peruano) esteve naquela cidade antes de Hiram Bingham. Por tradição é este americano que tem a fama de ter sido o primeiro a chegar a Machu Picchu. Isto é, o primeiro não peruano ou quechua, pois todos os locais sabiam da existência da cidade dita perdida e se não fosse a ajuda de um rapazito que morava nas imediações, nem o próprio Bingham teria dado com ela. É difícil imaginar aquele planalto coberto de floresta tropical e lianas e mato e sei lá mais o quê. Apesar de estar a uma altitude baixa (pelo menos para os padrões andinos; dois mil e quatrocentos metros) e de não haver o problema do mal de altitude, a progressão na selva amazónica e naquele emaranhado de montanhas era muito difícil e seria quase impossível vislumbrar algo parecido com construções humanas à distância.

Finalmente, Percy levou-nos à cereja no topo do bolo, isto é, ao centro astronómico com o relógio solar. O centro astronómico não é nada parecido com o Planetário de Lisboa!

quarta-feira, setembro 15, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XX

Capítulo 10
Parte 2 de 2

Afinal era mesmo a Porta. Os degraus que levavam ao topo tinham espelhos na ordem dos cinquenta a sessenta centímetros de altura; isto é, degraus bem mais altos que os meus joelhos. Infelizmente, as minhas pernas já não me obedeciam, pois estavam com espasmos descontrolados. Subir aqueles degraus como uma pessoa normal era-me de todo impossível. Só havia uma solução. Pus as alças dos bastões nos pulsos e comecei a subir a “parede” de pés e mãos. Contudo, devido aos espasmos nas pernas só conseguia subir um degrau de cada vez, como uma criança que ainda está a aprender a andar. Ouvi vozes a se queixarem e a exigir que andasse mais depressa. Sem me importar com a (boa) educação que a minha mãe me deu, mandei-o para aquele sítio e que, se quisesse, que esperasse. A cidade perdida iria estar ali por muitos e bons anos. Continuei a subir os degraus um a um, à velocidade de que era capaz (talvez até um pouco mais devagar, só para ser mazinha), incólume a pressões psicológicas.

Quando cheguei ao topo, deu-me vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. A minha cabeça era um turbilhão de sentimentos contraditórios. Oh! Olha! Machu Picchu! Cheguei! Cheguei? Estava feliz por ter chegado a Intipunku e por ver finalmente Machu Picchu com os meus próprios olhos. Estava feliz, cansada que nem um gnu depois de ter feito a migração anual e se ter safado de uma meia dúzia de crocodilos ao atravessar o rio Masai e por isso chorava. Seria só por isso? Pelo que conseguia vislumbrar na penumbra dos meus olhos míopes e desfocados e da luz solar envolta em neblina matinal, ainda faltava bastante para chegar a Machu Picchu propriamente dito. Tremia de cansaço, dos espasmos nas pernas e da excitação de estar na Cidade Perdida (para os Europeus) com que sonhei tantos anos. Cada vez que dava um passo, mil alfinetes espetavam-se-me nas coxas e nos joelhos. Mesmo em pé, parada, tremia sem controlo; e não era do frio.

Muita gente ria e tirava fotografias. Outras pessoas simplesmente mantinham-se sentadas a observar a cidade com uma expressão parecida com a beatitude. Não pareciam cansados. Eu estava em pé, sem coragem nem força para mexer um músculo que fosse dos membros inferiores, mas acredito que também fosse uma espécie de hipnotismo, talvez a Uifa, que ali fosse mais potente. Estava no sítio (entre vários) com o qual tinha sonhado e romantizado durante muitos anos, desde os tempos das Misteriosas Cidades de Ouro, com o Esteban, a Zia, o Tao, o Pichu e o Mendoza. Apesar de ter visto centenas de fotografias das ruínas daquela mesma perspectiva, não se pode comparar com o estar lá, in situ. A vivência do e no local não se pode comparar a estar sentada numa cadeira à frente do computador ou no sofá a ver televisão, por muita tecnologia HD ou 3D que a imagem tenha.

Só passados alguns minutos, depois de acreditar que estava mesmo ali e ter recuperado um pouco o fôlego é que me lembrei da máquina fotográfica. Mas nem a melhor máquina conseguia enquadrar, focar e captar os sentimentos e pensamentos que passavam a dez mil à hora ao mesmo tempo que tentava limpar os óculos para melhor focar a cidade inca que se estendia aos meus pés.

O Percy chamou-nos para um local mais afastado, mas com uma perspectiva privilegiada sobre Machu Picchu. Como não conseguia focar a visão, não tinha a certeza se estava a olhar para o sítio certo. O cenário geral era igual a tanta fotografia que já tinha visto na Internet ou em revistas, mas era REAL! Antigos edifícios em pedra sem cobertura e com paredes incompletas, outros edifícios recuperados com telhados de colmo, tudo organizado num planalto estreito com socalcos e por detrás um monte escarpado. Em todo o redor, montanhas de cumes arredondados como dedos espetados cobertos de vegetação verde tropical. Fiapos de nuvens descolavam-se do rio lá muito em baixo e pairavam no ar até se evaporarem por completo. A cidade parecia adormecida, mas a flutuar numa bruma mágica. Era a Avalon dos Incas. Eu própria parecia flutuar.

Iam chegando mais pessoas à Porta do Sol. Todos sorriam beatificamente ante tal visão. Ainda a tremer resolvi tirar uma fotografia a mim própria com Machu Picchu por trás. Fui confirmar se tinha enquadrado bem a fotografia e assustei-me com o que vi. No monitor LCD da máquina vi um gorro de lã de alpaca com óculos de aros vermelhos. O rosto que estava por detrás dos óculos estava magríssimo; era uma caveira coberta com uma pele vermelha baça com riscos de suor até ao queixo. Pisquei os olhos para tentar focar a vista de uma vez por todas e resolvi tirar outra fotografia. Definitivamente tinha enquadrado mal. Aquela não podia ser eu.

Pressionei o botão, ouvi o “clic” e voltei a olhar para o monitor. Aquele gorro às riscas e aqueles aros vermelhos teimavam em surgir na fotografia. Bolas! Convenci-me que a caminhada tinha tido uma influência maior na minha pessoa do que a expectável. Para além da transformação interior que sempre busco, isto é, o aumento do conhecimento, da auto-confiança e do ultrapassar dos limites físicos e psicológicos, desta vez a transformação incluiu um rosto novo. Mas a alteração não tinha sido para melhor! Encostei-me a um muro a tentar recuperar a respiração, a visão e o controlo sobre os meus músculos. Passado um bocado os olhos já estavam a conseguir focar, por isso resolvi tirar mais fotografias à cidade e ao monte, mas sem aquela figura estranha e assustadora de gorro de alpaca e lentes graduadas.

Respirei fundo e suspirei para mim própria: Estou (quase) em Machu Picchu! Consegui fazer os quatro dias de caminhada, ultrapassar os quatro mil metros de altitude e cheguei (num estado de semi-vida) a Machu Picchu… Que aventura! Agora percebo porque no YouTube nunca aparecem filmes ou fotografias do último troço da caminhada. Aparece alguém de noite no acampamento a dizer que amanhã vai levantar-se às 3h45 da manhã (eu levantei-me às 3h30 ah ah ah) para fazer o quarto dia de caminhada e na cena imediatamente a seguir, a mesma cara de dia já nos prados verdejantes, a acariciar um lama ou uma parede inca. Claro, ninguém filma ou tira fotografias durante aquela cavalgada selvagem e sem sentido. Todos chegam a Intipunku e todos conseguem ver Machu Picchu; não entendo o porquê daquela correria.

Tinha-me esquecido que havia mais pessoas em redor, e até que estava com amigos. Estávamos todos parados e hipnotizados a olhar para a paisagem, mas acho que também estavam a tentar recuperar o fôlego.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XIX

Capítulo 10 Intipunku
(parte 1 de 2)

A tenda deu três safanões e disse señorita… A Sunita resmungou e deu meia volta, preparada para dormir mais umas horas. Ainda com o saco cama sobre a cabeça eu ouvia a azáfama em surdina dos carregadores a quererem já desmontar as tendas para se despacharem para Águas Calientes. Toda a equipa de carregadores seguia outro caminho, directamente para aquela vila, sem passar por Machu Picchu. O meu corpo, e principalmente as minhas pernas, gritavam que queriam ficar até de manhã a dormir; o meu cérebro despertou admiravelmente depressa e injectava sem apelo nem agravo adrenalina no organismo para que me levantasse e fosse, finalmente, para Machu Picchu.

Espreguicei-me, procurei os óculos e o frontal e coloquei os primeiros sobre o nariz e o segundo sobre a testa. Procurei no duffle bag a T-shirt lavada que tinha guardado religiosamente para este dia e vesti-a, chegando à conclusão que não tinha servido de nada guardar uma roupa lavada, pois cheirava tanto a suor e a mofo como as outras T-shirts que fui revezando durante aqueles dias. Tecidos tecnológicos anti-transpiração e anti-odores? São todos uma cambada de mentirosos!

Saí para a rua, sentindo as luzes dos frontais que passavam por mim como flechas aguçadas direitas aos meus olhos. Aquela hora era absurda! Tudo aquilo parecia absurdo! Os carregadores passavam a correr para a frente e para trás, tirando as nossas mochilas das tendas, mesmo que ainda não estivessem fechadas. Quase que nos expulsavam das tendas, vestidos ou não vestidos, com ou sem botas calçadas. Via tudo em câmara lenta, fazia tudo em câmara lenta. Os barulhos e as luzes perturbavam-me ainda mais do que o normal. No espaço de dez dias levantei-me duas vezes às 3h30 da manhã. Mas que raio de férias!

Coloquei a mochila (as barras energéticas estavam todas incólumes) e os bastões no monte de mochilas do meu grupo. Dirigi-me para a tenda de campanha onde estavam a servir o pequeno-almoço volante. Comi o tal folar com margarina e duas canecas de chá de folhas de coca. Os meus familiares também comiam em pé grandes fatias de pão com creme de chocolate. Sob aquele oleado verde tropa mantinha-se um ambiente de excitação, de expectativa, de alegria e de uma vontade incontrolável e infantil para dar risadinhas nervosas e saltitar de um pé para o outro.

Falávamos uns com os outros como se fossemos já velhos amigos, com intimidade e respeito mútuos. Tinham sido, ou estavam ainda a ser, quatro dias muito intensos. Tentámos beber mais algum chá de folhas de coca, mas os carregadores enxotaram-nos para fora da tenda e fugiram com a cafeteira de alumínio cheia de mossas. Não tínhamos outra alternativa senão seguir o Percy até ao segundo (e último) portão de controlo, o do acampamento de Winaywayna.

Os outros grupos e carregadores já estavam a andar pelo acampamento que, literalmente, pululava de vida e excitação às quatro horas da madrugada. Àquela hora, o ambiente era mais frenético que numa sexta-feira no Bairro Alto. Apesar do meu frontal ligado, mal conseguia perceber o caminho de terra batida estreito para o tal portão. Meia às apalpadelas, meia aos encontrões, lá fui seguindo a mochila familiar da Joana. Poucos metros percorridos, o trilho alargou, saiu do perímetro do acampamento e desembocou no dito portão de controlo.

O portão de Winaywayna era uma casinhota de madeira com um pequeno balcão sob uma portinhola de vidro, por onde o Percy teria de mostrar a lista dos seus caminheiros, com os nomes, datas de nascimento e números de passaporte, para que o funcionário administrativo do Parque Nacional confrontasse com a sua própria lista. Esse funcionário, que possuía a chave que abria as duas portas de madeira que nos impedia de correr ao desbarato como mulheres loucas em dia de abertura dos saldos até à Cidade Perdida, só chegaria às cinco horas da manhã. Só… Tínhamos uma hora para dormir, meditar, ler, fotografar, falar, desenhar ou o que quer que nos fizesse passar melhor o tempo. Parecíamos cavalos de corrida a resfolgar, na antecipação de uma competição. Passados uns dez minutos, começámos a nos sentar no banco corrido, outros no chão e até o Percy deitou-se ao comprido sobre o balcão. Não tínhamos outro remédio senão acalmar.

Eu olhava para o céu, perscrutando vislumbres de luminosidade. Àquela altura do ano, às cinco da manhã, que é quando as portas se abrem, já é de dia. Como é possível prometerem que se vê o nascer do Sol iluminando de dourado a cidade perdida? Publicidade enganosa, é o que é. Acreditava que mesmo sem a luz dourada do amanhecer, a vista seria soberba.

Ouvimos passos vindos do trilho que descia do acampamento. Um guia também Quechua liderava outro grupo de caminheiros. Ficou muito chateado de se ver em segundo lugar. Ainda às escuras, os frontais pouco iluminavam à distância. Perguntou em inglês who’s your guide? O Percy, ainda deitado no balcão, riu-se e disse em espanhol soy yo, Percy. Ah Percy, ?tenías que ser tú, no? Prosseguiu num quase monólogo em Quechua que, pela entoação, devia estar a lhe chamar alguns nomes menos abonatórios, pois o nosso guia sentou-se vitorioso, a rir, com um brilhozinho nos olhos, de ter conseguido ser mais uma vez o primeiro a liderar um grupo para Machu Picchu.

Eu ainda não conseguia perceber esta fobia em ser o primeiro. Todos iríamos chegar a Machu Picchu, excepto algum caminheiro que tivesse uma síncope devido à expectativa e morresse de ataque de coração a meio caminho. Será que havia um Godzilla inca que precisava de caminheiros de nacionalidade não peruana para aplacar a sua fúria e que o primeiro grupo era sempre poupado?

Às quatro e meia da manhã, o Percy pediu para que nos juntássemos e fez pela última vez o resumo do dia. Family, disse, este é o último dia de caminhada, apenas com oito quilómetros de distância até à Porta do Sol, ou Intipunku. Da Porta do Sol vocês poderão ter a melhor perspectiva sobre Machu Picchu. Como fomos o primeiro grupo a chegar ao portão, temos o direito de chegar primeiro à Porta. Não deixem ninguém passar à vossa frente. Se alguém gritar “carregador” não liguem porque é mentira; os carregadores seguem por outro caminho direitos a Aguas Calientes. Se mesmo assim alguém tentar vos ultrapassar, encostem-se à parede e obriguem a pessoa a fazer a ultrapassagem junto ao precipício. Tenham cuidado, porque o precipício vai direito ao rio, algumas centenas de metros abaixo do trilho. O trilho vai suavemente subir e descer, com poucos degraus, até chegar à Porta do Sol.

Por esta altura eu estava de boca e olhos escancarados de espanto. Aquilo era uma caminhada com pessoas ou uma corrida de cavalos com apostas e tudo? Não deixem ultrapassar!? Encostem-se à parede!? PRECIPÍCIO!? Não queria acreditar. Para terminar, o Percy disse-nos que o melhor era tirarmos os casacos polares agora e passar um pouco de frio, porque cedo iríamos ter calor e não haveria tempo de parar e tirá-los. Os oito quilómetros iriam ser feitos em mais ou menos quarenta minutos. O QUÊ?! Estava perplexa.

Comecei a contar pelos dedos, porque o meu cérebro estava ainda em processo de aquecimento. A minha média é quatro quilómetros e tal por hora, em terreno acidentado, apesar de, se quiser, poder fazer quase cinco quilómetros por hora, se o terreno for mais plano. Isto significa que posso fazer um quilómetro em, mais ou menos, dez a doze minutos.

O que o Percy estava a dizer era que iríamos fazer, quer quiséssemos quer não, um quilómetro em cada cinco minutos. Este tipo de média não é andar, é correr! O que o Percy estava a querer dizer era que a sua “família” iria começar a correr assim que o funcionário abrisse o portão e só iria parar na Porta do Sol. Mas porquê a pressa se entretanto o Sol já se levantou? Não vai dar para ver o nascer do Sol em Intipunku de qualquer das formas.

Alguns tiraram os casacos. Eu tirei o polar e fiquei só com a T-shirt e o casaco impermeável. Sentei-me novamente no banco, pensando que aquela espera toda era parecida às alturas que eu corria ao centro de saúde duas horas antes dos médicos de família chegarem para conseguir uma consulta de urgência, pois se marcasse uma normal demoraria em média dois meses para ser atendida. A verdade é que a média mantém-se, mas o processo para se conseguir uma consulta de urgência está francamente melhorado. Entretanto, o Andrew tirou da sua mochila o livro que andava a ler: Moby Dick. Começou a lê-lo em voz alta para todos os presentes. Era uma boa forma de passar o tempo que faltava para a abertura do portão. Até os outros grupos que entretanto iam chegando, estavam em silêncio ouvindo a história da famosa baleia branca.

Já se via o Sol no céu quando o funcionário administrativo do Parque Nacional de Machu Picchu chegou ao seu posto de trabalho. Fez-se um silêncio reverente. Aquele homem pequenino e muito magro tinha um poder que provavelmente desconhecia a sua total dimensão. Pessoas de todo o planeta vinham ao seu país para poder chegar a Machu Picchu pelo Camino Inka. Havia muitas que chegavam de autocarro, via Aguas Calientes, mas aqueles caminheiros eram diferentes, pois preferiam caminhar durante quatro dias à chuva, ao vento, ao frio e sofrer o Soroche, para poder ter o privilégio da visão da cidade inca ao amanhecer, vista da Porta do Sol.

Entrou para dentro do guiché com centenas de olhos a observá-lo, ao mesmo tempo que os caminheiros começaram a colocar as mochilas e sub-repticiamente começavam a chegar-se mais para a frente, na direcção do portão. Tal e qual como nas manhãs de greve da Carris ou da CP, quando um mar de gente espera em vão que chegue o transporte público alternativo e se começam a acotovelar para garantir um lugar dentro do autocarro ou do comboio.

Percy já tinha a sua folha A4 na mão. Passou-a ao funcionário através da portinhola de vidro, este conferiu os nomes e devolveu a folha. Enquanto esta burocracia tinha lugar, dei por mim encostada ao portão, mesmo junto à maçaneta. Era a primeira! Uau… Sentia-me a tremer de emoção. Sentia as narinas a dilatarem, imaginava-me um cavalo a bater com a pata no chão e a resfolgar. Sacudia as crinas ao vento suave e gélido da manhã, esperando por um sinal qualquer do Percy para abrir o portão de par em par e soltar os músculos retesados, a adrenalina e a excitação e desatar a correr relinchando que nem uma maluquinha até à Porta do Sol.

Depois do Percy ter dito OK a multidão que já se tinha acumulado atrás da casinhota começou a pressionar, querendo todos passar à frente. A sensação de uma massa informe a empurrar-me para a frente foi muito desconfortável, como uma multidão descontrolada e a adrenalina que sentia à coisa de dez segundos foi trocada por um medo pegajoso. Apesar de tudo, tive de começar a andar a trote. Não era possível olhar para o lado, quanto mais para trás. Sentia dezenas de olhos cravados nos meus ombros, como setas invejosas. O trilho pareceu-me bastante agradável e suave, tal como uma vereda por uma colina. Seguia suavemente em pequenas ondulações, com ocasionais degraus de pedra, mas com alturas perfeitamente aceitáveis até mesmo para um sénior com limitações de locomoção.

Atrás de mim só ouvia passos de botas de caminhadas, calças e casacos a raspar e o tilintar ocasional de um mosquetão ou de um cantil. Oh que raiva, esqueci-me de tirar o meu cantil de dentro da mochila. Agora é impossível parar, tirar a mochila e procurar o cantil no meio das barras energéticas. Estes pensamentos duravam um micro segundo. O trote continuava, pondo os bastões continuamente à minha frente, para me auxiliar na subida ou descida de dois ou três degraus irrepreensivelmente inclusivos. Ah, ah, ah. Sou a primeira! Olhei ligeiramente para a minha direita, para o precipício onde a floresta tropical refulgia magnificamente naquela luz diáfana das cinco horas da manhã. Que pena ter de correr, é a melhor paisagem dos quatro dias. A floresta era luxuriante, aquela luz era tão bela que dava vontade de chorar e acredito que deveriam estar mil pássaros a cantar, mas eu só ouvia as botas a baterem no chão e o meu coração a querer saltar pela boca a qualquer momento.

Ouvi a voz do Pedro a dizer que aquilo era um absurdo, que já não queria saber se era o primeiro a chegar. Estava farto de correr. A Joana (ou a Sunita, não me recordo) grunhiu algo entre dentes. Eu, possuída de certeza por algum espírito da floresta, continuava a trotar. Estava completamente concentrada no trilho, unificada com o caminho. Só sentia os meus músculos gritarem de dor sempre que punha um pé à frente do outro. Entretanto, a Kate passou-me à frente. Maldita americana! Ao contrário de me deixar abater, serviu como um incentivo. Deixa-a ser a lebre, eu vou correr atrás de ti! Ah-ah-ah!

Apressei o passo. Quando apareciam degraus passei a saltá-los. Os meus joelhos gritavam de dor, juntamente com os músculos. Não lhes dei ouvidos. Bufei e continuei a correr. O Pedro atrás de mim já se lamuriava da correria. Iria a um ritmo mais humano. A Joana disse qualquer coisa, mas não percebi o quê. Depois de ter saltado quatro degraus compridos senti uma quebra. Pisquei os olhos e não consegui focar a visão. Olhei rapidamente para trás e vi montes de gente agarrada aos bastões como se fossem o Graal, inclinados para a frente, a correr na minha direcção. Assustei-me. Foi um momento de hesitação que permitiu a três dos meus companheiros passarem à minha frente. De repente, o meu esófago deu um nó sobre si próprio. Daqueles que só os marinheiros sabem dar. Senti uma vontade urgente, inadiável, improtelável de beber água. O meu corpo estava a dar as últimas. Apesar de ter jantado na noite anterior, tinha passado três dias sem comer e praticamente sem beber. Estava subalimentada e desidratada. Aquela corrida louca estava a ser um despautério total, para não dizer que me estava a consumir as últimas reservas de energia que tinha.

Continuava a correr, sentindo as outras pessoas cada vez mais próximas de mim. Eu não me importava que os meus companheiros passassem à frente. Só não queria que outras pessoas de outros grupos fizessem o mesmo. Apesar de continuar naquela corrida insana, pensava que tudo aquilo era desnecessário. Que corrida tão estúpida! Vamos todos chegar a Machu Picchu, para quê isto tudo? A paisagem era linda e eu não tinha tempo para tirar fotografias.

Diminui o ritmo. Água, balbuciei. Tinha os lábios gretados e a boca completamente seca; parecia cortiça. Tremia toda e a cada passo sentia espasmos nos músculos das pernas. Água, repeti mais alto. A Joana disse que não tinha à mão. A Sunita disse que tinha dentro da mochila. Entretanto vi um mar de gente (deviam ser sete ou oito) a nos ultrapassar. Continuava a andar, completamente esgotada. O John passou por mim a uma velocidade incrível. Com pernas de metro e meio também eu, pensei invejosa. Alguém lhe pediu o cantil e passou-o para mim. Entre duas tonturas e um espasmo peguei no cantil e gemi um thanks. Quando parei dois segundos para beber água, passaram mais uma dúzia de caminheiros por mim.

Vi o Pedro de relance atrás de mim, apesar da Joana e da Sunita já terem ido à frente. Prometi a mim mesma que mais ninguém me passaria à frente, fosse do meu grupo ou não. Mas que raios! Agarrei-me aos punhos dos bastões e voltei a aumentar a velocidade. Contudo, não conseguia manter o ritmo por muito tempo. Estava fisicamente no limite das minhas capacidades. As pernas bamboleavam sem as conseguir controlar. Nem sei como é que o meu cérebro continuava a ligar sinapses e não fazia simplesmente “control+alt+delete”. Via tudo desfocado, tremia e deixei de ouvir. Os meus tímpanos fecharam para balanço. Depois de uma curva linda com lianas e de um cenário verde luxuriante digno de John Weismuller, apareceu uma escadaria. A rigor, aquilo não era uma escadaria; era uma parede de escalada. O Percy não tinha avisado que antes da Porta do Sol havia uma parede de escalada.

(continua)

quarta-feira, julho 14, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XVIII

Deixei que os meus amigos acabassem de comer os frutos secos da minha Tupperware, bebi o resto do refresco e saí para a rua. Os carregadores corriam de um lado para o outro numa azáfama incompreensível, preparando o jantar e finalizando a montagem das tendas dos caminheiros. O ar fresco da rua era-me muito mais agradável. As pessoas passavam de um lado para o outro. Umas que acabavam de chegar, outras que iam de toalha na mão. Pessoas de muitas nacionalidades, de todas as idades, com um único objectivo: chegar a Machu Picchu pelo caminho sagrado dos incas! Olhando para aquelas caras, para aquele vai e vem, para o amontoado de mochilas e bastões, questionei-me sobre o sagrado do caminho. Será que aqueles caminheiros pensavam nisso? Será que se lembravam que estavam a percorrer um caminho que era feito pelas pessoas mais reverentes daquela civilização antiga? Será que sabiam que só um punhado de privilegiados é que conheciam a cidade inca? Desconfiava que aquele caminho, já tão turístico e explorado, tinha-se tornado um troféu, um galhardete, algo que alguém podia puxar dos galões e impressionar os amigos: eu já fiz o caminho inca! O Percy bem que tentou incutir alguns valores menos turísticos ou competitivos, pedindo-nos a tal unicidade com a Natureza, mas acho que não obteve grandes resultados. Todos os meus “familiares” queriam chegar o mais depressa possível ao fim de cada etapa. Esgotar os quilómetros em cada passada. Não importava o caminho, só a sua finalização.

Ao fim de três dias praticamente em jejum, jantei com a minha “família”, no último jantar de grupo. A equipa da cozinha tinha se esmerado ao máximo. Os guardanapos estavam dobrados em origami e os talheres equilibrados como contorcionistas. Tudo tinha um aspecto delicioso e já sem os efeitos do Soroche, comi com satisfação. A sobremesa foi servida já na expectativa de mais histórias contadas pelo Percy. Parecíamos crianças em redor do avô, esperando por uma história que nos levasse a sonhar. Todos segurávamos o copo de plástico bege com as folhas de coca a boiarem na água fumegante e aguardávamos que o Percy colocasse o açúcar no seu, devagar, como que a criar de propósito um clima de expectativa. Havia sempre uma pausa, um silêncio, onde doze pares de olhos fixavam o par de olhos pretos brilhantes daquele índio Quechua, ex-engenheiro de minas que se tornou guia do ícone do seu país, o único local que sobreviveu à destruição voraz que os espanhóis infligiram aos seus ancestrais.

Percy pigarreou, tentando procurar as melhores palavras para contar uma história. Devia ter imensas. A sua profissão permitia-lhe conhecer inúmeras pessoas e presenciar vários acontecimentos dignos de serem relatados. A história do médico alemão não foi bem uma história, foi mais uma anedota, porque parece que o coitado sofria de insónias e não queria passar as noites sozinho. Por isso ia ter à tenda do Percy, acordava-o e queria que ele conversasse com ele até adormecer.

A história do administrador brasileiro foi mais interessante. Era um homem rico, com um cargo alto numa empresa qualquer e habituado a chefiar. Tinha contratado o Percy para, sozinho, fazer o Camino Inka. Era um homem macambúzio, calado e triste. O nosso guia ficou preocupado, porque imaginou que seria difícil passar quatro dias sozinho com um homem que não lhe dirigia a palavra, que parecia triste e deprimido. O Percy é uma pessoa muito comunicativa e foi fácil compreender a sua angústia.

Durante o primeiro jantar, Percy perguntou ao brasileiro o que ele fazia, se tinha família, essas coisas normais que se costumam perguntar para fazer conversa. Surpreendentemente, o homem desfiou o rosário da sua vida em frente a Percy. Que era administrador de topo numa empresa, que era bem sucedido profissionalmente, que economicamente estava muito confortável, que tinha mulher e uma filha, mas que apesar de tudo era infeliz. Infeliz no trabalho porque se sentia só, pois todos olhavam-no com inveja e medo; infeliz em casa, pois sentia que não era amado nem pela mulher nem pela filha que, segundo ele, ambas só queriam o seu dinheiro para o ir gastar em roupa e sapatos.

Tinha saído do país sem dizer nada a ninguém, tinha ido para o Peru em busca de paz de espírito e de algum tipo de equilíbrio mental que o fizesse aguentar a sua vida quotidiana. O Percy disse logo que era melhor ele telefonar pelo menos para casa, pois a sua mulher devia estar muito preocupada sem saber dele. Não, não queria telefonar. De certeza que a mulher nem tinha dado conta da sua ausência prolongada. Desde que tivesse o cartão de crédito, não se preocuparia. O Percy não concordava com ele, mas também não insistiu.

A caminhada prosseguiu no dia seguinte, com um Percy chateado por ir calado sem poder conversar com o seu único cliente, que mantinha o semblante carrancudo. Novamente ao jantar e depois de esvaziarem uma garrafa de vinho trazida pelo brasileiro, Percy tentou outra vez convencê-lo a telefonar à mulher. Desta vez o administrador de topo pareceu-lhe mais aberto à sugestão, afirmando que o faria, mas não já. No dia seguinte, à noite, lá telefonou à mulher pelo telemóvel e teve uma surpresa. A mulher estava preocupadíssima com ele; ela e a filha não dormiam há três dias sem notícias dele. Segundo o Percy, o brasileiro ficou tão emocionado com a reacção da mulher que chorou como um bebé. A esposa do administrador repetia que o amava, que estava morta de preocupação por ele, que a filha de ambos estava muito triste, que as duas queriam que ele voltasse o mais depressa para casa, porque estavam cheias de saudades dele.

O homem chorava compulsivamente, repetindo que também amava a mulher e a filha, que se sentia muito sozinho e que pensava que a mulher não o amava. Pelos vistos, o diálogo ao telemóvel foi digno de uma telenovela não brasileira, mas sim mexicana, com o casal a re-prometer amor eterno, misturado com lágrimas e ranho. Depois de desligar, o brasileiro abraçou-se ao Percy, agradecendo-lhe por “tudo o que fez por mim”. O nosso guia não tinha palavras. Ele não tinha feito nada! Só sugerido que telefonasse à mulher.

Com a emoção, prometeu ao Percy que lhe ofereceria uma dúzia daquelas garrafas de vinho tinto excelentes. O nosso guia ficou contente, pois tinha apreciado bastante o vinho, mas pensou que aquela promessa estava a ser feita no calor da emoção e que facilmente o brasileiro iria esquecê-la. A caminhada chegou ao fim, o brasileiro voltou a agradecer ao Percy por o ter convencido a telefonar para casa e a prometer que lhe enviaria as garrafas de vinho. Percy deu-lhe a morada, mas sem grande convicção de que iria receber o presente.

Passou um mês, dois meses, quatro e nada. Percy já nem pensava nas excelentes garrafas de vinho tinto. Em Dezembro, recebeu uma caixa com meia dúzia de garrafas reluzentes do vinho que tanto apreciou seis meses antes, durante aquela caminhada emblemática. Afinal o brasileiro não se tinha esquecido. Durante os seis meses seguintes, recebeu uma garrafa pelo correio, vinda do Brasil, garrafa que abria como se de um ritual se tratasse e a apreciava com bonomia.

Bebendo o último golo do seu chá de folhas de coca, com um sorriso no canto da boca, o Percy parecia que continuava a saborear aquele vinho. Suspirámos fundo, felizes, com a barriga cheia de histórias. Estávamos já todos com sono, preparados para ir procurar a tenda que tinha o nosso duffle bag.

Antes de nos levantarmos o Percy pediu-nos que, se queríamos ser os primeiros no portão de controlo, para sermos os primeiros a chegar a Machu Picchu, sugeria que nos levantássemos às 3h45 para chegarmos ao portão pelas 4h30, que era a hora a que todos os guias chegavam com os seus caminheiros. Entreolhámo-nos tentando perceber o que os outros caminheiros pensavam do assunto.

Levantar às 3h45 da manhã? Que ideia! Vamos levantar-nos mas é às 3h30! Bolas, pensei eu. Um diz mata o outro diz esfola. Uma pessoa tem mesmo de gostar muito disto para não se importar de se levantar de madrugada para esperar mais de uma hora para passar num portão que dá acesso a um caminho, para ser o primeiro a ver umas pedras no cimo de um monte. Mal sabia eu o que me esperava…

Continua

sexta-feira, junho 18, 2010

Uifa: a Energia dos Incas XVII

A pedra que apanhámos no rio que passa no acampamento, pertenceu outrora à montanha. Com o passar dos anos, a montanha vai se erodindo, desfazendo em rochas e aquela pedra que agora está na nossa mão foi rebolando, também se erodindo, até chegar ao rio e ser alisada pela água. Para completar o ciclo, nós teríamos de entregá-la de novo à montanha, ao mesmo tempo que fazíamos uma prece na primeira pessoa do singular. Isto é, faríamos um pedido para nós próprios. Percy explicou que este acto não era de todo egoísta. Este era o momento de pedirmos algo para nós, porque para podermos ajudar os outros temos de nos sentir bem connosco próprios.

Assentimos com a cabeça e convicto de ter toda a nossa atenção contou a história de um homem que fez esta caminhada com a fotografia do seu pai pendurada ao pescoço. Nos locais mais emblemáticos pegava na fotografia e dizia: “olha pai, que paisagem tão deslumbrante” ou então “Pai, está ali o acampamento junto às ruínas. Estamos quase a chegar.” Percy disse-nos que achava aqueles propósitos um bocados estranhos, mas que não teceu nenhum comentário. Cada um tem as suas particularidades, uns mais do que outros com certeza, mas não temos o direito de criticar se não interferir na liberdade das outras pessoas.

Desde o primeiro dia de caminhada, perguntava de vez em quando pelo local do ritual da pedra e o Percy respondia que ainda faltava algum tempo. Quando finalmente chegaram ao Runkuraqay High Pass, naquele mesmo local onde agora nós estávamos, o nosso guia Quechua explicou o significado do ritual e reparou que o homem apoiou-se numa rocha e chorou em silêncio. Assim que se recompôs um pouco, tirou de dentro da mochila uma pedra oval, bastante polida e deixou-a na palma da mão como que a pesá-la ou a observá-la. Sem que ninguém lhe tivesse pedido, o homem explicou ao guia que o seu pai (o da fotografia ao seu pescoço) tinha feito aquela caminhada há alguns anos guiado pelo próprio Percy.

Ao contrário das outras pessoas do seu grupo, o senhor não tinha devolvido a pedra à montanha e tinha-a levado para casa como recordação da viagem. Algum tempo depois arrependeu-se de ter quebrado o ciclo de vida da montanha, mas quando decidiu que iria fazer novamente a caminhada para devolver a pedra, foi informado pelo seu médico que tinha um cancro muito avançado. Já às portas da morte, muito arrependido de não ter podido devolver a pedra, pediu ao filho que fizesse o Camino Inka explicitamente com o Percy para lhe pedir desculpas e que devolvesse a pedra de novo à montanha em lugar dele, como deveria ter sido feito.

O nosso guia ficou sem palavras, emocionado. Agora percebia a insistência daquele homem de querer fazer o percurso com ele e não com outro guia. O homem olhou para a pedra demoradamente na sua mão e de forma reverencial e emotiva colocou-a sobre a rocha onde se tinha apoiado, fechando finalmente o ciclo. Depois levantou-se, ajeitou a mochila nas costas e caminhou sem mais olhar para a clareira na portela. Tinha cumprido o pedido do seu falecido pai.

Por esta altura, já nós fungávamos com timidez da história emocional que o Percy acabava de contar. Alguns de nós limparam furtivamente uma lágrima mais escorregadia. Não sei se aquela história é verdade (também não há razão para que seja inventada), mas o facto é que o Percy tinha muito jeito para contá-las. Depois de nos ter dado um momento de silêncio, informou-nos que agora era a altura certa de cada um ir para um sítio sossegado, fazer a nossa prece e devolver a pedra à montanha.

Cada um foi para onde achou melhor. Uns escalaram as rochas, outros preferiram um recanto mais abrigado. Eu, que tinha as pernas feitas num oito e não queria fazer esforços extras, preferi ficar na clareira, numa reentrância da rocha e fazer a minha prece. Repeti-a três vezes como o Percy disse e fiquei sem saber se deixaria cair a pedra ou se a atiraria. Qual hipótese teria mais repercussões? Deixar cair pareceu-me ser muito passivo e com poucas hipóteses de fazer efeito. Atirar poderia ser mais activo, mas também violento. Atirei-a baixinho na direcção de um tufo de ervas, com receio de atingir algum caminheiro se a atirasse com força, para longe. Porém, arrependi-me de ter trazido uma pedra tão pequenina; achei que uma maior e mais pesada poderia fazer mais efeito sobre o meu pedido à montanha. Aquela era uma pedrita tão insignificante… Contudo, estava fora de questão voltar a trás para ir buscar outra e o ritual estava cumprido, para o bem ou para o mal.

Voltámo-nos a juntar, uns mais compenetrados que outros, mas todos parecíamos mais aliviados, com um sorriso beatífico nos lábios. Com o Percy a liderar o grupo, reatámos a caminhada. Agora é que seria sempre a descer. Com a progressão da descida, o tempo melhorou. Deixou de chover, passou a ficar mais calor e até despimos os impermeáveis. Já não havia dificuldades em respirar. A Sunita voltou a tagarelar como de costume, a Joana voltou a rir como de costume e o Pedro voltou a dizer piadas brejeiras como de costume. Um facto interessante é que parecia que as piadas desciam de nível proporcionalmente à altitude. O mais interessante ainda é que, mesmo brejeiras e sem piada, nós as três riamos delas.

Agora que me sentia bem outra vez, queria finalmente tentar ser una com a Natureza sul-americana, mais concretamente com a alpina dos Andes. Porém, não conseguia. Os meus amigos não paravam de falar, de vez em quando havia uns rapazes adolescentes a passar por nós a correr e a gritar uns com os outros ou então era um carregador que passava com um transístor debaixo do braço a ouvir música ou as notícias das consequências da Greve Geral Nacional. Primeiro, reinava o silêncio da floresta; de repente, acontecia como no início do Starman, do John Carpenter com a Voyager II: ouvia-se um ruído vindo de longe, aumentava de volume, em vez da sonda passava um carregador a (literalmente) correr por nós com uma mochila descomunal e com o rádio debaixo do braço a debitar decibéis, o som voltava a diminuir e o silêncio impunha-se novamente. Quando isto acontecia, tínhamos de nos encostar a um lado, porque senão éramos abalroados pelo pobre carregador e os seus carregos que desciam as escadas dois degraus de cada vez.

Naquela paisagem luxuriante, de floresta tropical, de calor húmido e de constantes arco-íris a aparecem na curva da montanha, era impossível concentrar-me e unificar-me com os elementos naturais. Ainda tentei estugar o passo e distanciar-me dos meus amigos, mas as pernas doridas e o esforço extra nos joelhos devido à descida constante não mo permitiram. Num momento de frustração, ainda mandei a Sunita calar-se, o que me arrependi instantaneamente, pois fui rude e era como pedir ao Sol que não fosse quente. Pedi-lhe desculpa e lá fui descendo resignada, sem conseguir concentrar-me.

Tinha de estar atenta ao precipício e aos degraus. Apesar de não conseguir concentrar-me e unificar-me com a floresta tropical, sentia-me bem e feliz. Cheguei à conclusão de que estava feliz por duas razões. Uma, porque aquele local era lindíssimo e estava a concretizar um sonho da adolescência. Duas, porque estava com fome. Estar feliz por estar com fome pode parecer à partida uma coisa estúpida, mas vistas as circunstâncias dos últimos três dias, não era assim tanto. Para quem passou esses dias sem comer e praticamente sem beber, sentir uma toupeira a escavar-nos no estômago e ouvir um barulho idêntico ao de uma retro-escavadora são factores que me levaram a uma felicidade descomunal. Já conseguia pensar nos pratos de quinoa com cenoura, nas rodelas de beringela envoltas em polme sem me provocar vómitos ou arrotos. Como era bom estar com fome!

A descida foi muito desgastante. É sempre mais fácil subir do que descer. Subir requer quase só trabalho cardiovascular, enquanto a descida pressupõe muitos bons músculos das pernas. Depois de pouco mais de uma hora a descer, os joelhos doem como picadas de alfinetes e se não estamos bem treinados começamos a ter espasmos descontrolados nas pernas o que pode levar-nos a cair. Não é nada agradável. Sendo já o terceiro dia consecutivo de caminhada, as nossas pernas estavam muito maçadas do esforço continuado.

Dei conta de termos chegado ao acampamento porque apareceu um edifício de tijolo com uma tabuleta a informar que estava no Centro de Investigação Biológica do Parque Nacional de Machu Picchu. Bolas, finalmente! Mais de seis horas sempre a descer… Estava saturada. Ali, um núcleo universitário estudava a flora e a fauna autóctones. Havia fotografias de orquídeas, de vários animais e de índios da floresta amazónica, daqueles com pauzinhos enfiados no nariz, lóbulos de orelhas dilatados com grandes aros e tatuagens negras no rosto. Depois vi um dos nossos carregadores que tinha ficado para trás para nos informar que estávamos acampados na zona cinco. O que diabo é a zona cinco? Só depois de ter descido ainda mais alguns degraus e duas rampas em ziguezague é que compreendi. O acampamento de Winaywayna, onde me encontrava, era enorme. Tinha várias zonas de tendas, de várias empresas de caminhadas, todas numeradas. Mais de doze. Como o acampamento ficava numa encosta íngreme, tínhamos de seguir em ziguezague pelos vários socalcos até chegar à zona cinco.

Passei por outro edifício de tijolo, o bar, maior que o primeiro e segui um caminho estreito, junto de “casinhas” rudimentares que cheiravam demasiado a urina, até chegar à zona indicada. Vi caras familiares, cumprimentámo-nos com sorrisos e acenos e alguns sons monocórdicos (as forças não permitiam mais) e procurei o meu duffle bag dentro de várias tendas. Eu estava tão cansada que preferi deitar-me um pouco dentro da tenda, antes de fazer fosse o que fosse. Estive ali a tentar dormitar um pouco, até que decidi que a toupeira e a retro-escavadora incomodavam-me demasiado e que, apesar do cansaço, estava demasiado excitada para estar para ali deitada a olhar para o duplo tecto impermeável da tenda. Levantei-me, procurei dentro da mochila a minha Tupperware com frutos secos e fui até ao bar em busca dos meus amigos.

Logo na primeira visão do edifício e sem nunca ter entrado no seu interior, já tinha sentimentos contraditórios sobre aquele bar com música estridente e cheio de gente a falar muito alto. Assim que entrei, lembrei-me de um episódio idêntico na Serra da Estrela, quando passámos seis ou sete horas a caminhar pela encosta Oeste, comungando com a Natureza agreste da nossa montanha e chegámos por fim à Torre, com quatro graus negativos de temperatura.

Fomos todos a correr para dentro do café para nos aquecermos. Assim que entrei foi como se tivesse levado um soco em todos os meus sentidos ao mesmo tempo. O cheiro abafado de café e gordura de bolos, o televisor com o som muito alto, as pessoas a falarem aos berros, os talheres e os copos a tilintarem descontrolados, a luz artificial que me feria os olhos… Não tinha fome, nem sede. Preferi ir à casa de banho, só por comodidade, para não ter de expor o rabo a temperaturas negativas. Entrei na casa de banho e foi como se tivesse levado outro murro. O cheiro a urina era tão intenso que perdi por completo a vontade de fazer xixi. O caixote a transbordar de papel higiénico, o desenrolador de toalhetes vazios e a torneira imunda a pingar água foram demasiados. Saí para o vento gelado, preferindo suportar temperaturas negativas a uma ofensa aos sentidos. Quando se passa muito tempo no meio da natureza, com vistas, sons e aromas harmoniosos, tornamo-nos muito sensíveis a ambientes que não respeitam os ritmos naturais.

Como é que era possível num local tão turístico como o ponto mais alto de Portugal continental ter um café ou bar ou restaurante tão pouco dignificante? Nem sequer o ambiente interior era confortável. Apenas um espaço aberto com mesas corridas e cadeiras de alumínio. Parecia uma cantina de fábrica, com má iluminação e paredes nuas e frias. Depois de passar o dia todo no campo, entre as rochas e as urzes e a neve congelada, era incapaz de estar naquele local supostamente civilizado. Como é que as outras pessoas pareciam tolerá-lo? Provavelmente porque vinham até ali de automóvel ou em autocarros com ar condicionado, saíam para a rua, sentiam o vento cortante e gelado e corriam para o interior daquele edifício, abrigados de um Janeiro anormalmente frio e nevoso.

Ali, no último acampamento antes de Machu Picchu, a sensação foi parecida. Por um lado, aquele bar era um choque para quem queria se unificar com a Natureza ou pelo menos queria apreciar a beleza natural daquela floresta tropical. Por outro lado, sabia bem sentar-me numa cadeira de plástico em redor de uma mesa, junto dos meus amigos, a comer frutos secos e a bebericar um refresco.

Depois de ter petiscado meia dúzia de cajus e dois figos secos e de ter observado com mais atenção o interior daquela construção (claro que também visitei as instalações sanitárias), decidi que efectivamente aquele bar não era agradável nem tinha sido uma boa decisão construtiva e arquitectónica. Poderiam ter construído algo mais de acordo com o contexto da paisagem circundante; salientar a beleza natural; chamar a atenção às preciosidades da flora e da fauna locais; “vender” a paisagem e os recursos naturais turísticos a tantos estrangeiros que por ali passam todos os anos. Não era preciso contratar o Frank Lloyd Wright do além-túmulo para desenhar uma nova versão da Casa da Cascata. Bastava que tivessem construído edifícios em madeira, com um ambiente menos parecido com a Tasca da Coxa e indo ao encontro de ambientes que salientassem a paisagem natural local e lembrassem ou fomentassem a sua preservação.

Pelo ar relaxado, divertido e inconsequente de todos os que ali estavam, incluindo o barman engaiolado numa espécie de aquário onde se encontrava ele e a caixa registradora, parecia que só eu tinha estas dúvidas sobre Natureza versus Construção Civil versus Qualidade Ambiental. Mais ninguém se lembrava que estava no meio de uma floresta tropical com orquídeas raríssimas e índios que ainda viviam no Neolítico, nem se importava com as paredes esburacadas daquele bar, ou com o barulho ensurdecedor ou o cheiro a humidade, desde que tivesse uma Cusqueña na mão.

Continua